Maria Luiza Benites: os desafios da primeira repórter esportiva de rádio
Publicado em 07/03/2020

Esportes

Foto: Arquivo pessoal

Locutora escutava xingamentos quando ia aos estádios

Muito se fala nas dificuldades que as mulheres têm em assumir determinados postos de trabalho. O preconceito ainda impera, principalmente, em locais onde os homens são a grande maioria. Se hoje em dia é assim, como seria em décadas anteriores? Em função do Dia Internacional da Mulher, celebrado no próximo domingo, a reportagem do jornal Folha do Sul conta a trajetória profissional de Maria Luiza Benites Barcelos, que, além de grande atuação no cenário nativista do Rio Grande do Sul, foi a primeira mulher a exercer a função de repórter esportiva de rádio nos estádios gaúchos.
Sempre comunicativa, a bageense Maria Luíza Benites começou no rádio em 1969, na Rádio Cultura. Integrante da equipe de Edgar Muza, a comunicadora realizava todas as funções na emissora. Lendo crônicas escritas por ela, passou a fazer locução comercial e depois programas dedicados ao público feminino, em especial o Garota Cultura. No ano seguinte, Maria Luiza passaria a desempenhar um papel inédito até então: repórter nas transmissões esportivas. O então chefe da equipe faz questão de dizer que ela foi a primeira a ser repórter esportiva no rádio no país. “Teve outra, mais ou menos na mesma época na Rádio Mulher, em São Paulo. Mas a Maria Luiza começou antes”, garante o radialista e colunista do jornal Folha do Sul, Edgar Muza. Não existem estudos que possam comprovar essa afirmação. A própria Maria Luiza é cautelosa quanto ao assunto. “Não sei se fui a primeira do país, mas do Estado, com certeza, sim”, afirma. 
De qualquer forma, Maria Luíza desempenhou a função em uma época em que não era comum a presença feminina nos estádios. Por isso, a comunicadora teve que enfrentar inúmeras barreiras, principalmente, o preconceito. “Eu lembro que quando eu entrava no campo a torcida começava a cantar em coro ‘’puta, puta’’, mas eu nunca me importei com eles”, relembra. A presença de uma mulher trabalhando nos estádios despertou o interesse da imprensa gaúcha. A repórter foi tema de uma reportagem de duas páginas no extinto Folha da Manhã, jornal publicado entre 1969 e 1980, pela Companhia Jornalística Caldas Júnior. No texto, assinado por Edegar Schmidt, o autor frisa que Maria Luiza era a única mulher “rádio repórter do Rio Grande do Sul”.
Maria Luíza foi repórter de campo durante um ano. Após esse período, continuou trabalhando no rádio, mas longe dos gramados. Ao ser questionada se voltaria a atuar nessa área, ela é enfática. “Hoje, eu não aceitaria trabalhar com isso (esportes). Já tenho a minha carreira consolidada na música”, elucida. 
A locutora ficou em Bagé até 1976, conciliando a comunicação com a faculdade de Direito. Nesse ano, houve um episódio marcante na vida dela que a fez se mudar para Porto Alegre, onde vive até hoje. Na época, Maria Luiza tocava na noite e sempre era vista pelas ruas da cidade com o  violão nas costas. Isto fez com que as esposas dos acionistas da RBSTV pedissem para que ela não fosse contratada pela emissora, já que não passava uma ‘boa imagem’. “Peguei minhas coisas, pedi dinheiro emprestado e fui embora para a capital. No dia seguinte, já estava empregada”, conta. O emprego era na Rádio Gaúcha, onde passou a comandar o programa A Hora e a Vez da Mulher, junto com mais cinco colegas. A experiência durou cerca de seis meses, quando, durante uma visita a extinta TV Difusora, ela foi convidada para fazer um teste e foi aprovada. Ao longo dos anos, ela acumulou passagens por outras emissoras, como SBT, TVE e, atualmente, Rádio Guaíba. 
Hoje, a voz marcante de Maria Luiza Benites pode ser ouvida nas ondas da Rádio Guaíba, sobretudo, nos horários noticiosos da emissora. Paralela à carreira na comunicação, ela é intérprete e jurada em festivais nativistas, outro meio em que teve de enfrentar os olhares tortos que se incomodam com a presença feminina.

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