No Ar
Folha do Sul
Web Rádio

Idiotas (in)úteis
Publicado em 20/05/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Iniciamos uma reflexão na última semana a respeito das restrições orçamentárias do Ministério da Educação, mais especificamente nas universidades, citando inclusive Darcy Ribeiro, e que a crise na educação não seria uma crise, mas sim  um projeto. No dia 15, as manifestações foram intensificadas e chegaram ao ápice no número de pessoas que foram às ruas protestar quanto o descaso com a educação. As demandas eram diversas e iam além das restrições hoje existentes.  Foi bonito de ver tantas pessoas em prol de uma atenção à educação, o que não foi bonito de ver foi a posição do presidente quanto as manifestações. Por lógico, há sempre quem se aproveita desse tipo de evento, desse tipo de manifestação para outros fins; houveram sim, ainda que em casos isolados, arruaças e depredações. Um ônibus incendiado inclusive, porém, a generalização trazida pelo discurso do presidente, que chamava os manifestantes de massa de manobra, e de idiotas úteis, não representa ou a menos não deveria representar a ideia que os movimentos em regra pacíficos pretendiam demonstrar.  Viemos de uma construção histórica que associa a educação, ou  a melhor educação, às camadas altas.  O Brasil era “descoberto” e já tínhamos universidades consolidadas na Europa, e até bem pouco tempo, só se tinha acesso à educação para além do "7x8" se houvesse condições financeiras de custear os estudos; o nível superior por sua vez, só se houvesse condições de sair do país.
A educação como também já mencionamos é tida como salvadora de todas as demandas, de todas as mudanças sociais que pretendemos. Tudo que não confiamos para as presentes desejamos que as futuras gerações façam. Citamos inclusive, exemplos, como a educação ambiental e sustentabilidade e a diversidade. Parece que desistimos das gerações presentes, que apostamos todas as fichas nas futuras, em contrapartida não estamos dando a estrutura necessária.  Quando Jesse Souza fala da ralé social estamos tratando de camada que não tem condições de refletir sobre estruturar-se, se não se sabe nem se vai se ter o que colocar a mesa no dia seguinte como queremos que se pense uma forma de modificar o futuro dessa camada?  Os orçamentos da Saúde e da Educação são sempre escassos diante de tudo que precisam fazer face, em que pese previsões legais de cotas obrigatórias inclusive, em que pese a importância das discussões que perpassam os níveis de gestão sendo discutidas e descentralizadas em todos os níveis de gestão ainda não conseguimos o resultado necessário. É inadmissível que em 2019 ainda tenhamos analfabetos; ainda existam crianças em situação de trabalho e longe da escola. É absurdo ainda estarmos discutindo esses espaços de melhoramento de condição, não só financeira mas social como um todo, como espaços de "arruaça". Os níveis de pessoas que alcançam o nível médio na educação forma já é extremamente baixo frente a outros países, o nível superior muito menor. Ou seja, ainda nem chegamos no status de regular e já queremos realizar uma estagnação, para não dizer retrocesso.
Seria sim um "projeto"?  Seria uma forma de seguirmos elitizando a educação. Seria o endosso de uma visão classista, racista? Por que a ocupação de espaços incomoda tanto?   Onde estão nossos representantes? Onde está a resistência que deveria vir deles? Como podemos projetar todos os anseios e promessas de salvação nas futuras gerações se estamos restringindo o seu “pensar”. Com a justificativa de não antecipar temáticas, colocamos essas crianças em uma bolha, a mesma bolha que já testemunhamos não ter deixado a população evoluir. Não entendo que os manifestantes tenham sido ou sejam idiotas úteis. Eles estão na verdade tentando reverter aquilo que os idiotas inúteis deixaram de fazer ou estão fazendo de maneira equivocada, e isso não tem nada de cunho político-partidário, a educação precisa ser pensada para além disso, aí está o problema: a educação precisa ser pensada.

Deixe sua opinião