Bagé e região não tiveram ocorrências graves de ciclone extratropical
Publicado em 02/07/2020

Geral

Foto: Divulgação/FS

Defesa Civil realizou ações preventivas e não registrou ocorrências

A ocorrência meteorológica que deixou cerca de um milhão de residências sem energia elétrica no Estado, entre segunda e terça-feira, teve poucos efeitos em Bagé e municípios vizinhos. De acordo com informações da Defesa Civil do município, os ventos de maior intensidade na Rainha da Fronteira foram registrados entre 22h e 24h de ontem, com rajadas entre 55 e 64 quilômetros por hora. Até as 11h de ontem, a equipe não havia recebido pedidos por socorro em Bagé.

O coordenador da Defesa Civil, Everton Kaupe, declarou à reportagem do jornal Folha do Sul que o órgão realizou ações preventivas com a distribuição de lonas e telhas à população do bairro Balança, um dos mais suscetíveis a efeitos meteorológicos, devido à fragilidade das construções. “Até o momento, nós distribuímos roupas, agasalhos, lonas e 100 unidades de telhas a nove residências daquela região e atendemos 24 famílias, que também vão receber cestas básicas. Porém, não recebemos nenhum pedido de socorro até o início da tarde”, relatou.

A Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) informou por meio das redes sociais que uma falha na rede da operadora de telefonia Oi atingiu o 0800 721 2333, que realiza o atendimento para o caso de falta de luz. A empresa divulgou que os clientes podem entrar em contato pelo site ou pelo SMS para o 27307 com a palavra LUZ e o número da UC – unidade consumidora (para falta de energia). No Rio Grande do Sul, os locais mais atingidos pelo fenômeno, denominado de ‘ciclone bomba’, foram regiões Metropolitana, Litoral Sul e Litoral Norte, Serra e Centro-Sul. As rajadas de vento, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia, chegaram a 116 km/h em Santa Vitória do Palmar, no início da madrugada; a 97,6 km/h, entre 3h e 4h, em Pelotas, e a 95,8 km/h, entre 6h e 7h, em Tramandaí.

A reportagem tentou por várias vezes contato com a Gerência Regional da Campanha da CEEE para buscar informações sobre a situação da região, porém, não foi atendida.

Na região, a Cooperativa Regional de Eletrificação Rural Fronteira Sul (Coopersul) que presta serviços de eletrificação rural, informou que, pela força do vento, um cabo de energia de média tensão rompeu em área de difícil acesso entre Bagé e Candiota. Por isso, de 10 a 15 assentamentos ficaram sem luz. Segundo informações repassadas à reportagem, sete equipes trabalham para resolver problemas na área rural de Bagé, Candiota e Hulha Negra. A expectativa era resolver a situação até o final da manhã.

Conforme o eletrotécnico Cristiano Aires, a Coopersul permaneceu com sete equipes atuando nas localidades do interior dos municípios da Campanha para resolver intercorrências. “Não tivemos registros graves de rompimento de linhas, somente alguns casos pontuais e a situação deve se normalizar nas próximas horas”, relatou, ontem às 12h.

Fenômeno

À BBC News Brasil, o meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Heráclio Alves, disse que ciclones extratropicais são relativamente comuns e são formados por áreas de baixa pressão atmosférica.

O fenômeno que atravessou o Estado no sentido interior-litoral surgiu próximo ao Paraguai e cruzou diversas regiões continentais até chegar ao oceano Atlântico, onde ainda atua por algum tempo e depois perde força. "Ele causa basicamente ventos mais fortes, muita chuva, e a partir daí se formam as frentes frias”, explicou. Na terça e quarta-feira, foram registradas rajadas de vento de 50 a 100 km/ h no Rio Grande do Sul. A consequência da continuidade do deslocamento para o oceano são ondas maiores e uma grande agitação no mar. Isso deve ocorrer na faixa que vai do Rio Grande do Sul até o Rio de Janeiro. Após esse evento, as temperaturas vão cair drasticamente e existe a possibilidade da ocorrência de geada na Campanha neste fim de semana.

A denominação de ‘ciclone bomba’ se deve à abrupta oscilação negativa do centro de baixa pressão, que leva em torno de 24h para decair consideravelmente e formar uma tempestade, que nesse caso atingiu com força os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Também com efeitos em São Paulo e Rio de Janeiro.

Conforme estudo dos pesquisadores Daniel Pires Bitencourt, Márcia Vetromilla Fuentes e Camila de Souza Cardoso, em publicação para a Revista Brasileira de Meteorologia, que detalha ocorrências entre 1957 a 2010, ou seja, não se trata de um fenômeno novo e que tem uma área mais comum de ocorrência nos meses de inverno, ao Sul do Paralelo 27°S, que indica a linha de latitude que passa pela região de Garopaba, litoral de Santa Catarina e se estende pelo norte do Rio Grande do Sul. “Em todo o Hemisfério Sul, ocorrem, em média, 26 ciclones explosivos ou “bombas” por ano, sendo a maior frequência no trimestre de junho, julho e agosto, com 47,1 % dos casos. Dentro da área escolhida para esse estudo, os ciclones explosivos se formam apenas ao Sul de 27°S (que inclui quase a totalidade do território do Estado) e a maioria dos sistemas, 72,9 %, apresentam início da trajetória com desenvolvimento explosivo sobre o oceano Atlântico”, detalhou o estudo.

Conforme a pesquisa dos acadêmicos, os ciclones explosivos se caracterizam pela rápida redução da pressão central e aumento na intensificação, que dificultam o prognóstico e podem causar sérias ameaças à vida humana e a propriedade em áreas próximas à costa ou de navegação. Contudo, a classificação técnica de “ciclone bomba” ao fenômeno ocorrido entre segunda e quarta-feira ainda seria definida ontem à noite, após reunião entre cientistas do INMet, já que o fenômeno só poderia ser assim considerado caso se tivesse se formado inicialmente sobre o oceano, o que não foi o caso.

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