Creas registra 183 casos de violência a crianças e adolescentes desde 2017
Publicado em 06/06/2020

Geral

Foto: João A. M. Filho

A data de 4 de junho é usada para chamar atenção e refletir sobre a terrível realidade e os efeitos negativos de diversos tipos de violências e agressões às crianças. Por isso, a Organização das Nações Unidas (ONU) definiu que a data é o Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão, criado em 1982. Em Bagé, desde 2017 até ontem, 183 crianças e adolescentes foram atendidas pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), que inclui atendimento especializado, alertam e explicam as diversas situações enfrentadas pelas vítimas, além de incentivar a comunidade a denunciar essas práticas e coibir a ação dos agressores.

De acordo com a coordenadora da Proteção Especial de Média e Alta Complexidade, Isabel Domingues, o maior número de denúncias recebidas pela rede de proteção formada por várias instituições públicas é relativo a abusos sexuais. “É o que mais chega para nós. Existe um trabalho árduo a ser enfrentado e infelizmente, a maioria dos atendimentos é relacionada a casos de abuso infantil intrafamiliar”, explicou.

100% de homens agressores

Conforme relato da coordenadora do Creas, Aline Dourado, neste ano, os casos registrados em Bagé relacionados a diferentes tipos de violência contra crianças e adolescentes, absolutamente todos eles foram causados por homens, inclusive violência sexual. “O perfil dos agressores varia de adolescentes a idosos, enquanto as vítimas podem ter idades entre 4 a 18 anos. Em 80% dos casos, são membros do próprio grupo familiar (pai, padrasto, irmão, avô, tios e primos). É uma situação muito grave”, afirmou.

Segundo Aline, o perfil da violência denota que são raros os casos em que a vítima desconhece o agressor. “Na maioria absoluta das vezes, é alguém bastante próximo à família da vítima. É muito difícil registrarmos situações nas quais o envolvido não possui algum tipo de vínculo”, acrescentou.

Vitimologia

Conforme a psicóloga Celina Santos, a vítima se torna alvo do agressor justamente pela situação de vulnerabilidade e dominância – seja por razão da idade ou autoridade dentro do grupo familiar. “A criança ou adolescente vítima da violência é normalmente culpada pelo agressor, além de ser coagida a firmar um pacto de submissão e silêncio diante da ação. Ela pode, inclusive se culpar por ter sido vítima, mas por se tratarem de pessoas muito jovens, muitas vezes, elas não compreendem a gravidade da situação por qual passam, ou até mesmo são intimidadas a ponto de que passem a acreditar que a situação é ‘normal’ – de acordo com a visão do autor da agressão”, relatou.

É justamente esse pacto de silêncio dentro do seio familiar que pode fazer com que casos de violência diária possam perdurar por anos, até que a vítima possa receber algum tipo de ajuda. “Geralmente, as vítimas são ameaçadas pelo abusador, o que pode incluir também promessas de morte ou de ferir alguém próximo da vítima. Por isso, é preciso denunciar qualquer suspeita às autoridades competentes”, complementou.

Entre os principais sinais a serem percebidos para identificação de possíveis vítimas, as profissionais ressaltaram que mudanças súbitas de comportamento, depressão, atitudes passivo-agressivas, ou até reações violentas por parte das crianças; além da postura de medo diante da presença do possível agressor; são sinais que indicam a existência de problemas. “Nossos maiores aliados na identificação desses casos são as escolas, pois é lá que essas crianças passam o tempo e onde os professores podem perceber e notificar casos de possíveis agressões”, disse.

Pandemia acende sinal de alerta

É justamente por conta das escolas fechadas que o sinal de alerta foi aceso no mundo todo. Por causa da pandemia do novo coronavírus, cerca de 850 milhões de crianças em mais de 290 países estão sem aulas, em casa, inclusive as vítimas de violência que podem estar obrigadas a conviver em contato constante com a fonte da agressão. “Muitos casos podem não estar sendo registrados por conta da pandemia e a escola é a maior aliada ao enfrentamento”, ressaltou Isabel.

Conforme o Correio Braziliense, o Instituto Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), em parceria com a Childhood Brasil, apoiadora da campanha mundial "A covid-19 também é perigosa para crianças e adolescentes", até o dia 18 de março, foram contabilizadas 5 256 denúncias em todo o país. A campanha foi criada para alertar sobre situações de vulnerabilidade de criança e adolescentes durante a pandemia do novo coronavírus.

O maior número foi registrado no dia 23 de março, quando foram feitas 751 queixas. Ao todo, 3 469 dos casos são sobre ataques contra pessoas socialmente vulneráveis e 707 sobre restrição de liberdade. Além disso,  idosos, crianças e pessoas com deficiência somam 1 028 ocorrências. Em outras 909 denúncias, foram detectadas a relação de trabalho entre o agressor e a vítima. Em 607 situações, o agressor é conhecido. Os dados foram atualizados no dia 13 de abril.

Covardia documentada

O mais marcante entre os casos de violência causados a crianças e jovens é a crueldade com que as vítimas são tratadas, além de ser um contrassenso da fonte da agressão ter origem em alguém que mais deveria zelar pela criança.

Em um dos casos documentados em Bagé, o Creas recebeu um menino de 4 anos, que na escola onde estudava, apresentou à professora um desenho que representava ele e o pai, com a representação dos genitais do adulto. “Ele descreveu com exatidão o que o pai fazia com ele. O caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar e ao Creas, para acompanhamento”, contou Celina.

Em outro caso, um chefe de família, provedor do lar, abusou da própria filha de 10 anos, que também veio a ser abusada pelo irmão mais velho. Desse caso, a menina ficou grávida e acabou por ter o bebê e após a denúncia acontecer, foi retirada do convívio da família. “É uma criança que acabou por ser mãe de outra. Foi uma situação que nos marcou, porque ela foi coagida a ser alvo dos abusos como se fosse algo normal. O trauma desse tipo de situação fica para a vida inteira. Será um processo muito longo para devolver a dignidade a todas essas vítimas”, alertou Daiane de Borba, também psicóloga do Creas.

BOX

Denuncie

Disque 100 – Vítimas ou testemunhas de violações de direitos de crianças e adolescentes, como violência física ou sexual, podem denunciar anonimamente pelo Disque 100.

Disque 180 – Em casos de violência contra mulheres e meninas, seja violência psicológica, física, sexual causada por pais, irmãos, filhos ou qualquer pessoa. O serviço é gratuito e anônimo.

Polícia 190 – Se presenciar algum ato de violência, acione a Polícia Militar, por meio do número 190. Também é possível acionar as Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher e as de Proteção à Criança e ao Adolescente.

Defensoria Pública – (53) 3247 1911 – de segunda a sexta-feira, das 9h às 12h e das 13h às 18h.

Conselho Tutelar – (53) 3242 2500 ou (53) 9 9971 5494

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