Nunca mais seremos os mesmos
Publicado em 04/04/2020

Editorial

Foto: Márcia Sousa

Por Márcia Sousa - editoral geral

Sim, nunca mais seremos os mesmos depois que essa pandemia for  varrida do planeta. A frase do título foi dita pelo pároco da paróquia Nossa Senhora da Conceição, frei Álvaro Bordignon, em uma entrevista publicada nesta semana, pelo jornal Folha do Sul. De forma bem racional e objetiva, o religioso, de postura serena e voz suave, falou: “Estamos vivendo um momento difícil, de crise e pânico”. Em seguida, num tom mais espiritual, disse: “Depois que passar essa crise, nós não seremos mais os mesmos”. O mundo inteiro vive uma crise sem precedentes na história da humanidade. Desde os mais remotos lugares deste planeta, as grandes metrópoles vivem o mesmo drama. A pandemia fez pobres e ricos, sem distinção, se ajoelhar diante dessa dura realidade que não poupa ninguém. O momento requer recolhimento por precaução à própria vida e a dos outros. No momento, esse é o maior remédio e não há outro. Mas, por outro lado, esse isolamento imposto e necessário tem seus efeitos colaterais – que pode ser para cura da alma e a cura das relações humanas que vinham sendo tão combalidas nos últimos tempos, ou pode ter seu efeito letal. Depende de cada um e de como ele vai sair do recolhimento para a luz do dia. Quem diria que algo que começou em um lugar remoto, no longínquo país da China, iria chegar de forma tão galopante à Rainha da Fronteira, no outro lado do mundo. Para quem vive o jornalismo e como testemunhas oculares da história, esse últimos dias são de incertezas, medo e aprendizado. E aqui mais uma vez a frase: “nunca mais seremos os mesmos”. O jornal Folha do Sul tem abordado em suas páginas todas as facetas sombrias do que essa pandemia está nos impondo. Hoje, uma das mais dolorosas é o fato de os familiares sofrer limitações até para prantear os seus mortos. Outra questão que requer muita atenção e, sobretudo, muito carinho por parte de todos, são os idosos. Neste momento, eles são os que mais estão sendo colocados à prova e não só pela ameaça da doença. Eles, que construíram uma história, hoje são desafiados também pelo preconceito. Muito vão à rua por necessidade, outros porque moram sozinhos, porém são vistos com maus olhos. Primeiro, temos que procurar saber a realidade de cada um, antes de julgá-los. Hoje, os idosos são os preferidos para criações humorísticas nas redes sociais; as piadas até nos fazem rir, mas, no fundo, não paramos para refletir sobre essa situação imposta a eles, embora necessária para preservá-los. Contudo, é necessário ir mais fundo e refletir sobre os efeitos colaterais do isolamento aos idosos, bem como eles irão enfrentar o amanhã sem cair uma depressão. Como testemunhas oculares, ouvimos uma pessoa em prantos, pois não pôde estar presente na morte de um amigo. Assim, vimos de forma imensurável, o retorno para casa do médico Luiz Alberto Vargas, que  estava na UTI. Isso  foi um alento para milhares de pessoas. Essa notícia publicada na página do Facebook do jornal - sobre um dos médicos mais queridos da cidade - foi uma das mais acessadas dos últimos tempos; ali, se viu como isso reacendeu as esperanças. No meio de tamanha angústia, à noite, muito voluntários anônimos levam um prato quente de comida para os profissionais de saúde – gesto que não tem como não emocionar e ver que realmente não seremos mais os mesmos. Algo que estava tão perdido, como um simples toque, hoje é uma das maiores ânsias do ser humano assim que ele sair de casa para o reencontro. Ontem, os olhares estavam voltados para o gigante asiático, depois para o velho continente. Hoje, estão voltados para a Rainha da Fronteira, terra  marcada por muitas lutas e combates. Hoje, os bageenses veem com apreensão médicos acometidos pela doença, assim como outros profissionais da saúde. A Santa Casa de Caridade de Bagé, no alto da cidade com o campanário de sua capela, clama pelas orações e todo o auxílio possível, pois lugar da cura foi o primeiro a ser acometido por essa pandemia. É lá que estão os fortes e aguerridos profissionais na linha de frente e que merecem todo o reconhecimento. O mesmo se aplica a uma legião de profissionais que não pode parar, para que a vida prevaleça, entre eles os caminhoneiros que atravessam esse imenso país para que ninguém venha passar fome por falta de abastecimento. Nada será o mesmo que antes. Começa a Semana Santa, que mais do que nunca, desta vez, será  austera no mais puro sentido da palavra. Logo mais vem a Páscoa, que é a ressurreição e a vida, a festa mais importante para os cristãos, pois Cristo venceu a morte. Que esse tempo não seja só de incerteza e medo, mas que sirva para repensar a vida e o mundo e aí, sim, nunca mais seremos os mesmos.

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