PAPO DE ELEVADOR - 6 DE NOVEMBRO
Publicado em 06/11/2019

Papo de Elevador

Foto: Reprodução/FS

Doutor Abero
Foi-se o Dr. Abero. João Bosco Abero, nascido em Aceguá, no ano de 1935, advogado, escritor, professor, intelectual. Foi-se no dia 31 de outubro de 2019. 
Um dia tive a honra de lhe dizer: “Quando crescer, se um dia crescer, quero ser o Dr. Abero”. Ele me apresentou os poemas de Camilo Rocha, os contos de Ramon Wayne, falou-me do talento de Glauco Rodrigues, Glênio Bianchetti, Danúbio Gonçalves e Carlos Scliar. 

Cultura artesanal
Foi-se o Dr. Abero. Um homem que fazia do conhecimento, do aprender e do saber pensar  motivos alegres de ser e viver. Com serenidade, reconhecia a cultura em suas infinitas manifestações, mais ainda no pequeno gesto do homem simples. Dr. Abero não era um intelectual desses que a gente vê por aí produzidos em linha de montagem. Ele era artesanal. Como os poemas do Camilo Rocha, que tanto gostava. 

O escritor e a criança feliz
Certa feita, em uma das entrevistas que me oportunizou, foram duas para jornal e uma para a TV Câmara, contou a ideia original do romance que depois se tornaria o livro Mil e Um Jazigos, sobre o entrelaçar de pedras tumulares e os cacos de Sandoval Valdívia, o marmoreiro. Havia um brilho no olhar daquele escritor, uma criança tensa, eufórica, entusiasmada para compartilhar sua obra. Assim fez feliz.
Agora, foi-se o Dr. Abero.

Radialista e colunista
Houve um dia em que falou de amigos. Eram tantos ao longo dos anos. Muitos já estavam longe, outros aqui e ali para conversas e acenos. Disse-me da sensibilidade do amigo Edgar Muza e do imenso prazer que sentia em participar do Visão Geral, aos sábados, na Rádio Cultura. Também discorreu sobre um acordo que tinha com João Batista Benfica, nos tempos do Correio do Sul, quando ele era colunista. O acordo: - Não escrever em jornal sem ser pago, nem que fosse uma quantia simbólica. E não escreveu. 
Foi-se o Dr. Abero que gostava muito de escrever para o Correio do Sul e de falar na Rádio Cultura.

Uma opinião
 “Difícil missão propõe-se o extremismo de direita: ressuscitar o comunismo. Reencarná-lo, dar-lhe visibilidade como atroz e assustador cataclismo. Os denodados bolcheviques, anteriores e posteriores à tomada de poder na Rússia; os famosos dirigentes europeus, celebrizados pela resistência ao nazismo, fiéis à ortodoxia marxista da ‘luta de classes’, da mais-valia, da concentração dos meios de produção em poder do Estado e demais fantasmagorias que tiveram solene funeral na derrubada do Muro de Berlim, estariam vivos, lépidos, faceiros, mais cruéis e pérfidos que nunca.
Mas onde? Por toda a parte. Não os vemos, nos dizem, porque somos ‘idiotas úteis’. Nos bancos, no Vaticano, nas universidades, na alta empresa, na cúpula científica. Sua ideologia totalitária teria mudado de pelo. Tem agora como carro-chefe a defesa do meio ambiente, o globalismo, a legitimação da união homossexual e bandeiras assemelhadas.
De onde, Santo Deus, emanam tantos disparates? ” – Texto sob o título de O Morto, de João Bosco Abero, em sua página no Facebook, dia 12 de setembro último.  

Um soneto
Não me tires de mim, sou tudo que me resta
Nesta, feita de eus, recôndita tapera
Não me tires daqui, desta falida festa
Em que borbulham sons de uma fugaz quimera.

Sei que é registro vão de imaginária gesta
Espadas de papel e armaduras de cera
Magra cavalaria, enferrujada besta
Encostada à parede recoberta de hera.

Mesmo assim vivo aqui. Meu cão já surdo e cego
Ouve meu grito ainda e se assanha pra luta
Não me leves daqui, respeita meu sossego.

Leva de mim apego, a palavra impoluta
Minha jura de amor e algum troféu te entrego
Mas deixa-me ficar sepulto nesta gruta
(João Bosco Abero)

Foi-se...
Foi-se o Dr. Abero. Resta-me a felicidade de termos convivido um pouco. Feliz por ter sido meu advogado em uma causa que defendíamos a liberdade de expressão e vencemos! Feliz por ter escrito na dedicatória de Mil e Um Jazigos que – “me tinha grande admiração, com fundadas razões”. Feliz por ter aprendido tanto com ele.
Foi-se o Dr. Abero. Resta-me ele por suas lições; resta-me ele com o respeito pelas opiniões. Resta-me ele com carinho! 

 

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