No Ar
Folha do Sul
Web Rádio

'Se quiser amamentar, terá de se cobrir': regra em voos causa polêmica
Publicado em 22/07/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Companhia aérea holandesa é criticada nas redes por defender política de pedir a mães que se cubram para amamentar a bordo caso outros passageiros reclamem. Esse trecho foi retirado de um site de notícias conhecido em âmbito internacional.  Uma empresa estipulou que para que haja a amamentação em seus voos as mães precisam cobrir o seio.  Já falamos aqui e por mais de uma vez em uma grande discussão entre biológico e biográfico, também já falamos sobre objetificação e em contraponto empoderamento do feminino.
A notícia causa desconforto desde pronto. Em que pese seja de um outro país, outro continente, pode e reflete uma realidade só.  Estamos discutindo, ainda que no ano de 2019 o seio como algo que não pode ser mostrado. Esperem um pouco, homens podem desfilar em quase todos os lugar sem camisa, mas mulheres não.
Tudo bem, vamos problematizar de uma forma mais objetiva. Qual o sentido da amamentação?   Se alguém pensa em qualquer coisa diferente de alimentação, precisa com urgência de ajuda.   O biológico é nítido:  mamíferos mamam... É a forma primeira, primitiva e original de alimentação na primeira fase dos mamíferos. O leite materno, seja de qual mãe estejamos falando, dentro do universo mamífero, é o alimento recomendado para não dizermos o alimento certo.
Houve uma sensualização do seio, além do seu critério biológico. Vejamos, olha só que dicotômico, biologicamente o seio serve para alimentar, os mesmos que criticam utilizar as funções pre-estabelecidas como biológicas para outros fins, são os que entendem a amamentação pública como errônea. Senão, vejamos, analogicamente vamos falar do ânus, seu fim biológico é ser o objeto final de excreção de um sistema digestório, serve para eliminar os resíduos não aproveitados pelo organismo, até aí tudo bem, né?   Questionam quanto à utilização do ânus para fins sexuais.   Aparentemente não faz sentido comparar os dois órgãos/sistemas, mas se pensarmos em fins biológicos ambos têm um fim específico cientificamente e naturalmente justificado. O corpo humano é uma máquina perfeita, porém a exploração dessa máquina depende muito da forma que queremos utilizá-la.
A amamentação fere a moral? Mostrar o seio pode constranger alguém?  Eu não me sinto constrangido, muito pelo contrário, me sinto satisfeito em ver alguém sendo alimentado.  Não entrarei no mérito que também é biológico, mas se confunde com o biográfico no que diz respeito à amamentação, troca de afeto, carinho, aconchego e tudo mais que o amamentar possibilita.
Seguimos a discussão, se esse amamentar não pode ser realizado em público, por causa do seio à mostra, estamos entendendo então que não devem amamentar no seio, seria então necessário extrair o leite e amamentar com uma mamadeira? Seria necessário, substituir o lei natural materno por outros industrializados?  Além de estarmos contrários à ciência e todos os estudos que comprovam que o leite é o alimento mais rico e completo para aquele momento da vida, estaríamos também entrando em choque com tudo que foi produzido culturalmente em campanhas de conscientização e divulgação da importância da amamentação.
Nesse sentido, olhem que interessante, hoje as "licenças maternidade" que nada têm a ver com as mães, mas são conhecidas com esse nome, são dadas a mulheres, porém são direitos das crianças, entendemos que pelo aspecto biológico elas devem gozar de dias com a prole nos primeiros meses de vida, tendo em vista que amamentam. Essa lógica não consegue se manter se pensarmos que já entendemos esse amamentar não mais necessário e importante. Se entendermos que qualquer um pode amamentar com uma mamadeira, o que é fato. Eu, por exemplo, com quatro sobrinhos - 13 afilhados sei até aquecer leite em banho-maria e testar para saber se está na temperatura entendida adequada, inclusive, já "amamentei" várias vezes, vários deles.
Então, se o homem também pode amamentar, partindo da premissa que o seio e o leite materno não mais importam do jeito e forma que antes, então quer dizer que as licenças maternidade podem muito bem passar a ser substituída por licença paternidade, ou licença cuidador. Afinal, o direito é da criança, em que pese exista ambas as licenças, são díspares, das mulheres de quatro ou seis meses e dos homens em poucos dias. Pensemos uma mulher que não quer ficar seis meses em casa, prefere manter-se em seu cargo e que o marido cuide seu filho, por exemplo. Ela pode passar esses meses para ele?  Em muitos países sim, no Brasil não.
Discurso dicotômico baseado em toda a construção cultural que joga a mulher no lar, mãe, dona de casa, responsável da prole. Homens não ajudam, homens são corresponsáveis na criação dos filhos. Pensem sobre isso. Por favor, vamos parar de reduzir a mulher, se sensualizar ato tão nobre e natural como o amamentar, de desresponsabilizar os homens e livrá-los das responsabilidades que são suas também. Desafio da semana: postar uma foto em rede social amamentando, seja no seio ou na mamadeira, com uma hashtag que faça as pessoas pensarem que  eite é alimento, que seio é corpo, que coibir a amamentação é ilegal e desumano.


Deixe sua opinião