Reflexões do Covid-9 em relação ao Agronegócio
Publicado em 16/03/2020

Marcelo Lopes Vieira

advogado, especialista em direto previdenciário, com pós graduação em Direito Processual e do Trabalho e Direito Ambiental.

Marcelo Lopes Vieira

Os vírus e bactérias são mencionados como se fossem exclusivamente organismos nocivos que deveriam ser eliminados. Privilegia-se um enfoque de guerra, como em tantos outros aspectos da relação do capitalismo com a natureza. No entanto, devido à capacidade de passar de uma espécie a outra, os vírus e bactérias são parte fundamental da coevolução e adaptação de seres vivos, assim como do equilíbrio com o meio ambiente e a saúde, incluindo os humanos. 
O Covid-19, que agora ocupa as capas de jornais mundialmente, é uma cepa (tipo) da família dos coronavírus, que provocam doenças respiratórias geralmente leves, mas que podem ser graves para uma pequena porcentagem dos afectados devido à vulnerabilidade. 
Existe um consenso científico de que a origem deste novo vírus, como todos que foram declarados como pandemias nos últimos anos, inclusive a gripe aviária ou a gripe suína originada no México - é zoonótica. Isto é, ele provém de animais e, após mutação, afeta os humanos. 
No caso do Covid-19 e da Sards, suspeita-se que o vírus pode ter se originado de morcegos. Ainda que tentem responsabilizar a venda de morcegos no mercado asiático, na verdade, esse consumo de animais silvestres na forma tradicional e local não é o problema. Os fatores fundamentais são a destruição dos habitats das espécies silvestres, a migração desses animais para as cidades e/ou a expansão da agropecuária industrial, com os quais são criadas as situações adequadas para a mutação acelerada dos vírus.
A  criação de animais em regime industrial, principalmente aves, porcos e vacas, não deveria ser repensados? Considerando que,  mais de 70% dos antibióticos em escala global são utilizados para engorda ou prevenção de infecções em animais não doentes, o que produziu um grave problema de resistência aos antibióticos, também para humanos. A OMS fez um chamado, em 2017, para que as indústrias da agropecuária, piscicultura e alimentar deixem de utilizar antibióticos sistematicamente para estimular o crescimento de animais saudáveis.
Nesse sentido, as grandes corporações agropecuárias e alimentares ainda adicionam ainda doses regulares de antivirais e agrotóxicos dentro das mesmas instalações.
No entanto, é mais fácil e conveniente apontar uma meia dúzia de morcegos ou civetas - que tiveram seu habitat destruído - do que questionar essas fábricas de doenças humanas ou animais.
A ameaça de pandemia também é seletiva. Todas as doenças que foram consideradas epidemias nas duas últimas décadas, inclusive o Covid-19, produziram menos mortes que as doenças comuns, como a gripe - pela qual, segundo a OMS, morrem até 650 mil pessoas por ano globalmente. No entanto, essas novas epidemias motivam medidas extremas de vigilância e controle.

O momento é de cuidado e prevenção, sobretudo de reflexão sobre a temática do desenvolvimento sustentável.


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