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Papo de Elevador - 17 de agosto de 2019
Publicado em 17/08/2019

Política

Foto: Reprodução/FS

Jucelino. Autêntico, amigo e sabia pensar

 

É muito difícil saber, dizer e escrever que meu amigo, meu irmão, parceiro de tantos embates e de tantas caminhadas juntos, Jucelino Rosa dos Santos, se foi. Difícil não mergulhar nas lembranças de 39 anos, na trajetória do PDT, nas análises políticas, nas dúvidas sobre estratégias, nas conversas jogadas fora, tão úteis e necessárias para nós, nossas vidas, nossos amigos e familiares.

Jucelino era um cara diferente. Tinha seu jeito próprio de amar, de ser próximo, de demonstrar seus sentimentos, de fazer pelas pessoas. Jucelino sabia pensar. E, talvez seja esta uma de suas mais significativas virtudes: saber pensar. Quando vereador, ouso afirmar que pelo conjunto das qualidades foi o melhor vereador que acompanhei na Câmara de Bagé, sabia analisar um projeto, conhecia profundamente o trâmite legislativo, o orçamento, a articulação política e discursava como raros. Sabia o que era ser vereador, porque sabia pensar. Quando Jucelino levantava de sua bancada, ajeitava as calças e se dirigia para a tribuna fazia-se o silêncio para ouví-lo. Porque ele sabia pensar e sabia expor seus pensamentos de uma maneira contundente.

Foi um dos mentores do lançamento da primeira mulher para uma chapa majoritária em eleições municipais em Bagé, Marília Loguércio Ferreira. Eleita vice-prefeita em 1985.

Junto ao seu irmão, Francisco José, o Chico Brizola, trouxe ao PDT uma nova conduta político-partidária, uma espécie de socialismo-trabalhista. Até então o trabalhismo bageense estava preso aos anos 50.   

Com Jucelino teve início as associações de moradores de bairros em nossa cidade; uma nova forma de fazer oposição: forte, firme, convicta de ideias, porque ele sabia pensar.

Difícil esquecer vitórias e derrotas. Da eleição do PDT para a prefeitura em 85 - a primeira vitória - à traição do PT em 2003, que deixou uma ferida jamais cicatrizada e marcou sua vida como uma grande derrota, depois de tudo o que fez para vencer o pleito de 2000, brigando com metade do partido, engolindo sapos e transformando a Câmara em um campo de batalha.

Jucelino jamais perdoou a traição do PT. Tanto que nos últimos meses com as tentativas de uma aproximação petista para as eleições do ano que vem procurou o prefeito Divaldo Lara para uma aliança com o PTB em 2020. E os dois vinham conversando há algum tempo, inclusive antecipou a convenção partidária para que não houvesse interferências estranhas, que ameaçavam com suas sombras as hostes brizolistas. Fez isso com a razão de quem sabia pensar.

Talvez tenha sido esse seu último ato político. Ele que era um animal político, de corpo e alma.

Difícil não destacar aqui que depois da traição petista, restou-lhe uma candidatura avulsa, chapa pura, para a prefeitura, em 2004. Conversamos na ocasião que se tratava de uma candidatura para que o PDT de Bagé se mostrasse e mostrasse que não desistira da luta.  A melhor música daquela campanha, composta por Tiago Cezarino, dizia “ele é o mais preparado para governar Bagé”.  Porém, era uma eleição difícil. Doía saber que ele próprio entregara o poder para o PT, mas reconfortava-se na frase de Darcy Ribeiro “detestaria estar no lugar de quem me venceu”.

Depois daquele pleito, montamos um jornal juntos, o Página VII, jornal de vanguarda, com uma equipe maravilhosa, aguerrida e entusiasmada de jornalistas. Fracassamos. Mas também esse fracasso soou como uma vitória, porque crescemos muito no processo. Inspirávamo-nos na lembrança das derrotas de Leonel Brizola e aprendíamos a lamber feridas.  Discutíamos. Brigávamos. Sem nunca ficamos magoados, inimigos ou distantes. Brigávamos porque era preciso, fazia parte da caminhada. E era esse o processo que me permite afirmar: Jucelino sabia pensar.

Quando foi secretário de Saúde, dentro da coligação fatídica com o PT,  sentiu que poderia realizar muito e começou uma trajetória de “fazimentos”, a palavra é de Darcy Ribeiro. Centro do Idoso, Centro Odontológico e Centro Pediátrico, que chamava com humor de “centro do velho, da boca e da barriguda”. Pois, ali ocorreu o rompimento da coligação PT/PDT, que comandava a prefeitura. Ali, no momento em que mais Jucelino mostrava que podia administrar, fazer e se tornar o cara do Executivo, aquele que eu sempre soube que seria tão bom quanto foi no Legislativo.

Mas aí, o “inimigo” resolveu interromper o processo. Porque, imagina, se ele sabia pensar, imagina se também soubesse ser prático e se tornasse um tocador de obras? Isso, não; é o que diz o manual da mais canhestra forma de fazer política.

Ainda bem que acabou indo para Porto Alegre se tornar amigo da deputada Juliana Brizola, onde foi feliz no seu PDT autêntico. Com Juliana, Jucelino estava no PDT, estava no Rio Grande, estava em Bagé, estava com quem o amava e era na luta que se sentia feliz.

Eu convivi com uma pessoa que valorizava o sentimento verdadeiro, uma pessoa que sabia pensar. E isso é para poucos, muito poucos.

Um abraço, meu irmão!

 

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