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Depressão: estudante relata como é viver com a doença há quase 10 anos
Publicado em 23/09/2019

Geral

Foto: Anderson Ribeiro

Universitária de 26 anos fez um relato minucioso para a reportagem

Letícia Franck, 26 anos, um metro e 60 centímetros de altura, cabelos e olhos claros, camiseta preta, tênis All Star, sorriso largo, porém depressiva. A doença denominada o “mal do século” pode atingir qualquer pessoa. A jovem revela que convive com a depressão desde os 6 anos.
Diagnosticada somente aos 17 anos, ao jornal Folha do Sul, a estudante do curso de Jornalismo fala abertamente como é conviver com a doença que afeta mais de dois milhões de pessoas no Brasil. “A depressão é uma doença silenciosa. Tem um ditado que diz: 'Às vezes, a pessoa mais triste do circo é o palhaço”. Foi desta forma que Letícia começou a descrever a doença, com a qual convive há quase 10 anos. 
Ela conta que, quando era pequena, sofria bullying na escola por parte dos colegas. Sendo uma criança reclusa, a jovem descreve que não conseguia fazer amigos e trabalhos em grupo; tinha o lanche e as figurinhas roubadas. Além disso, não era chamada para as atividades e sofria com apelidos pejorativos.
Sem parar de mexer nos cabelos e nos óculos pretos, que disse ser novo, a universitária fala da importância da família na vida de um depressivo. Segundo ela, a falta de diálogo ocasiona o desenvolvimento da doença. “Eu tinha medo de expor o que estava sentindo para os meus pais, inclusive, há coisas que até hoje eles não sabem. Então, eu acho que o diálogo é a base de tudo, porque não tem como adivinhar o que o outro está sentindo. Por exemplo, se teu filho não te fala as coisas, ou se tu não fala com teu filho, isso pode afetar.  Acredito que falta enxergar os filhos”, acentua. 
Em pleno 2019 ainda existem pessoas que enxergam a depressão como uma preguiça ou irresponsabilidade. A estudante de Jornalismo, que já atua dentro da profissão há bastante tempo, comenta que diversas vezes ouviu frases como, por exemplo, “existem pessoas piores que tu”; "tu não tens motivo para ser depressiva, pois tens um emprego, pessoas que te amam e condições de fazer um tratamento”. Ela rebate tais afirmações dizendo que “a depressão não é um motivo, é uma doença grave”.  


Setembro Amarelo
"Quando tu tens depressão, pensar em suicídio é a mesma coisa que comer quando tu tens fome”, afirma. A jovem nunca tentou o suicídio, contudo, ela conta que se cortava. “A depressão 'anestesia', não é aquela tristeza como todos dizem, mas eu tinha necessidade de sentir sensações como tristeza e alegria. Então, eu me cortava para sentir que estava viva”, confidencia.
Entretanto, Letícia não concorda com o mês de combate ao suicídio, conhecido como Setembro Amarelo. Acompanhada por dois amigos – um deles também sofre com o transtorno -, ela argumenta que a mesma pessoa que julga em um mês, em setembro, coloca hashtags ou filtros em redes sociais alusivas ao combate ao suícidio. “São doenças que precisam ser tratadas durante todo o ano”, elucida.


Leitura como alicerce
A estudante declara que a literatura a salvou. “O depressivo tem tendência a ler coisas mais tristes, mas, por meio dos personagens, eu percebi que era capaz de lidar com o que estava sentindo”, conta. 
Questionada sobre qual livro recomenda, ela sugere “O Demônio do Meio-Dia: uma anatomia da depressão", de Andrew Sollomon, que conta a história do autor e de pessoas que sofrem com a doença. 


Trabalho de conclusão de curso sobre depressão
Letícia, que conclui o curso de Jornalismo ano que vem, fez o TCC sobre os “13 riscos: o perigoso limite entre a influência da mídia e o ato suicida”. Para a reportagem, ela descreve que escolheu o tema baseada em uma série norte-americana chamada 13 Reasons Why – Os Treze Porquês. O seriado apresenta a história de uma jovem que lista os 13 motivos que a levaram a cometer suicídio. “Meu TCC fala sobre o quanto uma série de TV pode influenciar adolescentes que têm depressão e já pensaram em suicídio”, alerta. 


Conviver com o "mal do século"
Ela diz que hoje enxerga a doença de uma forma diferente. “Aprendi a ter mais empatia comigo mesma e com as pessoas. Eu achava que não tinha que agir daquela forma e precisava fazer algo diferente mesmo que não tivesse força. Começava um tratamento,  porém, passava um mês, achava que estava bem e parava sem ir ao médico”, conta.
Para as pessoas que sofrem com a depressão, a estudante deixa um recado: “Matamos um leão por dia, às vezes, seis, contudo, é possível, sim, conviver com a doença por meio da aceitação e tratamento”, assevera.  
 

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