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Famílias Brasil & Collares
Publicado em 24/11/2015

Opinião

Foto: Alina Souza / Especial FS

por Carlos Roberto Martins Brasil*

Há poucos dias, as famílias Brasil e Collares comemoraram seus 200 anos em Bagé.  Essa festividade, que reuniu centenas de parentes em uma demonstração ímpar de amizade e de fraternidade, somente foi possível em razão do esforço, dedicação e capacidade de organização dos primos Oscar Francisco e Leonardo Collares, que angariaram fundos junto aos familiares e cuidaram de absolutamente todos os detalhes. Não pude comparecer, como era o meu desejo, na oportunidade pretendia fazer uma pequena síntese da história de nossos ancestrais, demonstrando a participação da família no desbravamento e colonização de nosso Estado até a chegada deles a Bagé.
Pretendia lembrar que, somente em 1737, o Império Português deu os primeiros passos para integrar o atual Rio Grande do Sul ao território brasileiro, e o fez construindo o Forte de Jesus, Maria e José, nas proximidades da atual cidade de Rio Grande. Em 1750, o Tratado de Madri definiu parte das fronteiras entre as Coroas Portuguesa e Espanhola e, em razão desse tratado, os portugueses montaram uma estratégia para ocupar o atual território sul-rio-grandense. Como elemento humano para realizar essa tarefa, a Coroa Portuguesa se socorreu dos operosos e qualificados habitantes portugueses do Arquipélago dos Açores (grupamento de ilhas de origem vulcânica situado no oceano atlântico, a meio caminho entre Nova York e Lisboa), que, a partir de 1750, vieram em grande número, especialmente casais, para povoar o então Rio Grande de São Pedro.
Foi nessa leva pioneira de primeiros povoadores que, em 1751, chegaram João Teixeira Brazil (com z) e sua mulher, Maria do Rosário, ambos naturais da Ilha São Jorge e que lá haviam casado em 27.07.1749. De João e Maria do Rosário encontrei o registro de seu primeiro filho, Matheus Teixeira Brazil, em 1752, em Rio Grande, que depois tiveram os filhos Cláudia Maria e João Teixeira Brazil (filho).
Os pioneiros João e Maria do Rosário receberam datas de terras em 1771, nas Freguesias de Santo Antônio da Guarda Velha (Santo Antônio da Patrulha) e Freguesia de Viamão. Seus filhos Matheus e João, anos depois, receberam datas na Freguesia da Vila de São Luiz de Mostardas.
Matheus casou, em 22.02.1778, em Mostardas/RS, com Francisca Rosa de Jesus, e lá tiveram os filhos Laurindo e Severino Teixeira Brazil. Severino casou em Mostardas com Gertrudes Maria de Oliveira Prestes, filha do paulista Manuel de Oliveira Prestes, forte fazendeiro local e proprietário de um alambique e de, provavelmente, uma das primeiras, senão a primeira plantação de cana de açúcar em solo gaúcho. 
Após a morte dos pais, Severino herdou campos em Mostardas e, quando do falecimento dos sogros, a Fazenda do Meio, com o alambique e a incipiente plantação de cana de açúcar situada em Santo Antônio da Patrulha, hoje Arroio do Sal. Trabalhador e com grande tirocínio para negócios, Severino vislumbrou a oportunidade e ampliou a plantação de cana e a produção de aguardente, chegando a exportar o produto através de São Francisco, atual Pelotas, fazendo grande fortuna pessoal, pois a aguardente tinha elevado valor comercial, eis que até então era produzida artesanalmente e seu abastecimento era dependente dos fabricantes do norte e nordeste.
Em 1817, Severino Teixeira Brazil comprou, com outros dois sócios, a Estância Boa Vista, com 42 mil hectares, em Caçapava e, em 29.11.1820, comprou em Palmas, Bagé, a sesmaria de Francisco Antônio Gonçalves (Cassão), com 28 mil hectares.
Quando Severino veio do litoral para a fronteira ele se fez acompanhar de seus cinco filhos e dois dos filhos (Leonardo e José Luiz) de seu amigo português, José Luiz Collares, então residente em Mostardas. Logo após, trouxe para Palmas seu irmão Laurindo Teixeira Brazil, com a esposa e duas filhas. Severino e Gertrudes tiveram os filhos: Matheus, casado com Firmiana Maria, filha de seu tio Laurindo Teixeira Brazil; Silvana Maria, casada com Leonardo José Collares; Maria Magdalena, casada com Nicolau Antonio Pereira; Alexandre, casado com Alexandrina Simôes Pires; José, casado com Joaquina Coelho.
Assim, uma das filhas de Severino Teixeira Brazil casou com Leonardo José Collares e o irmão de Leonardo, José Luiz, casou com a sobrinha de Severino, filha de seu irmão Laurindo. Em outras palavras, duas bisnetas do pioneiro João Teixeira Brazil casaram com dois irmãos Collares iniciando uma saga que une de forma indissolúvel essas duas grandes famílias.
Com o início da Revolução Farroupilha, as estâncias de Severino Teixeira Brazil, incluindo sua sede em Bagé, foram ocupadas por vários anos pelas tropas de Bento Gonçalves da Silva. Inconformado, Severino reagiu exigindo a devolução de seus bens, como reação Bento Gonçalves determinou a sua prisão (não efetuada). Em razão disso, Severino mobilizou toda a sua disponibilidade e enviou todos os seus filhos e genros para o Uruguai, onde adquiriram vastas extensões de terras, local onde hoje vive um grande número de seus descendentes, além de Bagé.
Quando Severino Teixeira Brazil faleceu, em 1842, além dos 28 mil hectares que seus filhos e genros herdaram em Palmas/Bagé, deixou para seus netos uma chácara no litoral com cerca de 30 mil hectares, que, entre os anos de 1855 e 1858, eles venderam para os irmãos de sua avó Gertrudes. 
Mais detalhes sobre a história, genealogia e bens de nossos ancestrais podem ser encontrados nos livros “Pioneiros Açorianos” e “Sesmarias em São Sebastião de Bagé”, ambos de minha autoria.    

*Advogado, escritor e agropecuarista

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