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Coelhinhos da Páscoa não existem, indígenas sim
Publicado em 22/04/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Um dos momentos simbólicos da nossa infância é quando começamos a saber que o coelho da Páscoa e o papai Noel, tais como vistos nas propagandas, não existem. As datas em si quase sempre são dias especiais, família e amigos reunidos, troca de regalos, mesa farta, receitas de família. Contudo, é relativo quando refletimos sob um viés diferente, se pararmos para pensar a importância maior da data é para o comércio, o capitalismo faz questão de vincular os sentimentos ao consumo. Eu não gosto de doce, então nem me importo muito com as novidades da Cacau Show, me importava quando pequeno com o que vinha dentro dos ovos, acredito que isso não tenha mudado, meus irmãos comiam o chocolate que eu não dava bola depois de tirar o “presente”. As crianças de hoje em dia também estão à espera das porcarias surpresa que estão dentro dos chocolates. Me recordo de um episódio mais interessante envolvendo a Páscoa, foi em uma aula de religião, sim, eu tinha aula de religião no colégio. Na educação pública, com a professora que era uma “irmã católica”, eu não sei como se chama, irmã ou freira, mas era efetivamente uma aula de religião católica. À época, eu tinha um colega, que era e permanece sendo meu melhor amigo. Ele era espírita, o que também permanece sendo, de família espírita, que frequenta o centro e ele estudava a doutrina em um grupo de outras crianças espíritas no mesmo dia que eu fazia a catequese. Em que pese a tenra idade, eu pensava em como ele interpretava aquilo, aulas de religião, até não me conter e perguntar, o tema era símbolos da Páscoa, o ovo, o coelho, o ramo...   Ele respondeu quando perguntei, eu não acredito da mesma forma e em quase nada disso, mas vou pintar, é para pintar.
Gostamos de feriados, feriados santos, inclusive, independentemente em qual religião, crença, fé. Não respeitamos pela homenagem, mas por ser um dia de “não trabalho” ou trabalho melhor remunerado. Gostamos de estar na praia e do movimento da festa de Iemanjá, gostamos de comer peixe na Sexta-feira Santa, época que temos feiras ótimas, com muito mais variedade e no geral melhores preços para os pescados. Achamos lindo visitar o Cristo e tirar foto para as redes sociais, um mosteiro, algumas ainda quando em viagem fazem questão de tirar fotos de véu.  Mas a que passo reconhecemos a laicidade do nosso país e, principalmente reconhecemos as outras formas de crença, religiosidade e fé. Sim, somos laicos, podemos crer e podemos cultuar, inclusive qualquer crença. Podemos acreditar que temos esse direito respeitado?  Falamos na escola sem partido, a mesma escola pública que doutrinava crianças para a religião católica no meu tempo, que passam batido a discussão das demais religiosidades e de outras culturas. Nesta semana, vimos a polêmica na televisão e na internet da mãe que introduziu a filha desde cedo em sua religião, de cunho africanista, não interpretamos da mesma forma que outras crianças introduzidas em outras religiões, o espanto é grande, mas esse espanto não é o mesmo para crianças de cabelos cumpridos de saia com uma bíblia embaixo do braço.
Nas salas de aula, essa semana, provavelmente terão infindas atividades voltadas à Páscoa. Será que a mesma importância dada na comemoração do “Dia do Índio”, e não estou falando aqui de pintar um cocar bobo e cantar a música da Xuxa, mas, sim, de ensinar, de fato, o que são as comunidades tradicionais e o que elas representam para o Brasil, para nossa cultura e nossa história. A questão nem é que não podemos fazer algo em detrimento de outra coisa, mas, sim, que podemos muito bem dimensionar nossa crítica e nosso fazer para contemplar a diversidade, no mínimo reconhecê-la. Não é porque somos de uma religião x que devamos endemoniar outras. Esse ponto de vista seletivo está ultrapassado, além de representar uma face feia antes não mostrada, a face da discriminação, do preconceito e da intolerância, que a cada dia mais se faz naturalizar. Com a desculpa de que estamos na geração “mimimi” que não se pode nem fazer uma piada, que tudo é problematização tentam perpetuar a discriminação. Axé para quem for de axé, aleluia para quem for de aleluia e amém para quem for de amém.
Que os indígenas tenham seu dia marcado pela nossa consciência e pelo refletir do mal que estamos fazendo para nossa comunidade primeira, criticando que alguns deles têm iphone, andam de uber e comem Mc Donald’s, usam “até roupa” ou que há aqueles que vivem mais isolados, contudo, sem lembrarmos que a eles é dado o direito de escolher entre estar aqui ou lá e o que não pode é ser retirada essa opção, mas para, muito além disso, seguirmos tentando ser a voz da vontade deles e os tratando como animais em zoológico. Tanto a religiosidade que envolve a Páscoa quanto a simbologia do “Dia do Índio” estão previstos na nossa Constituição Federal, não dessa forma, mas como garantias ao culto e credo e garantia a diversidade étnica e racial, portanto que esses dias sejam de reflexão para o que é mais importante pensar, no coelho que não existe ou no indivíduo que existe, na minha religião que prega o amor ou o ódio ao outro por crer em algo diferente, ou só por ser diferente, em não comer carne vermelha ou não fazer mal ao outro?  Eu não acredito em inferno, mas se ele existisse iríamos encontrar tantas pessoas “de bem” lá...

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