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As histórias do gaúcho da Kombi azul
Publicado em 07/09/2019

Geral

Foto: Marcelo Pimenta e Silva

Jardim, 77, trabalha há anos nas ruas da cidade

 

Por Marcelo Pimenta e Silva

 

Há quase 10 anos, quem desce a avenida Marechal Floriano, esquina com a rua Bento Gonçalves, encontra um personagem típico da região da Campanha: um gaúcho simpático com boas histórias para contar e que utiliza uma Kombi azul como mostruário dos diversos itens que vende para os transeuntes.

De mudas de plantas a chás, passando pelo artesanato feito em lã a objetos feitos a ferro e metal. São muitos os produtos e os “causos” que Dirceu Silveira Jardim, que completa 78 anos em novembro, tem para oferecer a quem passa pelo local. “Trabalho todos os dias aqui, não importa se está frio ou calor, só quando chove é que não venho para cá”, declara o aposentado, que diz que escolheu o local pela sombra da árvore que dá e pelo local com grande fluxo de pessoas que transitam.

Em dias de temperatura baixa, como o da manhã em que concedeu a entrevista par ao jornal Folha do Sul (quarta-feira), o aposentado ressalta que chega bem cedo ao ponto onde comercializa seus produtos e fica por ali até o entardecer. Para encarar o frio, “a receita é colocar bastante roupa no corpo e ter um chimarrão sempre pronto”, afirma.

"Agulhas velhas bagual"

Jardim conta que já estacionou sua Kombi por um bom tempo próximo à agência do Banrisul. “Trabalhei por ali durante muitos anos. Muitas pessoas compravam meus produtos quando estava ali, mas aqui também sempre tem um bom movimento”. Sobre os diversos artigos que traz todos os dias para vender na rua, Jardim começa a mostrar um a um. “Ah, vendo de tudo. Tenho mudas de folhagens, chás secos, capas, xergão,  itens feitos com couro, cobertores e poncho de lã. “Faço esses produtos em lã, há muitos anos, com minhas agulhas velhas bagual”, ressalta.

Além dos artigos feitos de forma artesanal, o comerciante também leva em seu veículo, alguns objetos antigos, que atraem a curiosidade de quem transita pela avenida. “Por exemplo, panelas, ferros a carvão e outros objetos que ele encontra em sucatas. “Eu sempre procuro bem essas peças e, quando encontro algo que é bonito, eu adquiro para expor aqui, mas sempre vejo a procedência. Dou uma limpada, mas não mexo muito para não tirar a rusticidade da peça”, comenta.

De pedreiro a esquilador

Filho da campanha como enfatiza, por ter nascido na localidade de Três Passos, próxima ao Camaquã, Jardim relata que já trabalhou com tudo nessas mais de sete décadas de vida. Já foi pedreiro, carpinteiro, capinou pátios, foi alambrador e também esquilador. “Foi o que me judiou as costas; hoje, tenho bico de papagaio, hérnia de disco... Também, chegava a esquilar até 160 ovelhas por dia”, frisa.

Sobre os trabalhos com artesanato em lã, ele conta que aprendeu com a mãe. “Fiava com fuso porque na época não tinha máquina, aprendi a fazer tudo manual, a tricotar também”, explica, mostrando ponchos e cobertores.

Indagado se sente saudades da campanha, ele rebate enfático: “A campanha é o melhor lugar que tem. Saí de lá com 15 anos. Tem sempre uma boa comida, silêncio e ar puro.  Às vezes, vou para a campanha. Porém, até pra fora está perigoso. Se tu vais de carro, pelas condições das estradas, tu nem chega, além de que estão roubando muito no interior”, diz.

Morando há mais de 50 anos no loteamento São Pedro, ele também comenta que a violência na cidade está preocupante. “Antigamente, cansei de ir a bailes em tudo que era lugar, tomar minha canha e voltar sozinho, tarde da noite e nunca aconteceu nada. Hoje, a criminalidade está muito forte”, reforça o aposentado, que tem quatro filhos e 10 netos.

"Se é pra morrer que seja de barriga cheia"

No momento da entrevista, um consumidor adquiria um saco com ervas para chá. Jardim, com a sabedoria de quem trabalha há anos com esse tipo de comércio, explicava para qual problema a erva era boa. “Não acredito nesses chás que são recomendados para um monte de coisa. Cada erva é específica para um tipo de circunstância”, argumenta, citando que os chás são um dos pontos fortes da comercialização. “As pessoas procuram porque são produtos naturais, fazem bem para o organismo”. Ele confessa que faz uso dos produtos para os inúmeros problemas de saúde que tem. “Ah, é tanta coisa que nem sei mais. Mesmo com problemas de saúde não abro mão de uma comida bem gorda. Se é para morrer, que seja de barriga cheia”, brinca. Perguntado se mesmo aposentado, a ocupação das vendas na rua é uma forma de se distrair, ele rebate de imediato: “Não, é porque preciso para me manter, afinal sou aposentado com salário de fome”, aponta.

E assim prossegue Dirceu Silveira Jardim, comentando sobre os mais variados assuntos e sempre com uma resposta pronta para quem chega por ali para bater um papo em seu “ponto comercial”. Como um tradicional gaudério da região, Jardim é exemplo de quem com o simples fato de produzir e vender objetos e artigos tradicionais da região acaba por preservar a própria história e a cultura local.  

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