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Escola sem Partido – Partido sem escola
Publicado em 13/05/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Segundo Darcy Ribeiro, a crise na educação não é uma crise, é um projeto. Há como negar? Verificamos a infinidade de manifestações em razão dos cortes ou restrições orçamentárias na educação, os motivos são, como praticamente todos os atos justificadores dos desmandos e devaneios da atual gestão, obscuros e nada lógicos. A balbúrdia alegada é o que? A produção científica? A falta de comprovação dos recursos empregados deveria ser objeto de procedimento específico de apuração e não de ameaça e comprometimento da gestão da instituição de educação. Atitude típica, ou prevista como típica de quem entende que o brasileiro “tem tara por ensino superior”, já não é a primeira nem segunda vez que falamos de educação por aqui, mas aqui a crítica não é na educação em si, mas ao que estão fazendo da educação através da sua (má) gestão. Quando perguntamos qual seria o caminho para diminuir a criminalidade, nos respondem, investir na educação. Quando nos perguntamos como garantir um ambiente sadio para as futuras gerações, nos respondem, investir na educação. Quando nos perguntamos como podemos fazer uma sociedade mais justa, mais igual, nos respondem, investir em educação.  Só pode estar havendo um problema de comunicação e estão entendendo desistir da educação ao invés de investir nela.
O aparente repensar do orçamento, para mim, soa como soaria para Darcy Ribeiro, um projeto em execução de desmonte e sucatear da educação.  A crítica ao “intelectualismo” que é tão comum atualmente é característica de regimes autoritários, entendem que não se pode pensar muito, um ser muito reflexivo não se condiciona facilmente. O desenho está traçado, os repasses comprometidos e toda a estrutura, já frágil, da educação fadada a sucumbir se nada for feito. Esquecem, contudo, que diferentemente de outros países, o Brasil não produz muita ciência longe da universidade, quase a totalidade de nossa produção é na Universidade e esse comprometimento orçamentário que afeta, sim, todos os níveis, afeta sobremaneira essa produção de conhecimento. Preocupa-me muito não só por ser professor universitário, não só ter sido contemplado na época do mestrado e do doutorado com bolsas das agências de fomento, preocupa-me como cidadão, que quer ver as desigualdades diminuídas e as igualdades possíveis. Não há como pensarmos em uma sociedade melhor se não quisermos que essa sociedade se reconheça e reconheça suas falhas e necessidades de melhoria. Não há como curarmos doenças, melhorarmos produção, revolucionarmos o mundo e nem nada, sem ciência, sem produção científica. Já falamos aqui de novos modelos de gestão e diversas vezes sobre representatividade, a quem esse governo representa?
A escola sem partido era entendida como necessária, mas do que adiantaria escola sem partido se resolveram revelar a verdadeira face, que o problema não está nas possíveis doutrinações, mas na escola em si. Não é para saber mais do que precisa, não é para a educação cumprir seu papel de libertadora e de autonomia.  Queremos mão de obra, queremos serviços, inclusive investir em ”coisas” que sejam mais rápidas e que consigam garantir o mínimo existencial de vida. Para que precisamos de filósofos e sociólogos? Já tem gente de mais pensando por aqui, problematização demais.  Em tempos de crise preocupa-me a forma com pacífica e ordeira que estamos vendo o Brasil ir para o buraco, lembra-me o pensar de Bertolt Brecht, que uma colega de trabalho citou em uma fala sua sobre inclusão na OAB Subseção Bagé, que enquadra-se também nos nossos escritos de hoje e na situação que vivemos: Primeiro, levaram os negros, mas não me importei com isso eu não era negro. Em seguida, levaram alguns operários, mas não me importei com isso eu também não era operário. Depois, prenderam os miseráveis, mas não me importei com isso porque eu não sou miserável. Depois, agarraram uns desempregados, mas como tenho meu emprego também não me importei. Agora, estão me levando, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa comigo.



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