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O Brasil em reformas
Publicado em 29/04/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

No primeiro impacto, o termo reforma nos dá a ideia de mudança, de arrumação e manutenção, quando reformamos a casa é para que ela fique melhor, mais aconchegante, talvez mais bela. As reformas são necessárias, reformamos as roupas que gostamos muito para que se adequem ao corpo maior, menor ou a moda, reformamos móveis antigos para decoração. O termo reforma é interessante pela ideia de melhoramento. Contudo, nem sempre será essa ideia, estamos há algum tempo com muita discussão de duas reformas importantes: a trabalhista e a previdenciária; assunto que não se esgotaria em uma simples página de jornal. Ambas nos preocupam, a menos deveriam nos preocupar. A ótica da modernidade atrela toda e qualquer atividade ao trabalho, o trabalho move o consumo, o trabalho dita a atuação menor ou maior do Estado nas questões assistenciais, o trabalho move a economia como um todo, o trabalho, o trabalho, o trabalho… A Previdência por sua vez, visa à compensação e mantença de vida digna para as “situações de não trabalho”. Segundo os pós-modernos, a vida está onde não está diretamente o trabalho. A miúde, estamos de fato vivendo quando não estamos trabalhando, o trabalho para que se viva e não a vida para o trabalho. A teoria dos pós-modernos certamente se adequa mais ao sentido de vida, ao real sentido, porém não é a mais pacífica.  Para além do biográfico o biológico, sempre estamos discutindo esses dois binômios em conflito, contudo, ultimamente dando mais ênfase no biográfico. Agora, podemos pensar em ambos de mãos, o trabalho sem dúvida é necessário, mas até quando? Quando de fato se vive? Os direitos sociais não estão previstos na Constituição por acaso, não temos leis trabalhistas por acaso e nem mesmo o tripé da seguridade: saúde, assistência e previdência existem por acaso. Em que pese tenhamos um aumento significativo na expectativa de vida nos últimos anos, se pensarmos o que estamos fazendo com essa sobrevida, nenhum sentido faz as atividades de trabalho, pois ocupamos o tempo com mais trabalho, trabalhando mais e mais; dia desses, me percebi com cinco vínculos, sem tempo para passear na praça com o cusco, mas com o dia abarrotado de compromissos. Trabalho enquanto identidade, sim, enquanto mantença de vida, sim, contudo trabalho enquanto existência não pode mais ser considerado.  As adequações trouxeram/trarão mudanças para os trabalhadores? São mudanças positivas?  Há/haverá preocupação com esse pós- trabalho?  Temos como pensar em uma sobrevida de trabalho digna e em condições de gozo? Se as respostas forem não, não temos uma reforma boa, mas, sim, marretaços numa parede útil que a tornará sem serventia. Quem ganha com isso?  Quem quer essa mudança?  Já dizia Boff, que as cabeças pensam a partir de onde os pés pisam. E onde estão pisando essas cabeças pensantes? Se houver/houvesse um efetivo pensar na melhoria da qualidade do trabalho, na empregabilidade verdadeiramente falando tudo bem, se houver/houvesse um pensar em um momento pós-trabalho com aposentadoria digna e condições de “aproveitar”, “descansar” aí tudo bem! É isso?  Ao que me parece, não. Estamos postergando o tempo de validade do indivíduo, exigido que trabalhe mais em piores condições por mais tempo. Se na situação anterior já tínhamos pessoas que precisavam de reinserção no mercado de trabalho, muitas vezes, de forma precária após a aposentadoria por não terem condições de mantença de vida digna em fase tão mais delicada, agora não queremos mesmo que essa vida digna possa acontecer. O indivíduo só é útil enquanto trabalha, depois vira gasto, custo, excesso. Uma boa sugestão para essa nova semana é assistir o filme “o doador de memórias”, úteis enquanto úteis, depois descartáveis. O trabalho é importante? Sem dúvidas, realmente quem está inserido depende muito menos do Estado, contudo, esse mesmo Estado comprometeu-se em pensar em todos e garantir direitos fundamentais.  Trabalho como forma de garantir a vida e não como forma de vida. Previdência como forma de garantir a vida no não trabalho e não como forma de custear tratamento de saúde e o funeral. Eu preferia outras reformas, na educação, no sistema prisional, na saúde preventiva... Mas nem podemos pedir por reformas elas podem vir reformando para pior.   camargojoao@hotmail.com

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