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Transplantes de órgãos
Quase metade das doações não efetivadas acontece por negativa dos familiares
Publicado em 09/11/2019

Geral

Foto: João A. M. Filho

Por João A.M. Filho

Em levantamento realizado pela reportagem do jornal Folha do Sul junto à base de dados do Centro de Transplantes do Rio Grande do Sul, constatou-se que 42,1% de todos os processos de doação de órgãos em pacientes com morte encefálica (ME) deixaram de acontecer por negativa dos familiares. Ao todo, foram 139 casos reportados entre janeiro e setembro deste ano, quando possíveis captações de órgãos para doações esbarraram na negativa da família do potencial doador. Enquanto isso, até setembro, o Estado contabilizava 1 537 pessoas na fila de espera por um órgão.

Ontem, em matéria exclusiva do jornal Folha do Sul, foi destacado que um homem vítima de traumatismo cranioencefálico sofreu morte cerebral na quarta-feira e a família concordou em doar os órgãos. A iniciativa para captação envolveu mais de 100 profissionais da Santa Casa de Caridade de Bagé, Centro de Transplantes do Estado e Hospital Dom Vicente Scherer, em Porto Alegre, onde pessoas da fila de espera aguardavam para receber as córneas, rins e fígado do doador. Com a ação que partiu da família do morador de Bagé, que em vida manifestou o interesse em doar, pode beneficiar e prolongar a vida de cinco ou mais pessoas.

Contudo, neste ano, enquanto a fila de espera para transplantes registrou aumento de 1,47% – de 1 375 para 1 537, o número de doações de pacientes em morte encefálica e vivos decaiu de 61 para 49 entre janeiro e setembro (19,67%).

Tabus

De acordo com a integrante da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) da Santa Casa de Caridade de Bagé, Lisiane Sefrin, um dos fatores que mais ocasionam a negativa de familiares para doação é a desinformação. “Muitas pessoas estão fragilizadas pela perda e acreditam que a captação dos órgãos pode deixar marcas visíveis ou mutilar e desfigurar o doador para o funeral, o que não é verdade. O cuidado e respeito das equipes para com o paciente doador é total, tanto que mesmo a retirada das córneas fica imperceptível. Tudo é feito com muita dedicação, visto da grandeza do gesto feito pela família num momento de perda”, destacou.

Em pesquisa do governo do Estado realizada em 2018, as principais razões para a doação não acontecer são: não ter se declarado doador em vida – 43%; familiar contrário à doação – 16%; demora na entrega do corpo – 13%; integridade do corpo (medo de desfiguração) – 12%; desconhecimento sobre a vontade de doar – 8%; preceitos religiosos da família – 3%; familiares não compreendem conceito de morte encefálica – 1%; não registrado e outros – 5%.

Lisiane ressaltou que é importante que o núcleo familiar seja informado da vontade de doar. “A única forma de garantir que caso o pior aconteça, os familiares estejam devidamente avisados e informados da vontade de doar”, argumentou.

Tipos de doação

De acordo com o Ministério da Saúde, um doador vivo é qualquer pessoa juridicamente capaz, atendidos os preceitos legais quanto à doação intervivos, que tenha sido submetido à rigorosa investigação clínica, laboratorial e de imagem, e esteja em condições satisfatórias de saúde, possibilitando que a doação seja realizada dentro de um limite de risco aceitável. Pela lei, parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores em vida. Não parentes, somente com autorização judicial. O doador vivo pode doar um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão ou parte da medula óssea.

Existem dois tipos de doadores falecidos – Doador falecido após morte cerebral: paciente cuja morte cerebral foi constatada segundo critérios definidos pela legislação e que não tenha sofrido parada cardiorrespiratória. O doador falecido nesta condição pode doar coração, pulmões, fígado, pâncreas, intestino, rins, córnea, vasos, pele, ossos e tendões. Portanto, um único doador pode salvar inúmeras vidas. A retirada dos órgãos é realizada em centro cirúrgico, como qualquer outra cirurgia.

O segundo tipo de paciente doador é aquele acometido de parada cardiorrespiratória –  doador cuja morte foi constatada por critérios cardiorrespiratórios (coração parado). O doador nesta condição pode doar apenas tecidos para transplante (córnea, vasos, pele, ossos e tendões).

O que determina se o órgão é viável para transplante é o estado de saúde do doador. No entanto, alguns profissionais podem restringir alguns limites de idade em situações específicas. A família do doador não paga nada e tampouco recebe qualquer pagamento pela doação. A doação é um ato humanitário, que pode beneficiar qualquer pessoa, sem distinção de sexo, credo, raça ou outras particularidades.

Apoio

Todos os hospitais públicos, privados e filantrópicos com mais de 80 leitos devem ter a presença da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), que inclui a Santa Casa de Caridade de Bagé. As comissões são responsáveis por organizar o hospital para que seja possível detectar possíveis doadores de órgãos e tecidos no hospital; viabilizar o diagnóstico de morte encefálica, conforme a Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre o tema; criar rotinas para oferecer aos familiares de pessoas falecidas no hospital a possibilidade da doação de córneas e outros tecidos; e articular-se com a Central de Transplantes do Estado para organizar o processo de doação e captação de órgãos e tecidos. “Ressalto que é um grandioso ato de solidariedade e amor oferecer os órgãos para doação. Este gesto tão grandioso pode salvar muitas vidas e não tem preço”, disse a enfermeira Melisa Collares.

 

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