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Religioso que estudou em Bagé relata a longa e árdua travessia a pé pelo Peru
Publicado em 15/11/2019

Geral

Foto: Divulgação/FS

Pastores é uma das culturas muito fortes no interior da terra dos Incas

Por Márcia Sousa

Com 18 quilos mais magro, o frei Marcelo Monti Bica, 41 anos, que começou uma longa jornada a pé no dia 28 de agosto, em Porto Alegre, agora, está em Trujillo – uma cidade ao norte do Peru. Até agora, ele percorreu  7,5 mil quilômetros em um ano e dois meses e meio. Faltam nove anos para o religioso percorrer a pé os cinco continentes, nessa cruzada pela vida denominada de “caminhada de Aline volta ao mundo a pé pela vida contra a aids”. A jornada mescla a missão de incentivar jovens e famílias sobre prevenção do HIV e também tem cunho turístico, pelo autoconhecimento que essa experiência solitária proporciona na passagem pelos diferentes países.

Dureza nas Cordilheiras
Foi de Trujillo considerada a “cidade Cultural do Peru”, que o religioso conversou com a reportagem do jornal  Folha do Sul sobre a longa e árdua travessia pelo país andino. Só no Peru, Bica caminhou 2,4 mil quilômetros por entre montanhas, serras, alturas e altitude, o que lhe rendeu os quilos a menos. Faltam 500 quilômetros para ele deixar o Peru e entrar no Equador.
Bica conta que o país é muito grande e que teve que fazer várias paradas ao longo do percurso. Ele fala que conheceu lugares muito bonitos na terra do incas, porém diz que no Peru a cultura é bastante reservada, sobretudo na serra onde predomina a cultura indígena. Segundo o religioso, foi o país onde mais teve que pagar hospedagem, que menos teve contato com as famílias e que só pôde fazer uma palestra em uma escola. “De forma geral, posso dizer que foi uma experiência um tanto difícil e dura”, detalha.

Mas, em meio a esses desafios, o frei frisa que algumas famílias peruanas fizeram a diferença, o que, segundo ele, tornou o caminho mais fácil.
O religioso aventureiro registra todos os passos na forma de diário e publica nas redes sociais. Ele narra que no norte do Peru é muito calor e que se deparou com situações desagradáveis nessa região, como quando chegou em Huallanca, onde lhe deram um prato de batatas com atum, o que causou uma forte diarreia por três dias. “O bom é que, para mim, todos os campos são banheiros”, diz, de forma humorada.
Além do incômodo físico, ele se perdeu quando estava indo para Tanguche. “Assim, com a paciência de um monge budista, tive que retornar e seguir pelo outro lado do rio”. E acrescenta que algumas pessoas o haviam advertido dizendo que Tanguche era um lugar perigoso, pois alguns caminhoneiros haviam sido assaltados ao passar por esse lugar.
Nessa travessia entre montanhas, cordilheiras monumentais e florestas infindáveis, Bica conta que um amigo da capital do Peru, Lima, não conseguia se comunicar com ele e avisou a polícia e um amigo do Brasil para localizá-lo. “Isso me faz ver que uma multidão caminha comigo”, reconhece o religioso.
Questionado pela reportagem sobre como está situação econômica e política do Peru, já que vários países da América do Sul estão com conflitos, Bica responde que a situação é mais estável que o Chile e a Bolívia. “Nenhum conflito, nesse sentido não tive nenhum problema”, assevera.
Ao falar dos 18 quilos a menos, o frei atribui a isso a passagem por regiões de muita serra e altitude, o que, segundo ele, foi muito desgastante. “Faltam 500 quilômetros para eu deixar o Peru”, ressalta.
O religioso caminhante já passou pela terra de Eduardo Galeano (Uruguai), de Carlos Gardel (Argentina), de Pablo Neruda (Chile) e transitou pelo altiplano da Bolívia até seguir rumo ao Peru.

Caminhada solitária
O pontapé inicial dessa longa jornada  foi no Gasômetro em Porto Alegre, no dia 28 de agosto do ano passado. Da capital gaúcha, ele seguiu pelo litoral gaúcho com destino a Pelotas. Na Princesa do Sul, teve que esticar a parada devido a uma intervenção cirúrgica. Depois, seguiu destino a Bagé, cidade onde ele estudou e começou a formação inicial para a vida religiosa da Ordem dos Freis Capuchinhos. Percorrendo maior parte do tempo por estradas secundárias, pisou na Rainha da Fronteira em uma tarde de outubro do ano passado. Foi acolhido na Paróquia São Judas Tadeu, igreja onde foi atuante nas liturgias no tempo em esteve em Bagé. Daqui seguiu destino ao Uruguai.
Embora nesses mais de sete mil quilômetros percorridos em um ano e dois meses e meio, muitos o tenham acompanhado durante trajetos, na maior parte do tempo, a caminhada é solitária – tendo como companheiro apenas o carrinho com os pertences pessoais.
A mola propulsora, que o levou a essa longa jornada pelo mundo, foi motivada pela perda de uma irmã. Falar, conscientizar e dar apoio aos soropositivos a respeito da Aids – doença que matou Aline, aos 28 anos, é o objetivo de Marcelo Bica.
Religioso consagrado, ele pediu licença da ordem dos Freis Capuchinhos para fazer essa travessia pelos cinco continentes. Ele conta com doações para concluir essa jornada. A caminhada a pé tem previsão de durar 10 anos, com 90 mil quilômetros percorridos.
Como auxiliar e acompanhar
- WhatsApp de Marcelo: (51) 9 8508 6678
-facebook.com/caminhodealine
-instagram.com/caminhodealine

 

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