Pandemia faz caminhante parar
Do centro da Colômbia, um relato sobre a jornada que teve que ser interrompida
Publicado em 30/03/2020

Geral

Foto: Marcelo Monti/especial FS

Moradores seguem à risca determinações do governo colombiano

De um povoado próximo à cidade de Armênia no centro da Colômbia, o frei Marcelo Monti, que estudou em Bagé, conta que teve que parar a jornada pela vida em função da pandemia. O religioso começou a caminhada a pé no dia 28 de agosto de 2018, em Porto Alegre, no projeto denominado Caminho de Aline – Uma volta ao mundo a pé pela vida e contra a aids. Em 10 anos, ele pretende passar pelos cinco continentes do planeta. O objetivo da travessia pelo planeta é incentivar a prevenção ao vírus HIV, conversar  com os soropositivos e esclarecer dúvidas sobre a aids – doença que causou a morte da irmã  do religioso, Aline, aos 28 anos.
Ele, que já passou pelo Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia,  Equador, agora está parado em uma povoado na Colômbia ainda sem ter certeza que dia retornar a caminhada a pé, acompanhado apenas por um carrinho onde leva os pertences pessoais.
Monti contou que chegou a esse povoado no dia 17 de março e que tem previsão de sair dessa região no dia 15 de abril, quando encerra o isolamento social decretado pelo presidente da Colômbia, Iván Duque Márquez. “Numa caminhada como essa se imagina até os imprevistos, mas não uma situação como essa que fosse marcar o mundo inteiro e o fizesse parar”, disse.
O frei frisou que os colombianos  levam muito a sério as recomendações do governo, até porque o decreto é bastante rígido. Segundo ele, todos usam máscaras  na rua; os supermercados são bem rígidos no atendimento. O religioso relatou que o atendimento nesses estabelecimentos é  conforme o último número da carteira de identidade do cliente em um dia por semana. No interior do supermercado, alguém, com alto falante, orienta que façam as compras rápido para dar tempo para outra pessoa. Além disso, a todo momento são passadas  informações sobre o coronavírus.
“Não imaginava jamais enfrentar uma situação. Eu penso que possamos  perceber nossa fragilidade e buscarmos caminhos para sermos mais solidários e preocupados com o outro”, pontuou.
Período de  incertezas
Monti disse que ainda não tem noção de quando vai retornar a caminhada. Quando recomeçar, estima levar uns 10 dias até chegar em Bogotá, capital da Colômbia. E, pela primeira vez, vai ter que ser de avião a travessia do canal do Panamá. O caminhante contou que iria fazer a travessia dessa região de barco, porém, por ser muito perigoso, devido ao narcotráfico, guerrilheiros e paramilitares, vai ter que ser de avião.
Outro fato que pode atrasá-lo ainda mais no cronograma, é que até 15 de abril, ainda não está autorizada entrada de turistas nos países vizinhos da Colômbia, por isso vai ter que  esperar.
Momento  requer racionalidade
Diante do cenário imposto pela pandemia no mundo inteiro, Monti faz uma reflexão a cerca da racionalidade e espiritualidade que o momento requer. Ele asseverou que Deus não tem nada a ver com isso; é preciso evitar esse tipo de teologia que afirma que Deus permitiu ou está  ensinado algo com isso. “Temos que crer em um Deus amoroso que promove sempre a vida, que não utiliza a morte e a doença com ferramenta pedagógica – agora, quem tem fé,  pode se perguntar como Deus se manifesta neste momento como presença solidária”, acentuou.
A meta de atravessar o planeta em 10 anos, já está com o cronomograma atrasado. Monti lembrou que o canadense, que o inspirou a fazer essa jornada, teve que parar por causa de um câncer, inclusive, quando retornou ao invés de 10 anos, levou mais um.
Mesmo assim, o religioso mencionnou que já estava atrasado. Ele iria passar pelo Haiti, mais julgou arriscado, pois mudou muito a realidade daquele país em questão de segurança. Em razão disso, ele acreditou que pode ganhar alguns meses a mais no cronograma previsto. “É bastante difícil, mas é só reorganizar algumas coisas – eu não tenho intenção de voltar ao Brasil neste período”, afirmou.

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