Aplausos - 24 de setembro de 2019
Publicado em 24/09/2019

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Foto: Divulgação/FS

Ecyla Tavares, Piva Suñe, Caia Martins, “Salvar Vidas”, AZ Galeria, clic Fábio Lucas

UM POEMA EM CADA ÁRVORE, ação cultural da Cia de Teatro Bufões da Rainha, dia (21), na praça Silveira Martins. Em homenagem à memória de Rafaela Gonçalves Ribas; integrantes do Cultura Sul plantaram muda de magnólia na praça; gesto que merece muitos aplausos, meus queridos!.

POEMA DE FEVEREIRO

Por que me deste, Senhor,

Fevereiro para nascer, ambíguo mês

De peixes e incertezas?

Por que me alcançaste a duplicidade

Da busca e a dolorosa dúvida da escolha?

Por que sufocaste de ansiedade

A minha alma, se não me socorreste

Com o milagre de satisfazê-la?

Ah! Essa cálida luz de fevereiro e o

Desejo irreprimível de fruir o campo,

No canto verde do pasto. E o arroio, em

Seus azulados braços, e nele

Afogar os meus anseios? Como controlar

As plantas invasoras da minha alma?

Como sufocar o dilúvio das minhas

Aflições? Pudesse fevereiro ter apenas

Um peixe. Um só, guardado no

armário dos meus avessos. Mas dois,

dois são demais. Perdão, Senhor!

Abranda, meu Deus, com tua misericórdia,

Os conflitos piscianos do meu coração

Para que eu possa (não sei, se final ou inutilmente), apascentar o rebanho,

Nem sempre dócil,

Da minha alma inquieta. (Rafaela Ribas)

 

CAMINHOS

Mesmo que a chuva caia soberbamente

Toda em cascata derramada

No desdobramento de um salto

Amplo e claro, tu prossegues.

E que o sol e a lua se alternem

no círculo imenso do céu.

E que o espelho dos dias se fechem

e as glicínias do campo se calem.

E que a geada cubra, com seu manto

de cal, o pampa, imenso, deslumbrando

esplendor do novo crepúsculo.

E que a ventania, com suas folhas de palavra

e poder, acordem a cristalina alma da aldeia.

E que a rosa e o rouxinol sol e trem a cartilha

do ser e do não ser.

E que a frágil neblina, na sinfonia dos dias,

lave o denso rosto das manhãs.

E que a estrela, posta nos ombros do mundo,

anuncie novos emblemas no vão desejo do homem. (Rafaela Ribas)

 

A CASA DE MARIA

Meus olhos ficaram parado,

fixos nas paredes dessa casa

com janelas espiando a rua estreita

feita de pedras seculares.

Demorei um pouco antes de

entrar pela porta silenciosa

Era a mesma de sempre. Antiga.

Em seu rosto de séculos.

Quantos passos já transpuseram

o portal dessa entrada lavrada na memória(...)

(...) Não posso registrar em palavras

o que está gravado no caminho distante.

Mas ali estão presentes

todos os olhos, os passos

as sombras, os desejos, as alucinações

dos que já se foram.

Maria Conceição resguarda a

Memória dos ancestrais com todos os risos,

Todos os abraços,

na voz do amor que não morre.

Os poetas calados estavam ali

Ao lado de Maria na sala que

Sobrevive à pátina do tempo. (Rafaela Ribas )

 

RAÍZES

Minhas raízes estão costuradas

Nos dedos dos cerros que

batizam a lenda da aldeia.

No rosto do vento que sinaliza

A porosa fronte da alma,

repousam minhas raízes.

Elas estão nos olhos dos

Anos que fermentam a sintaxe da vida,

o sol e o sal da manhã.

Minhas raízes se escondem (...). Fragmentos poesia de Rafaela Ribas

                            

CANTO DOS GIRASSÓIS  


Protege, Senhor, a abóbada
clara sulina da nossa terra
inscrita secularmente no
lábio líquido da história.
Ouve o suspiro vítreo dos
nossos velhos casarões expostos
à surdez do tempo.
...
Escuta o gemido gris
das papoulas maduras
nascidas no ventre cinza
da Panela do Candal.
Assiste o hálito pálido
do orvalho, lambendo, agônico,
o desfolhado rosto dos girassóis... (Fragmento de poesia de Rafaela Ribas)

 

 DE TERRA E VERSOS

... ah o rosto  amoroso do arroio

    como serpente travessa, lambendo

    o pólen diáfano da terra

    ... que gosto me dá ver a catedral de São Sebastião                               

    (com seus figos de pedra, na imagem do Wayne)                                       

    modelados por vento

    amplo, obediente ao tempo e ao

    céu, na cumplicidade do

    cálice  verde da paisagem.  (Rafaela Ribas)

 

“RAFAELA, quem disse

que a vida é só de passagem.

Depois do adeus,

viramos paisagem.”  Luiz Coronel     

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