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Cidades da Fronteira Sul encerraram 2019 com a perda de 2,4 mil empregos
Publicado em 25/01/2020

Geral

Foto: João A. M. Filho

A expectativa de melhora na empregabilidade para trabalhadores formais com carteira assinada não se confirmou entre 11 de 16 municípios pesquisados pela reportagem do jornal Folha do Sul, junto à base de dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que teve os dados relativos a dezembro de 2019 divulgados na manhã de sexta-feira.

De acordo com as estatísticas, Aceguá, Bagé, Barra do Quaraí, Candiota, Chuí, Dom Pedrito, Herval, Hulha Negra, Jaguarão, Lavras do Sul, Pedras Altas, Pinheiro Machado, Santana do Livramento, Santa Vitória do Palmar e Uruguaiana perderam 2 450 empregos com carteira assinada. A amostragem aponta somente trabalhadores assalariados, o que não inclui profissionais liberais, autônomos, microempreendedores individuais (MEIs), funcionários públicos estatutários, militares, trabalhadores informais ou prestadores de serviços com contrato de pessoa jurídica.

Bagé

O desempenho do município oscilou negativamente em oito dos 12 meses do ano, o que influenciou no resultado negativo de 2019. Porém, de acordo com o economista e professor Eduardo Palmeira, os dados relativos ao ano passado não podem ser interpretados de forma negativa. “Bagé oscilou negativamente, porém, dentro da população economicamente ativa, não aconteceram intercorrências significativas (demissões em massa) que influenciassem o resultado. Isso quer dizer que, diante do cenário ainda de retração econômica generalizada, os dados mostram que a (falta de) confiança do investidor ainda é o principal fator que interferiu neste resultado”, explicou.

Ainda que os dados apontem uma queda no índice de empregos formais, Palmeira destaca que muitos trabalhadores assalariados aproveitaram uma nova janela de oportunidades gerada pela flexibilização das regras para aberturas de empresas e muitos investiram em um negócio próprio, deixando de serem assalariados. “Existem registros em termos nacionais que apontam que muitos trabalhadores aproveitaram os recursos obtidos com a rescisão de seus contratos para abrir seu próprio negócio. Isso quer dizer que, de fato, não houve desemprego, mas migração de assalariado para autônomo ou informal, e, em alguns casos, até para empregador”, acrescentou.

As estatísticas relativas ao município ainda têm a ressalva de que nos meses de janeiro a março, a secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação (SDI) divulgou retificação dos dados publicados pelo Caged, o que pode reduzir a perda de vagas para 131 de saldo negativo. Outra observação diz respeito à realidade observada, onde se constata o desembarque e a abertura de vários empreendimentos em 2019, em setores tradicionais e em novas áreas, como a produção de azeites de oliva, por exemplo, o que aumentou a oferta de vagas e a competitividade entre empresas.

Por outro lado, um dos fatores apontados pelo economista que também ocasionou a queda na oferta de empregos é que uma parcela importante da população residente em Bagé recebe de forma parcelada desde fevereiro de 2015. “O parcelamento de salários dos servidores estaduais do poder Executivo reduziu o poder de compra deste público e também desestimulou a economia. Com isso, muitos destes consumidores reduziram ao mínimo necessário o padrão de consumo e isso impactou, inclusive, na receita ainda menor de ICMS para o Estado. Com menos dinheiro circulando, as empresas acabam por contratar menos”, acrescentou.

Região

Caracterizada por ser uma região com baixo índice de industrialização – à exceção dos empreendimentos ligados à produção agropecuária, os 16 municípios analisados pela reportagem do jornal Folha do Sul possuem diferentes matrizes econômicas, que orientam parte do desempenho em relação a empregos formais.

Durante o ano passado, essa baixa expectativa de investimentos refletiu, principalmente, na disparidade entre os resultados obtidos pelo Estado, comparados à região pesquisada. Enquanto no Rio Grande do Sul, foram criadas 17 671 vagas – aumento de 0,7%, os 16 municípios da Fronteira Sul analisados pela reportagem tiveram retração de 3,16%.

Outra observação apontada por Palmeira na estatística é que alguns dos municípios avaliados tiveram retração populacional – dados do Instituto brasileiro de Economia e Estatística (IBGE) estimam que 1 096 pessoas deixaram de residir no conjunto de 16 municípios entre 2018 e 2019. “São pessoas que migraram para outras regiões e que deixaram seus empregos. Isso também reflete na estatística”, argumentou.

Além de fatores como migração e conjuntura econômica, o término de grandes obras de infraestrutura ou investimentos em energia causaram impacto nos dados divulgados pelo Caged. “O término da obra em Candiota da Usina Termelétrica Pampa Sul e a recente conclusão das obras dos residenciais em Bagé, onde foram construídas 1 164 novas moradias deve encerrar um ciclo de contratações e caberá aos gestores públicos eleger políticas para atrair novos investimentos para a região”, relatou.

Por último, a população flutuante e a relação entre centros regionais e as cidades com menor população também influenciam os dados. Isso porque muitos moradores de uma cidade podem trabalhar em outro município e o registro de uma eventual admissão ou demissão pode acontecer fora ou no próprio município de residência. “Por exemplo, muitos dos trabalhadores da construção civil que atuaram em Candiota, na verdade, residiam em Bagé. Isso altera a dinâmica da geração ou retração das estatísticas de empregos formais e também ocasionou a concentração dos dados sobre demissões em uma única cidade, enquanto os municípios próximos também dividem esta estatística”, argumentou. Somente entre Bagé e municípios próximos, é reconhecida a presença de empresas do setor de frigoríficos e energia, principalmente, que tem empregados residentes em diferentes cidades do local de trabalho.

Para este ano, a avaliação de Palmeira é que a situação de melhora gradativa nos dados econômicos possa auxiliar na retomada de alguns setores da economia, o que deve elevar a geração de postos de trabalho. Contudo, o maior desafio será melhorar a atratividade para novos investimentos. “As cidades precisam se ‘vender’ melhor aos investidores, melhorar a infraestrutura e oferecer vantagens para que possam promover o desenvolvimento”, disse.

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