Medo, solidão e angústia levam muitos a procurar apoio nos sacerdotes
“Frei, sei que é tarde, não desligue o telefone”, relata religioso
Publicado em 06/06/2020

Geral

Foto: Márcia Sousa

Bordignon diz que alguns sentem solidão e querem falar da vida

O distanciamento social e, por consequência, a falta de contato com familiares e amigos, em razão da pandemia do coronavírus, impactam a vida da sociedade em diversos aspectos. Nesse contexto, a assistência espiritual às pessoas, sobretudo àquelas que se sentem sozinhas, angustiadas e inseguras em relação ao amanhã, tem sido imprescindível. 
A dor e a angústia aumentam devido à ausência do contato, de uma perda, de velórios abreviados e, nesse sentido, o papel do sacerdote tem sido vital na vida de muita gente.
A reportagem do jornal Folha do Sul conversou com três padres sobre o papel da igreja nesse momento delicado, que tipo de apoio e conforto ela pode prestar a quem necessita.
O pároco da Catedral São Sebastião, padre Jair Silva, conta que a procura por uma conversa, até mesmo o sacramento da confissão, tem sido significativa nesse tempo de pandemia. Segundo o religioso, é mais uma atenção que as pessoas necessitam em razão do medo, insegurança e incerteza quanto ao amanhã. “A gente sente que as pessoas precisam de ajuda, precisam desabafar”, relata o sacerdote.
Em relação à busca pela confissão, o padre observa que, às vezes, nem é confessar que a pessoas querem, mas, sim, conversar com o sacerdote.
“Frei, sei que é tarde, não desligue o telefone”. Esse é o apelo de alguns que procuram o auxílio do pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, frei Álvaro Bordignon. O religioso diz que são telefonemas por volta das 22h e que ele atende a todos.
O frei ressalta que muitas pessoas que são sozinhas o procuram para conversar. “Mantendo o distanciamento, dou atenção e ouço, pois são pessoas que estão sentindo solidão, elas querem falar da vida”, pontua. Frei Álvaro comenta que os idosos são os que mais o procuram, porque sentem a solidão nesse tempo de pandemia, principalmente em razão da falta de contato com os familiares.
A exemplo do que fala padre Jair, o frei conta que muitos vão até a igreja procurar o sacramento da confissão, mas, na verdade, é mais para conversar com o sacerdote.

Depressão
Pároco na Paróquia Nossa Senhora da Luz, em Pinheiro Machado, o padre Elautério Júnior, que retornou depois de uma temporada de estudos em Viena, na Austria e estava cheio de projetos, logo se deparou com um desafio imensurável, o vírus que colocou o planeta inteiro de joelhos.
O sacerdote confidencia para a reportagem que o índice de casos de depressão é alto naquela cidade e que com a pandemia se agravou mais a situação. Conforme o sacerdote, o medo e a angústia diante desse quadro atingem mais os jovens e adultos. Segundo ele, além da pandemia, existe a questão do desemprego e falta de perspectivas, o que agrava ainda mais. “Pinheiro Machado é uma cidade com nível alto de depressão”, diz.
Tanto que quando assumiu a paróquia no início do ano, Elautério tinha como proposta criar um grupo de trabalho, em parceria com psicólogos, para atender as pessoas.
Assim como os colegas de Bagé, o padre de Pinheiro Machado acrescenta que muitos vão à igreja em busca da confissão, mas o sacerdote observa que, na verdade, a pessoa quer mesmo é conversar.
O religioso pontua que tem feito acompanhamentos e que alguns estão fazendo os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola.
Na entrevista, os três padres frisaram que todo atendimento segue as orientações das normas sanitárias, como o distanciamento e o uso de máscara.

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