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Humanização do nascimento e a doulagem: é possível mudar o mundo?
Publicado em 17/02/2016

Opinião

por Lucas Severo Abad, servidor público federal

Caro leitor, estou aqui para conversar sobre o nascimento, um assunto de interesse geral, uma vez que todos, de alguma forma, nascemos. A estimativa da população mundial, atualmente, é de aproximadamente mais de sete bilhões de pessoas; dessas, conforme dados do IBGE (2011), nascem, no Brasil, aproximadamente 7 739 bebês por dia, o que significa dizer que, por hora, são mais de 322 bebês, ou ainda, uma média de 53 bebês a cada 10 minutos. Ou seja, nesse pequeno tempo de leitura, ao menos dois bebês já nasceram; e você já parou para pensar de que forma esses bebês vieram ao mundo? Certamente não.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) orienta que cerca de 10-15% dos nascimentos necessitam ser feitos pela via cirúrgica (cesariana) e cerca de 85-90% sejam pela via natural (parto vaginal). Acontece que no Brasil temos uma inversão desses números, ocorrendo a cesárea, na saúde suplementar, em aproximadamente 84% dos nascimentos, em algumas cidades ou regiões chegando a 99% dos nascimentos locais.
Diante dessa “epidemia de cirurgias cesarianas”, o Ministério da Saúde, através da resolução normativa nº 368 de 2015, criou estratégias para estímulo o parto natural, já que a preocupação com as alarmantes taxas de cesarianas no país sem indicação médica, é considerada problema de saúde pública, uma vez que cesarianas eletivas (agendadas), ocasionariam riscos desnecessários à saúde da mulher e do bebê: aumentando em 120 vezes a probabilidade de problemas respiratórios para o recém-nascido e triplicando os riscos de morte para a mãe, além óbvio, da prematuridade muitas vezes ocasionada pela interrupção de gestações de estariam teoricamente “a termo”, o que contribuiria para os 25% de óbitos neonatais e outros 16% de óbitos infantis no Brasil relacionados à prematuridade.
Dessa forma, falar de parto ou nascimento, interessa sim a mim e a você. Alguns estudos demonstram relação entre as taxas de criminalidade de certos países, relacionadas às altas taxas de nascimento pela via cirúrgica, isso por que o vínculo afetuoso e amoroso criado no momento do parto, refletiria diretamente na formação do caráter de jovens e adultos do futuro. Nesse contexto, ressurge uma figura importantíssima no cenário do nascimento, a doula, pessoa capacitada para acompanhar a gestação, o trabalho de parto e parto e o pós-parto em gestantes de baixo risco. Esse profissional, diferentemente de parteiras profissionais, enfermeiras obstétricas, obstetrizes e médicos obstetras (que atuam focados na parte técnica do trabalho de parto e parto), atua focando no processo informacional de estímulo ao parto natural e auxiliando através do suporte físico e emocional as gestantes que buscam o resgate do protagonismo de seus partos, acreditando, assim, no processo fisiológico do nascimento. Na região temos algumas pessoas que já atuam como doulas. Procure a sua doula e informe-se, pois, como diria o ilustre médico obstetra Michel Odent, “para mudar o mundo, primeiro é preciso mudar a forma de nascer”.

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