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Coluna Social 75281
Publicado em 24/07/2018

Social

Foto: Alina Souza / Especial FS

O bispo e o poeta. Dom Gílio, bispo emérito, Luiz Coronel, emoção geral na missa, sábado, igreja Auxiliadora, clic Sávio Machado.Aplausos!

A Igreja de tua infância abriu seus solenes braços de cedro para te receber.  E seus sinos de alegria anunciam, diante dos rosados poentes de Bagé, teus 80 anos. Ela sabe que vens de muito longe e muito navegaste nas  entranhas da alma humana, na alma das coisas, dos cenários e dos seres. Sabe que persegues a sina do mais inquieto e radiante ofício da revelação.  De tua recusa em falar com o tempo quando ele te pede conversa e seguir, mundo afora, lépido e faceiro, pelo riso de cristal e musical de teu verso. Ela sabe que vens de muito perto, de uma rua sete, calçada de pedra e sonhos, dos aconchegos encantadores da casa da tua Iarinha, onde a mão abençoada de um tio te ensinou os largos e estreitos caminhos de Deus. Não duvidarás, neste entardecer de julho, que teu tio Djalma, coberto das alvuras deste templo, te abençoe dos céus, como também toda tua família, teus velhos e recentes amigos, e toda Bagé que te envolvem nessa tarde. Nosso raro Poeta que mora na casa iluminada da Poesia e a leva por todos os caminhos, na ponta da língua, nos  ombros de sua memória e nas sedentas  mãos de cada momento. Poeta que caminha com a poesia e nunca a deixa em casa. Por que não dizer que és um pouco representante de Deus desvelando o mistério das coisas e recriando, inquieta e incansavelmente, Seu mundo ? Tinha que ser essa Igreja, Nossa Senhora Auxiliadora, esse pedaço sagrado de tua memória, onde entravas como coroinha nos cortejos festivos das noites de maio, o lugar precioso para receberes o mais profundo de todos os abraços, o abraço divino, pelos teus oitenta anos. Tinha que ser aqui. Aqui, teus retirantes, teu olhar aos desvalidos, hão de se encontrar com as lágrimas de Cristo, tua terna celebração da vida e dos afetos hão de assinar a magistral carta de São Paulo sobre o Amor.  A dor da solidão das Leontinas  há de buscar o rosto de Maria. Gaudêncio se encontrará com os ventos infinitos da esperança divina. O riso irreverente e irônico de tua criação, sobre o universo rural e  urbano, há de apontar nossos limites e deslimites humanos. Aqui, o sol dos tempos de Deus, Luiz,  há de cair  sobre teu humanismo. A Sua graça sobre a graça de tua criação. Não nos surpreende, Luiz, que o Brasil tenha te abraçado e a Universidade da Espanha te tenha em seu ensino; que tenhas tornado mais histórica nossa Bagé por teres nascido nela, e o Rio Grande do Sul esteja mais iluminado por teres devolvido, em versos e prosa, sua força e sua grandeza. O que nos surpreende é tua genialidade, esse jeito de  chegar, sem cerimônia, por todos os lados de nossa alma  como contista, cronista, compósito de letras musicais, como  ator  e grande poeta e servires esse mate glorioso de tua criação e da literatura universal a todos nós e por tanto tempo.  O que nos surpreende é esse eterno menino que mora em ti, garantia de tua eternidade. E o fato, altamente simbólico, de, aos 80 anos, seres premiado pela criação infantil, e a criança sempre ser tua escolha mais sagrada. Como sempre o foi nos evangelhos. Hoje, Bagé, a capital de tua infância, vem, de joelhos, agradecer o presente que recebeu há 80 anos. Agradecer e testemunhar o seu menino da Praça Esporte, que brincava de “passo gigante”, ter se tornado gigante em seu passo literário, transformando-se no maduro e brilhante poeta que arrebata a emoção do mundo por onde pisa.  Muito a agradecer, nesse entardecer com gosto maduro de manhã, a quem fala e canta, com tamanha beleza, nosso coração e, com a mais densa e alegre paixão, o coração da vida. Vimos celebrar, Luiz, tua vida e tua palavra de mel e fogo, nesse templo onde moram  os salmos de  amor  e a mais exigente  aventura espiritual. Nesta casa do infinito, a casa de Deus, a tua casa. Com carinho nos ajoelhemos e agradeçamos a vida de Luiz Coronel, que volta a terra onde nasceu para ser por ela abençoado e de novo ungido por sua luz e amor. LUIZ, como não agradecer, diante de Deus,  teres feito da linguagem  o mais poderoso e mágico caminho  de tua vida e nosso encantamento? Teres libertado o olhar de velhos e puídos véus, destravado azuis em tempos sombrios, cerzido tantos arco-íris, alcançado infinitos para nossa humana condição, rido do passo enviesado da vida, acariciado, com um carinho particular, a face de tua  Bagé ? Cuidado de teus amigos,  recitado, com ardor, a magia o sul? Como não agradecer teres sido sempre musical e nos ensinado a alegria e a delicadeza de viver em toda a tua obra e todo teu ser ? Obrigada mil vezes, neste entardecer, diante de Deus, pela  manhã  interminável de tua alma. Obrigada por ti, por teres tirado tantas vezes a vida para dançar e também teres chorado com ela e a libertado, com primor,  da sua pequenez. Obrigada por tua obra, cheia da graça do mundo e da graça de  Deus. Obrigada por  tua família, os amados de tua vida, e a cidade que te viu nascer. Bagé aniversaria seus 207 anos nos 80 anos de Luiz Coronel.  Seus cerros e suas palmeiras, nosso meigo arroio e as casas pensativas de história hão de se dobrar para ele, como nós dobramos os joelhos para agradecer essa cidade e seu poeta. Quando um poeta faz 80 anos em sua terra, a vida e a arte comemoram seu mais luminoso aniversário. E precisamos de muitas vozes para cantar essa emoção. Um sentimento que vem da claridade de uma poesia que cai sobre nós como uma brisa musical ou um  jorro quase divino e se fez privilégio e tesouro de Bagé.                                                                                     Elvira de Macedo Nascimento  

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