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Mobilização reúne mais de 100 profissionais para doação de órgãos
Publicado em 08/11/2019

Geral

Foto: João A. M. Filho

Trabalhadores ressaltaram corrida contra o tempo

Às 14h49min de ontem, um avião tocou a pista do Aeroporto Internacional Comandante Gustavo Kraemer com dois passageiros e tripulação. Seria um fato corriqueiro após a retomada recente dos voos regulares entre Bagé e Porto Alegre, se o bimotor Beechcraft King Air não carregasse a esperança e o esforço de mais de uma centena de trabalhadores para salvar vidas. Além do médico e da enfermeira da Central de Transplantes do Rio Grande do Sul, que fizeram a viagem, trabalhadores de diversas áreas e dezenas de famílias corriam contra o tempo para garantir que o luto e a despedida de um familiar possam também ser um gesto de esperança e solidariedade.

A operação foi deflagrada após a constatação da morte cerebral, às 17h de quarta-feira, de um homem de 66 anos, que sofreu grave acidente que causou um trauma cranioencefálico. Após a constatação do óbito, profissionais da saúde da capital e da Rainha da Fronteira iniciaram os procedimentos que poderão prolongar a vida e devolver a visão a pessoas que podem estar há anos na fila de espera por um órgão.

De acordo com o titular da 7ª Coordenadoria Regional de Saúde, Ricardo Necchi, assim que foi constatada a morte cerebral, os familiares do paciente concordaram com a doação e foi dado o início à mobilização. “Foi uma corrida contra o tempo de vários profissionais da saúde para que todos os exames e testes necessários fossem realizados”, informou. O homem, que manifestou em vida o desejo de doar, foi acompanhado pelo médico Rodrigo Braga, que ressaltou que foi uma correria enorme nas últimas 24 horas para viabilizarmos a doação e todos os procedimentos necessários foram realizados. Isso porque no Hospital Dom Vicente Scherer, equipes de cirurgiões e pacientes também seriam mobilizados. À reportagem do jornal Folha do Sul,  Necchi salientou que toda a operação aconteceu entre servidores de instituições filantrópicas e o custeio foi totalmente por meio do Sistema Único de Saúde.

Toda esta pressa tem um motivo claro: após a morte cerebral, todos os testes e exames necessários precisam ser realizados com o máximo de urgência para garantir  a compatibilidade entre doador e receptores, além do tempo de isquemia, que é o tempo de retirada de um órgão e transplante para outra pessoa. Para o caso registrado com exclusividade pelo jornal Folha do Sul, os rins captados têm no máximo 48 horas para chegar aos receptores, enquanto o fígado tem somente 12 horas. As córneas podem ser mantidas por no máximo até sete dias. “Em Bagé, foi registrado somente um caso de doação de coração, que tem no máximo quatro horas para chegar ao doador. Foi uma verdadeira operação de guerra, na época”, acrescentou Necchi.

Gesto de amor

O trabalho mais intenso com protocolos de documentação coube à Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT), em Bagé, em conjunto com a Central de Transplantes do Rio Grande do Sul. Conforme a psicóloga Lisiane Sefrin, foram captados rins, fígado e córneas do doador, que poderá beneficiar cinco ou mais pessoas que estão na fila de espera. “Todo o trabalho é realizado com grande envolvimento e não pode ter erros, pois sabemos da dificuldade de se encontrar doadores compatíveis. Além disso, é nosso compromisso fazer com que todo o esforço e o gesto de amor prestado por esta família de Bagé valha a pena”, asseverou.

Segundo a enfermeira Melisa Collares, desde 2017, não ocorriam processos de doação em Bagé e que a decisão da família é a única que tem valor legal para o momento de autorizar a doação. “É um gesto que não tem preço, porque a qualquer momento, qualquer um de nós também pode precisar. Por isso, quem deseja doar precisa comunicar a família, para que seu desejo possa ser garantido”, detalhou.

Conforme Necchi, o grau de complexidade da mobilização reflete no número de pessoas envolvidas. “Para cada órgão, existe uma equipe inteira de prontidão em Porto Alegre, com paciente receptor e os familiares. Somente em Bagé, praticamente toda a Santa Casa ficou mobilizada para a ação, que há dois anos não acontecia na cidade”, complementou. Além dos profissionais diretamente envolvidos, a operação ainda teve a colaboração de três trabalhadores do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e cinco colaboradores do Aeroporto Internacional de Bagé. “Cada servidor é fundamental para que os órgãos cheguem a tempo e sem danos aos receptores”, frisou Necchi. Por sua vez, o médico da unidade do Samu, Rodrigo Marquetoti, declarou que tudo tem que ser feito no tempo hábil, por isso é cronometrado nos mínimos detalhes.

A ventilação mecânica do doador foi desligada às 15h05min, quando a captação teve início e o processo se encerrou às 16h45min, quando a segunda parte da jornada começava a viagem a Porto Alegre. “Tudo foi feito com muito carinho e respeito pelo doador, pois o que aconteceu aqui foi puro ato de amor ao próximo. Quero destacar que a dor da perda desta família também vai trazer o sentimento de ajudar outras pessoas. É uma sensação única poder fazer parte disso. Foi um trabalho exaustivo, mas valeu muito a pena”, disse Lisiane.

 

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