Expoentes da comunidade explicam amplitude mundial da reação contra racismo
Publicado em 04/06/2020

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Foto: João A. M. Filho

Protesto silencioso mostra que preconceito ainda resiste

No dia 25 de maio, a 9 363 quilômetros de Bagé, um civil desarmado e sem oferecer resistência, morria asfixiado pelo joelho e o peso do corpo de um agente da lei que supostamente, deveria proteger da violência e do crime a comunidade de Minneapolis, nos Estados Unidos. A reação seguinte à barbárie, que resultou na morte de George Floyd, 46 anos, deu início a uma onda de protestos que se espalhou rapidamente por outras cidades do país e no mundo.

George, um homem entre os milhares que perderam o emprego por causa da pandemia por coronavírus, foi mais uma entre as mortes trágicas de negros pelas mãos de policiais brancos, o que exacerbou a questão do racismo nunca resolvida na América do Norte. Porém, o debate deixou de ser uma questão restrita às chagas nunca fechadas da formação da sociedade norte-americana e chegou ao Brasil por força da circunstância, pois o país, “sempre jogou o problema para baixo do tapete”, como se referiu o conhecido representante da comunidade e integrante da Sociedade Recreativa e Cultural Os Zíngaros, Flávio Marques.

O caso de Caju

A milhares de quilômetros de Minnesota, em Bagé, a comunidade ativa pelos direitos e identidade afro repercutiu o caso, com diversos cartazes fixados em postes na avenida Sete de Setembro e na praça de Esportes. O manifesto, ainda silencioso, revela uma chaga que também não se fechou na cidade intitulada Rainha da Fronteira. Isso porque, ontem mesmo, Paulo Cézar Caju, ex-jogador e multicampeão pelo Botafogo, Flamengo, Fluminense e campeão mundial interclubes pelo Grêmio, escreveu às paginas da revista Veja, onde relembrou de um caso ocorrido em Bagé, entre 1966 e 1967. Na época, ele veio com o elenco do Botafogo para jogo amistoso contra o Guarany. Após a partida, com placar final de 3 a 1 para o clube carioca, deveria ter sido mais um jogo na história entre os dois clubes, mas não terminou ali.

Conforme o próprio Caju cita em seu texto: “Senti na pele, literalmente, quando em uma excursão com o Botafogo, pelo Sul do país, liderada pelo vice-presidente do clube, João Citro, vi na porta do Country Clube de Bagé, onde seríamos homenageados, um cartaz avisando que era proibida a entrada de negros. Dói na alma. Mas, nesse dia, os jogadores brancos foram os que mais reclamaram e apoiaram os negros do grupo”, relatou.

O fato foi corroborado por Marques, que, na época, citou que o famoso clube da alta sociedade de Bagé, “se um preto andasse pela calçada pela frente do clube, era atacado pelos brancos. Ele realmente foi vítima de racismo naquela ocasião. Era comum naquela época e ainda hoje existe, de forma latente”.

Negação oficial

Enquanto a morte de Floyd suscita protestos pelo fim do racismo, a favor do diálogo e fim da segregação e discriminação, o Estado de São Paulo noticiou, com destaque na segunda-feira, áudios vazados de uma reunião na Fundação Cultural Palmares, onde o atual presidente, Sérgio Camargo, chamou o movimento negro de "escória maldita".

Na reunião, ocorrida em 30 de abril, o chefe do órgão estatal que deveria defender a cultura e valores da população afro-brasileira, além de preservar o legado da luta contra o racismo e discriminação, ataca: "Não tenho que admirar Zumbi dos Palmares, que, para mim, era um filho da puta que escravizava pretos. Não tenho que apoiar Dia da Consciência Negra. Aqui não vai ter zero – aqui vai ser zero para [Dia da] Consciência Negra”.

“É hora de gritar”

Ouvido pela reportagem do jornal Folha do Sul, ainda em luto pela morte do pai, José Silva Farias, o mestre Nonóca, o filho, Hyra Farias, 32 anos, artista e integrante do grupo The Manifest, ressaltou que o racismo sempre existiu e a comunidade preta é vítima diária do racismo e preconceito. “Todos já passamos por situações de racismo. Em nosso grupo, integrado por jovens da periferia, pretos, LGBTI+ e outros grupos, percebemos que os fragmentos desse passado permanecem como parte da cultura da sociedade, que é de discriminação diária”, disse. O grupo de Farias, The Manifest, se tornou conhecido em todo país pela atitude de crítica social, com performances artística no estilo hip hop freestyle, onde um dos espetáculos mais aclamados é “A Travessia”, que encena por meio da dança, a viagem de um navio negreiro da África ao Brasil. “Em nossa arte, nós mostramos que nossos antepassados não eram escravos, foram escravizados. Há tempos, denunciamos o racismo e preconceito, além de contar a história dos negros na forma da dança. Por isso, digo que esta é a hora de gritar, pois os protestos mostram que o mundo não suporta mais essa violência”, frisou.

A reportagem apurou que existe ao menos um caso de denúncia de injúria racial que é investigado pela Justiça em Bagé, porém, não conseguiu contato por telefone com a assessoria jurídica envolvida na defesa da vítima.

“Demorou muito”

Entre os clubes sociais de Bagé, talvez por ironia, o único que sobrevive até hoje é o Zíngaros, que há 84 anos acolhe a comunidade afro da Rainha da Fronteira. Flávio Marques, que tem boa parte da história ligada ao clube, ressaltou que os protestos que iniciaram após a morte de Floyd, são um retrato de que ninguém mais suporta o racismo. “Assim como Martin Luther King, líder pacifista morto por lutar contra a segregação e Abraham Lincoln, assassinado por ter acabado com a escravidão nos Estados Unidos, o ódio a que estamos expostos ainda hoje é fruto de uma culpa que não temos. Ser preto não é ser culpado ou ser criminoso. Hoje, percebemos nos protestos que mesmo os brancos não aceitam mais uma cultura racista. Não tem nenhum sentido continuar a cultivar esse ódio. Demorou muito, mas vemos o mundo engajado nessa luta por justiça. O mundo se revoltou porque precisa do diálogo”, argumentou.

Ao se referir ao episódio de Caju, Marques lembrou que à época, somente ao presidente de Os Zíngaros era permitido o acesso ao clube de alta sociedade, porém, era impedido de dançar. “Privilégio somente para os brancos”, comentou.

No texto de Caju, intitulado “Por que os nossos ‘George Floyds’ diários não causam tanta comoção?”, o cronista ressalta: “Negros americanos vêm clamando por liberdade e respeito. No Brasil, essas mortes sempre são usadas politicamente”.

Por isso, Marques foi claro ao afirmar que “não há mais como esconder o racismo e jogar o problema para baixo do tapete”. “Nossa esperança é que com isso, tudo possa mudar, de fato. O que o mundo viu através da internet foi uma situação humilhante, ultrajante e cruel. Isso acontece todo dia. Com a internet, celulares e redes sociais, não há mais como esconder o que acontece”, alertou.

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