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Oitenta tiros em nós, vez que outra e todo dia
Publicado em 15/04/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Falar de Direito é falar em saúde, em educação como já falamos por aqui, mas falar em Direito também é falarmos em segurança.  Por bem, sabemos que o nível da criminalidade sobe constantemente de maneira alarmante, inclusive, sabemos ainda que as estatísticas demonstram que a estrutura da segurança pública não consegue de forma racional atender o necessário para o controle, redução e a sonhada extinção desta criminalidade. Inúmeros são os motivos, primeiramente, e assim como o que falamos dos professores, pelo sucateamento da segurança, desvalorização dos profissionais, baixos salários, altos riscos, mas, além disso, por não conseguirmos refletir sobre essa criminalidade de maneira adequada. Por lógico não tenho a maior das propriedades, pois não estudo as ciências criminais como objeto direto, mas em sendo um daqueles que consideram “o pessoalzinho dos Direitos Humanos” e ter, sim, Direitos Humanos como cerne de estudo e interesse penso que consiga dar um viés no mínimo reflexivo e questionador para começarmos a pensar esse “fenômeno” com outros e melhores olhos.  Não é a questão dita de forma impensada de que só pensamos no “vagabundo”,  muito menos na perspectiva de que os Direitos Humanos são para humanos direitos, no conceito mais fundamental são, sim, àqueles que simplesmente são: humanos.  Isso basta para o nosso diálogo inicial. Assim sendo, se tivermos em mente essa questão, de que os Direitos Humanos são para os humanos, muito desse preconceito se eliminaria. Todos são merecedores de condições, ainda que mínimas, de respeito, reconhecimento e cidadania. Há, sim, penalização para aqueles que não se enquadram nas normas sociais e legais, e a cominação dessas penalizações por si só seriam suficientes para que houvesse a contrapartida por ter infringido as normas. Vamos lá, cometeu o crime, teve o devido processo, aplica-se a pena. “Está pago”. Essa lógica seria se não entendêssemos que esse indivíduo é indigno de qualquer direito, não tem problema a superlotação das casas prisionais, as doenças, a violência. Não queremos que percebam auxílios para que as famílias tenham condições de vida e se possível for que mais gente vá pra lá para sair do convívio social. É verdade ou não?  Ainda que, todo esse pensar exista, precisamos refletir sobre ele. Precisamos pensar que a criminalidade é o reflexo de quem comete crimes, não de quem tem estereótipo de cometer crimes. Deu para entender? Vamos lá, quem é a grande massa carcerária? Camadas baixas, pretos. O estigma do criminoso já foi e ainda é objeto de estudo de várias áreas. Todos reconhecem esse estereótipo. Nós enquanto críticos do sistema, podemos, sim, inclusive, devemos criticar e sugerir melhorias, contudo, jamais poderemos nos ver enquanto replicadores de um estigma que é no mínimo covarde. 80 tiros nos matam quando admitimos e endossamos que o criminoso no Brasil é o negro; 80 tiros nos matam quando fugimos de uma pessoa pela cor da pele numa rua escura com medo do assalto; 80 tiros nos matam quando colocamos para fora de um hotel de luxo o filho de um hóspede de cor preta.  Vamos falar muito do bandido, e do mocinho por aqui; vamos falar muito sobre estigmas e estereótipos; vamos falar muito também da morte e da vida, pretendo nunca mais escrever sobre equívocos, sobre 80, um ou dois tiros dados de forma enganada. Ainda dá para relevar morrer pelo confronto, porque ameaçou, colocou em risco outro, porque a polícia não tinha outra alternativa, o que não dá para admitir é morrer por ser preto, por ser amarelo, por ser azul, por ser homossexual, por ser mulher, por ser idoso, por ser...
  camargojoao@hotmail.com

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