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Papo de elevador - 28 de agosto
Publicado em 28/08/2019

Papo de Elevador

Foto: Reprodução/FS

Bagé, cidade inusitada
Refletir sobre a nossa cidade, sobre a sua história e acontecimentos marcantes, leva à conclusão que estamos em um lugar, no mínimo, inusitado e muito estranho. Não só por suas “primazias” já contada e publicada pelo professor e escritor Cláudio Lemieszek. Ou seja, não por nosso pioneirismo, que não é pequeno. 

O que somos?
O que quero aqui registrar vai além, não no sentido megalômano, mas inusitado, extraordinário, esquisito, estranho. Houve um tempo, por exemplo, em que não sabíamos se estávamos sob a tutela de Portugal ou da Espanha. Alguém tinha que nos dar essa notícia. Afinal, eram tantos tratados e acordos, mantidos e quebrados, que era difícil saber de que lado estávamos. E havia falta de informação para saber quem éramos.  
- Somos Brasil ou somos um país do Prata, perguntaria um estancieiro, recostado no rancho, olhando no horizonte um “centauro” se aproximando. 
E vupt. Voa a adaga para anunciar que agora eram inimigos.  

Certidão de nascimento
Até maio de 1955 não tínhamos o 17 de julho de 1811 como a data de fundação. Foi um Congresso de História promovido pelo historiador Tarcísio Taborda que definiu o dia, mês e ano de nosso aniversário. Comemorávamos o ano de 1859 como aquele em que nos tornamos cidade. Tanto é assim que o Grêmio Esportivo Bagé ostenta o título de Campeão do Centenário, torneio ocorrido em 1959. 
Aliás, é bom lembrar que na data de fundação já havia 301 habitantes em Bagé. 

Sete fábricas 
Em 1884, a Câmara Municipal, presidida pelo vereador Feliciano Antônio de Moraes, queixava-se de nosso atraso, relatando que a indústria fabril era carente, constando apenas de duas fábricas de curtumes, dois moinhos, duas fábricas de sabão, uma fábrica de vela, sapateiros, ferreiros e carpinteiros. Só o que aqui crescia era a população, que já contava mais de 16 mil habitantes, segundo o censo de 1872. 
Ora, diremos, mas tinha mais que hoje!

Viva o Rei!
O nosso jornal mais famoso em todos os tempos foi o Correio do Sul, que durou de 1914 a 2008. Foram 94 anos. Sendo que nos primórdios defendia a Monarquia, pertencia ao Partido Federalista de Gaspar Silveira Martins, conselheiro e ministro de Dom Pedro II. É claro que alguém haverá de dizer que “não é bem assim”, mas era. E mantivemos por muito tempo nossa nostalgia por títulos de barão, visconde e conde.

Luz, telefone e carro  
Outro fato inusitado que nos contempla é ter ecoado aos quatro cantos nosso pioneirismo na luz elétrica. Não fomos o primeiro do Brasil, mas fomos o terceiro. Perdemos para Campos (RJ) e Juiz de Fora (MG). Então, fomos o primeiro do RS, se não nos falham os pesquisadores. Já o telefone chegou em 1901 e, reza a lenda, que o primeiro carro a rodar no Rio Grande Sul rodou em Bagé no ano de 1906, um Holsalia importado da Alemanha pelo industrial Emílio Guilain. 
    
Raio X e troca de sexo
Na Medicina tivemos Raio X em 1901 (ou 1903?) e realizamos a primeira cirurgia de troca de sexo do Estado, em 1939. O doutor João Batista Ficou transformou a jovem Almerinda de 15 anos no adolescente Henrique. Segundo relatou o jornalista Mário Lopes, em seu livro Bagé Fatos e Personalidades, os pais viram que a menina fazia “xixi” em pé e estranharam. Quatro médicos participaram da intervenção. 

Sal e geladeira
Há algum tempo, coisa de 50 anos, bageenses defendiam a tese que Bagé não progrediu porque ninguém avisou que a geladeira havia sido inventada e continuávamos a salgar carne enquanto as outras cidades as conservavam em frigorífico. 

Terra do tinha
Sabe aquela história do Bagé, terra do tinha? Segundo Tarcísio Taborda, em um artigo no Correio do Sul, Herculano Gomes é o autor dessa máxima. Avô da vereadora Sonia Leite. 
    
Pena de morte
A Rainha da Fronteira é assim mesmo. E gostamos disso. Já fomos conhecidos no Brasil como a cidade que aprovou a pena de morte por lei, em sessão oficial da Câmara de Vereadores. Se  verdade ou mito, é outra história. A gente até pode saber que não é bem assim, mas deixa como está. 

Nordeste do Sul
Ah, também ficamos famosos por ser a caatinga nordestina no Sul no período da grande seca de 1989. Por vários dias daquele ano estivemos nas manchetes dos jornais impressos, nas televisões e rádios do país. Terra seca. Lata d´água na cabeça. Caminhão pipa. Gado magro. Essa era imagem que exportávamos.  

Analista de Bagé
O personagem mais famoso da cidade no início dos anos 80 era o Analista de Bagé, ficção de Luís Fernando Veríssimo. Sucesso editorial brasileiro. Virou HQ, virou teatro. Mas, o mais incrível é que Veríssimo não conhecia Bagé, era só de ouvir falar. Tanto que só veio à cidade cinco anos após o lançamento do livro, em 1986. 

Ônibus da 7
Enfim, o que não nos falta são fatos inusitados. Alguns são de consumo interno, como na década de 1970, quando uma linha de ônibus percorria apenas uma quadra da avenida Sete, mas era chamado de o “Ônibus da 7”, assim como a Casa Vermelha que era cinza, a Esquina da Carne que era no meio da quadra e o “Turco”carnavalesco e umbandista.

Velório de vivo
Assim é Bagé, que reverenciou o túmulo de um índio por mais de um século onde não havia nem túmulo nem índio, que saudou um príncipe negro feiticeiro e que até hoje acredita que padres e freiras se encontravam em um túnel no subsolo do centro da cidade. Pois esta mesma cidade, segundo a nova lenda urbana, faz velório de gente viva, com direito a caixão e missa de corpo presente.  
Salve Bagé! E que continue o mantra...

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