PAPO DE ELEVADOR - 19 DE OUTUBRO
Publicado em 19/10/2019

Papo de Elevador

Foto: Reprodução/FS

Isenção dos principais jornais do Brasil é contestada

A isenção e a canalhice
Tenho ouvido nos últimos dias um papo de jornalismo isento e sem tendências, um papo que corre frouxo e livre na proporção da hipocrisia dos faladores. Prefiro mil vezes confessar que esta coluna ou este jornal tem lado que ir atrás da canalhice dos falsos isentos. Ter lado, direita ou esquerda, liberalismo ou socialismo, não é permissão para mentir. Pelo contrário, mais a verdade tem de estar presente.

O teto da notícia
Existem várias formas de travestir o jornalismo de isento. Uma delas é dar um teto às notícias. Os acontecimentos têm uma fronteira, um limite. Ou seja, notícias contra meu grupo político não podem virar manchete, não podem ser destaques. Esses acontecimentos aparecerão no rodapé ou numa nota de canto de página. Mas não virarão destaque, jamais. E ninguém pode acusar o jornal de não dar a notícia. “Tu não visses a informação. No entanto, ela está lá, quase atrás dos olhos azuis do prefeito”. 

Colunistas avalistas
Outra estratégia muito apreciada pelo jornalismo isento-canalha é utilizar-se de colunistas que podem oferecer a notoriedade de imparcial. A maioria deles famosos, conhecidos de uma tela de televisão. Esses falarão do presidente da República, de Cuba pobre, da Amazônia queimada, etc. Assuntos distantes com cara de posicionados, alguns até fortes acusando o ex-presidente Lula de ladrão condenado ou Bolsonaro de homofóbico e racista. No fundo, maquiagens, que só servirão como argumento para convencer que o jornal é isento. 

Personalidades da aldeia
O jornal que se faz de isento adora colunistas “personalidades de aldeia”. Ou seja, gente da própria cidade, como um médico, um ex-prefeito, um intelectual de Lions ou algum empresário apaixonado por mostrar suas ideias. Esses “mezze personalitá”, como diria Don Corleone, criam empatia com a comunidade local, fazendo-a jurar que “esse é o jornalismo isento, pois até o doutor Sá escreve lá”. 

Ter lado não é crime
É difícil um jornalismo isento. Pode-se até tentar chegar perto em se tratando de país e cidades como São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. No interior, não. Tu estarás sempre a favor da polícia, do Bagé e do Guarany, do “doutor”, do prefeito ou do deputado. 
Nada disso seria problema, não fosse essa história de fingir-se isento, maquiar-se.
Repito: ter lado não é crime, pode ter lado, só não pode mentir.  

O vendedor me engana
Jornal não é concessão pública como rádio e televisão. Jornal é empresa privada que vende informação. O consumidor ao comprar o jornal está comprando informação. Assim sendo, por exemplo, eu não posso chegar numa loja acreditar que estou comprando um produto quando, na verdade, estou comprando outro. O jornalismo travestido de isento nem sempre está cometendo um crime, mas está induzindo o leitor ao erro. Está enganando. 

A tendência independente
Como já escrevi aqui “existem várias formas de travestir o jornalismo de isento”, o que não quer dizer que não exista a isenção. A tendência atual do jornalismo independente busca o financiamento espontâneo através da internet, assinando newsletters, compartilhando conteúdo, participando de eventos e fazendo doações. E, mesmo esses, têm seus limites de independência, porque já vem com a ideologia embutida. 
Humor no jornal
Um grande exemplo do falso isento é usar como “bengala” o humor.  O humor diz tudo, confessa tudo, esculacha tudo e envenena o máximo que pode, segundo o interesse da empresa. Ou seja, do jornal. O humor no jornal é como uma dependência à parte, como uma sala no fundo à esquerda, subindo às escadas, onde o “dono” vai em ocasiões especiais, por necessidade própria ou sarcasmo. Para dizer algo como: 
- Esculacha aquele “filho da mãe”! Esculacha!

Microproblema e macro solução
Uma das maiores maquiagens do falso jornalismo isento é aquela que coloca críticas de apelo popular, mas que são microproblemas no universo político. E, mesmo esses “probleminhas”, aparecerão com solução logo a seguir. Exemplifico. Uma foto de um buraco na avenida Presidente Vargas, “que atrapalha o trânsito, quebra carros e é uma vergonha. Quando a prefeitura tomará uma providência? “O leitor é capaz de acreditar que o jornal está fazendo seu papel. Dois ou três dias depois, “oba, o prefeito resolveu o problema!” E aparece o destaque na página com a solução maior que o problema. Os pulhas adoram isso!

Piratas da moralidade
Outra coisa absurda que observo, não em jornal impresso, mas em rádios piratas. Os apresentadores criticam deus e o mundo, fazem-se de arautos do direito e da moralidade, são baluartes de um novo mundo possível, melhor e ideal. No entanto, a bordo de um navio pirata, saqueando o governo e as embarcações comerciais legais, burlando a legislação, rasgando a Constituição! 
“Ora, estou farto de semideuses”, diria Fernando Pessoa. Mas isso é tema para outra coluna. 

 

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