Mulheres garantem espaço em profissões de segurança pública
Publicado em 28/03/2020

Segurança

Foto: Divulgação/FS

Em pleno ano de 2020, as mulheres ainda enfrentam dificuldades e são discriminadas em profissões que até pouco tempo eram ocupadas somente por homens, principalmente na área da Segurança. Por isso, ver uma mulher trabalhando na linha de frente de combate policial, na escolta de apenados, ou dirigindo uma viatura, para muitos, é surpreendente. Inclusive, muitas vezes, causa indignação e desconfiança em algumas pessoas. Isso não é mais aceitável. Hoje, a editoria presta homenagem à delegada da Polícia Civil, Carem Adriana Silva do Nascimento, e à agente penitenciária da Susepe, Célia Oliveira Kanaan, exemplos de mulheres que conquistaram seus espaços, persistiram em suas escolhas e buscam respeito. Essa é última reportagem da série em homenagem às mulheres.


Célia Oliveira Kanaan, 45, é farmacêutica e há cinco anos e meio faz parte do quadro de agentes penitenciários da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). Trabalhou na Penitenciária Estadual de Caxias do Sul, também como auxiliar de Segurança e Disciplina e no Presídio de Bento Gonçalves, além de outras casas prisionais, onde atuou em revista geral.
Atualmente, Célia é responsável pelo setor de saúde do Presídio Regional de Bagé. “É desafiador, surpreendente e dinâmico. Sou completamente apaixonada pelo meu trabalho. Embora a gente sofra muito com o machismo e o preconceito, simplesmente pelo fato de sermos mulheres”, destacou.
“Somos vistas como sexo frágil, mas nossa força é imensa. Não deixamos de lado nossa vaidade, mesmo fardadas e diante da hostilidade que é o interior de um presídio. Somos mulheres fortes; depois de plantão de 25 horas, temos nossa casa para comandar, cuidar dos filhos, fazer compras, além de outras atividades diárias. Costumo dizer que, quando descemos do salto e vestimos nosso ‘pretinho’, é como se uma força viesse junto”, ressaltou.
Segundo Célia, as mulheres ainda precisam driblar o machismo. “Não é fácil, às vezes, parece que nos olham e acham que somos incapazes. Muitas vezes, saímos dos plantões com nosso emocional abalado. São muitas situações, existe um submundo cruel. No fundo, todos são seres humanos. No presídio, também é um local de muita exposição de doenças, principalmente infectocontagiosas”, comentou. 
Sobre o machismo, a agente deu um exemplo que aconteceu há poucos dias, quando foi em um jantar, representando o Presídio Regional de Bagé, em um espaço ainda muito dominado por homens. “Eu sou uma mulher de 1,51 metro de altura. Ao ser apresentada para o homenageado do jantar, ele me olhou como quem dissesse: ‘uma mulher na Susepe e representando uma casa prisional’. A expressão era de que aquilo não era viável, mas é sim”, acrescentou.
Diante de todos os desafios, a agente penitenciária destacou o amor pela profissão. “Somos todas guerreiras, fortes e decididas. Cada uma com sua peculiaridade, mas todas defendendo a sociedade”, completou.


Carem Adriana Silva do Nascimento, 43 anos, é graduada em Direito pela Universidade da Região da Campanha de Bagé e pós-graduada em Ciências Penais. Carem é delegada da Polícia Civil, titular da Delegacia de Polícia de Pronto-Atendimento (DPPA). Ela foi chamada no concurso público em 2012 e fez o período na Acadepol. 
“Minha primeira lotação foi na 1ª Delegacia de Polícia, em Bagé, onde fiquei titular por sete meses. Na época, o delegado regional conseguiu a criação e a instalação da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), me chamou e disse que iria me colocar como titular da especializada, onde fiquei quase seis anos”, contou. Além disso, Carem coordenava a Delegacia de Polícia de Lavras do Sul, sua terra natal;  em algumas oportunidades, também substituía nas delegacias de São Gabriel, Candiota, Vila Nova do Sul e Dom Pedrito, além de atuar na Operação Verão, no Cassino.
Sobre ser mulher e delegada de polícia, Carem frisou que é uma grande alegria, mas também um enorme desafio. “São muitas situações marcantes, principalmente de casos que a gente atende. Porém, os mais graves marcam muito, como, por exemplo, o feminicídio da Darlene, que ocorreu em 2018. “Esse marcou muito, não só a mim, mas a toda comunidade”, disse.
“Trabalhei 16 anos em uma promotoria criminal e estudava para concursos. Eu gostava de trabalhar nessa área. Depois, fiz o concurso para delegada e passei. Meu pai era soldado da Brigada Militar, então, quando ingressei na polícia, me apaixonei pela atividade. É uma profissão que temos uma oportunidade ímpar de ajudar as pessoas e nisso temos satisfação pessoal. A gente se sente útil ao próximo”, completou.
Para Carem, o maior desafio é respeitar os próprios limites, porque a atividade policial exige muito, seja físico, mental ou emocional. “Precisamos ver nossos limites, para que consigamos fazer nosso trabalho bem feito. A gente 'pega' os casos quando eles já aconteceram. Então, as pessoas estão com as emoções à flor da pele. É tudo muito intenso, mas procuramos a melhor forma de atender, sempre com acolhida e mantendo a técnica, sobretudo, para fazer o trabalho bem feito”, ressaltou.

“Ser mulher e ser policial, é  trazer acolhimento, humanização e sensibilidade. O preconceito existe, porém, isso é algo que as mulheres têm de enfrentar; temos que demonstrar que somos capazes e que temos competência”, garantiu. 
Carem disse que quer se aperfeiçoar como ser humano e como delegada, para cumprir sua missão da melhor forma possível. “O trabalho policial é uma missão. A Deam sempre vai estar no meu coração. Esse trabalho feito lá, o olhar empático com mulheres, crianças e adolescentes vítimas de violência, é superimportante. Isso faz parte de mim e da minha história. Contudo, ter vindo para a DPPA foi um desafio e uma mudança. Estou feliz com essa troca; isso renova. Se pudesse definir o que a delegada Carem quer para o futuro, eu responderia que é vencer os desafios, superar aqueles que não conseguir vencer e seguir ajudando as pessoas”, pontuou . 

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