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Produtores da região pedem ao MP gaúcho a suspensão do uso de 2,4-D
Publicado em 09/11/2019

Geral

Foto: Giovâni Silveira Peres/Especial FS

Culturas sensíveis têm sido afetadas por deriva de herbicida

É novembro e o Rio Grande do Sul avança nos trabalhos de plantio de soja para a próxima safra de verão. Contudo, enquanto o principal produto agrícola de exportação do Estado começa a tomar espaço para mais uma safra recorde, outras culturas produtivas enfrentam, novamente, prejuízos causados pela deriva do herbicida 2,4-D. Isso porque já são diversas as denúncias de suspeitas de deriva do produto em propriedades gaúchas, muitas localizadas na Campanha.

Esses relatos dão conta de que, muito em função do vento, o agrotóxico acaba se dissipando para áreas vizinhas de implantação de lavouras, atingindo propriedades com parreirais, pomares de frutas e olivais. O fato é que se no final de outubro o levantamento apontava cerca de 22 denúncias para averiguar se havia presença do herbicida nessas culturas; na terça-feira passada, o número já havia aumentado para 66. Isso motivou uma delegação de produtores da região da Campanha, muitos integrantes da Associação Vinhos da Campanha Gaúcha se reunirem com o promotor Alexandre Saltz, na quinta-feira, na sede do Ministério Público em Porto Alegre. No encontro, conforme o sócio-proprietário da vinícola Batalha, de Candiota, e também diretor técnico da entidade, Giovâni Silveira Peres, foram os inúmeros casos de deriva identificados em todo o Estado, em especial na região, em municípios como Dom Pedrito, Bagé, Candiota e Santana do Livramento. “Colocamos para o promotor que nós queremos a suspensão do produto. Isso porque mesmo com as normas estipuladas pela Instrução Normativa publicada em julho, já aconteceram muitos casos de deriva. Os próprios técnicos da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural que estiveram para coletar amostras na região, disseram que está difícil fazer esse acompanhamento porque estão surgindo muitas denúncias. Pesa também o fato dar região ser extensa para poder fazer essa fiscalização”, detalha Peres, que informa que, na reunião, foi entregue um documento pela associação para que se suspenda o uso do produto no Estado.

Ainda, segundo o engenheiro agrônomo, foi apresentada pelos próprios técnicos da Secretaria da Agricultura a necessidade de ampliar o número de equipes para fiscalizar ou formatar uma força-tarefa para que se faça esse acompanhamento sobre os pontos que estão ocorrendo deriva do herbicida. “Nós somos favoráveis à suspensão do produto pela série de danos nas culturas e, se continuar o uso do 2.4-D, a diversificação de culturas no Estado terminará. Isso porque as derivas estão prejudicando os parreirais, as oliveiras, as macieiras, a produção de erva-mate. Mas se suspender o 2.4-D, há alternativas para a lavoura de soja. Existem outros herbicidas que podem ser utilizados para a produção de soja, tanto a questão de manejo inverno com outros herbicidas, algumas custam, no máximo meio saco de soja por hectare”, salienta Peres, que complementa: “Não se pode generalizar. Há produtores que aplicam o produto de forma correta, mas têm muitos que não estão preocupados com a questão climática, mal para de chover e já estão colocando o herbicida”, finaliza.

Conforme a assessoria de comunicação do Ministério Público, o promotor Alexandre Saltz recebeu o pedido de suspensão do produto encaminhado pela associação e aguardará o resultado da análise laboratorial dos materiais que foram coletados. A partir do resultado, o MP tomará alguma iniciativa em relação à demanda levada pelos produtores de Bagé e Dom Pedrito.

Prejuízos e medida

No começo deste ano, inúmeros produtores apontaram extensos prejuízos em parreirais, macieiras e olivais no Estado. Com esses prejuízos comprovados foi identificada a deriva em propriedades rurais da Campanha, Fronteira Oeste, entre outras regiões. No ano passado, foram realizadas 81 análises das quais 69 apresentaram o princípio ativo 2.4-D, representando 85,2% de contaminação por deriva. 

A partir daí iniciou-se uma discussão sobre o tema entre produtores atingidos pela deriva, agricultores que defendem o uso do herbicida, entidades ligadas ao segmento do agronegócio gaúcho, o fabricante do 2,4-D, Ministério Público e os poderes Executivo e Legislativo gaúcho. Com isso, em julho, o governo do Estado publicou a Instrução Normativa 05/2019 que estabelece o termo de conhecimento de risco e de responsabilidade. Nela, o produtor rural ou representante legalmente habilitado deverá assinar a receita agronômica, ficando ciente de que os produtos agrotóxicos hormonais, inclusive os produtos com ingrediente ativo à base de ácido 2,4-diclorofenoxiacético (2,4-D), em caso de deriva, causam grandes prejuízos para as culturas sensíveis, destaca o texto do documento. Já a Instrução Normativa 06/2019 estabelece regras para o cadastro dos aplicadores de produtos agrotóxicos hormonais e a necessidade do produtor prestar informações sobre o uso do produto. Além disso, 24 municípios foram notificados a atender as novas regras de aplicação do produto de julho de 2019 a maio de 2020, entre eles Bagé, Candiota, Dom Pedrito, Hulha Negra.

Ao longo dos debates realizados no ano sobre a criação de limitações para uso do produto, entidades como a Farsul e a Aprosoja/RS defenderam o uso do herbicida pela qualidade e resultados que ele oferece à cultura da soja. Ambas destacaram a defesa pelo regramento das tecnologias de aplicação do 2,4-D, treinamento de aplicadores para impedir que surjam novos casos de deriva, entre outras medidas para garantir a permanência do uso da molécula.  

 

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