PAPO DE ELEVADOR - 28 DE SETEMBRO
Publicado em 28/09/2019

Papo de Elevador

Foto: Divulgação/FS

O elevador e a cartomante
Fui até o edifício Avenida com a intenção de obter informações sobre o relógio, como consertar, quanto custa e como fazer. A cidade precisa conhecer seu tempo.  
No elevador, junto comigo, entrou uma cartomante. Antiga na cidade. Coisa de 35 anos nesse mundo de cartas e previsões. E, antes que eu perguntasse qualquer coisa, falou da situação na prefeitura.

“As cartas não mentem, jamais”
Não acredito muito nessas coisas, cartas, búzios, astrologia, borra de café e bruxas. “Pero que las hay, las hay.” A cartomante foi muito lúcida, não havia extravagância ou tiques em seus gestos e falas. Apenas um leve sotaque espanhol. Disse-me que já havia lido o futuro e afirmou, objetivamente:
- A situação será revertida. Mais rápido que o próprio prefeito pensa. E olha que faz muito tempo que convivo com as cartas. Elas não mentem, jamais.
Fiquei parado. Pensativo. A cartomante desceu do elevador. 

O relógio e o atraso
Enquanto olhava aquela mulher indo embora de costas e a porta do elevador começava a fechar, ela se virou e num tom elevado pediu:
- Quando ele voltar pede para arrumar o relógio do Avenida. Isso vai ajudar a cidade a seguir em frente. Esse relógio parado atrasa Bagé. 

A revelação
A revelação me pôs reflexivo. 
- Relógio parado atrasa? Não seria o PT?

Interferências
Mais tarde, ainda sob o impacto da cartomante, pesquisei sobre cartas e previsões ao longo da história. Li o pedido do Ministério Público e a decisão de afastar o prefeito Divaldo das suas funções. Conversei com um e outro advogado sobre o impacto disso na população, a comoção e o prejuízo, visto que se trata de alguém eleito pelo voto popular e na maior votação da história de Bagé. 

E se for inocentado?
A cartomante foi enigmática e lúcida. O desembargador em sua decisão cautelar foi enigmático. A cartomante fez uma previsão, se não pelas cartas pelo fato de que o prefeito teve um ano para atrapalhar as investigações e ocultar provas. Se não o fez em um ano, por que o faria agora? E se for inocentado? Quem paga o prejuízo? O que será justificado para as 45 948 pessoas que depositaram seus votos nele?  

Investigue-se
Problemas com contratos e licitações acontecem aos borbotões por todos os cantos, em inúmeras prefeituras. Só aqui em Bagé quantos prefeitos tiveram problemas com isso? 
Tem que ser investigados? Sim. Óbvio. É o que está acontecendo. 

A festa dos anos 90
Nos anos 90, contou-se muito a história de um prefeito de Bagé que havia sido cassado, por decisão judicial. A equipe de gabinete de seu vice-prefeito comemorou, inclusive jogou foguete da janela da prefeitura na avenida General Osório. 
Em menos de 24 horas essa decisão foi revertida e o prefeito já não estava mais cassado.
Pena que não havia rede social na época. Identificaria-se os festeiros por “print”.

A bomba e o track
Lembro que uma vez o então vice-prefeito Jucelino Rosa dos Santos denunciou o prefeito Mainardi por direcionamento numa licitação de retroescavadeira. Lá por 2004. Tal revelação foi anunciada com antecedência como uma grande bomba na política bageense. A denúncia foi comprovada. O valor da compra não era alto. Algo em torno de R$ 12 mil de diferença de um produto para outro. Os jornais não deram importância ao fato. 
Era um tempo em que não se ouviam tanto quando as denúncias eram contra o PT, nem na imprensa, nem na Câmara.

Atire a primeira pedra
O médico Luís Kalil, que foi prefeito de Bagé de 1989 a 1992, passou duas décadas respondendo por apontamentos de irregularidades em seu período administrativo. Com Carlos Azambuja e Luiz Alberto Vargas não foi diferente. 
Na verdade, que atire a primeira pedra o prefeito que não teve pendenga com a Justiça por denúncia de irregularidades.  

Justiça sim e não
Alguém há de pensar que agora é diferente, a coisa é maior, houve afastamento do prefeito, viaturas e tal. Realmente, está tudo muito diferente. A Justiça mudou. A Polícia mudou. O Ministério Público mudou. Aliás, o PT reclama muito disso. Inclusive quer fazer Sérgio Moro de Judas em Sábado de Aleluia. 
Nunca vi um partido que atacasse mais a justiça que o PT. E agora vibra com essa mesma justiça contra quem se põe. 

Viaturas, armas e bagunça
Mas, sobre viaturas, operações, mandatos de buscas e apreensões, nada disso é novidade aqui em Bagé. Já tivemos e não faz muito tempo. Houve até apreensão de armas de deputado. 
Por isso, vamos aguardar a investigação ser concluída. Vamos esperar a defesa e o julgamento. 
Eu compreendo a apreensão, a festa, a ira, tudo. Afinal, o prefeito não é nenhum desanimado, quieto e songo-mongo. Ele mexe, bagunça, grita, faz e acontece; pega o relho, xinga e corre atrás do PT. Então... fazer festa nesse caso faz parte. 
Eu é que não consigo parar de pensar na cartomante e no relógio do atraso. 
- Será que é o relógio que atrasa Bagé?

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