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A mesma mídia que informa e esclarece também distorce e aliena
Publicado em 01/07/2019

João Batista Monteiro Camargo

E-mail: camargojoao@hotmail.com
João Batista Monteiro Camargo

Ultimamente, eu tenho visto algumas notícias que me deixam um tanto quanto questionador, que vivemos na sociedade da informação, que os avanços tecnológicos do últimos anos superaram e muito qualquer outro marco temporal que a tecnologia tenha estabelecido. Em 10 anos, vivemos 100, 200 em avanço.  Interpreto como positivo, com a tecnologia facilitamos a vida, as comunicações, inclusive, buscamos e achamos a cura de doenças.
Ainda que no último censo estivesse nos questionários quantos vídeos cassetes tínhamos na residência, como um parâmetro ultrapassado de medir qualidade de vida e poder aquisitivo, não há como deixar de perceber que a televisão por seu turno representa muita coisa nessa primitiva análise de bens.  A televisão está em praticamente todos os lugares, era e ainda é considerada a principal fonte de transmissão de informação em massa por sua abrangência. Feito essa primeira reflexão podemos passar para os comentários que se ouve diuturnamente, a mídia aliena. Pessoas pedindo para que deixemos de assistir determinados programas de televisão, inclusive deixarmos de assistir determinadas emissoras. Será que é a mídia que aliena, ou será que nós nos alienamos?
Se pensarmos com mais afinco, as emissoras, os jornais, as rádios, inclusive, os dispositivos da internet e mais especificamente as redes sociais, assim como as vizinhas fofoqueiras do bairro cumprem seu papel como locais de transmissão de informação. O problema é a forma com que recebemos as informações e o que faremos com elas.
Se replicarmos o que é visto e repassado sem critério, estaremos, sim, sendo alienados; estaremos manipulados por aquilo que querem que saibamos, a função da mídia também é essa, não estou aqui endossando a prática manipulatória, muito pelo contrário, estou buscando a reflexão sobre a forma, estamos a receber as informações.
Fala-se muito e muito falou-se nas eleições, inclusive nas famosas “fake news”, notícias e novidades falsas com intuito de levar determinada parcela ou uma totalidade a crer em determinado fato para os fins mais diversos; induzir de que tenha roubado; induzir de que não mereça um cargo público; induzir a deixarmos de consumir determinado produto pela prática de alguma fabricante. Isso sempre aconteceu e creio que sempre ocorrerá. Numa disciplina do doutorado, que tratava sobre mídias, analisamos propagandas antigas e o que elas refletiam, lembro bem do tip top, hoje chamamos assim as roupinhas de bebê, mas é marca.
As propagandas do tip top em um determinado período, não muito longe dos anos atuais, tinham uma menina vestida com roupas da marca em uma cozinha e um menino também vestindo as roupas em um escritório, com as seguintes frases, respectivamente. Ela será uma grande dona de casa, mas hoje só precisa se preocupar em estar confortável com seu tip top. Ele será um grande executivo, mas hoje só precisa se preocupar em estar confortável com seu tip top. Isso nos diz muito, não?
Muito do que a mídia apresenta reflete o desejo do consumo, muito a ideia de que precisamos ter, ser, querer, ou fazer algo. Precisamos, todos têm; precisamos pensar assim, todos pensam; precisamos ir, todos foram. Até ai tudo bem, o que não pode, contudo é que isso seja tratado de uma forma dogmática, excluir por não ter; excluir por não pensar assim; excluir por não ter ido. Em caráter genérico dá para entender onde quero chegar. Avancemos…
Vi na capa de um jornal, há alguns meses, um rapaz de costas na delegacia, suspeito de estuprar outro menino que tinha idade menor de 18, seria “menor” nos termos legais; termo que não apraza em nada quem pesquisa infância e adolescência, nem a mim. Esse rapaz comprovou que tinha, na verdade, um relacionamento e que deu fim, contudo, não foi aceito tal fim pelo companheiro que contava com quase 18 anos. A história se resolveu com uma reviravolta da realidade. E o rapaz? Exposto desde um momento de investigação, sem culpa comprovada, conhecido na cidade onde morava, sendo julgado em todas as esquinas, inclusive com ameaças. E agora? Não vi nada na mídia desfazendo o mal entendido, para que tenha ele a imagem livre de máculas. O caminho inverso de informação não há.  Me reportando à vida pública, que as pessoas assumem quando investidas em cargos públicos, a situação se agrava. Quando era responsável por licitações ficava indignado, com informações distorcidas da realidade, a história contada por apenas um lado, sem que seja verificado a fundo e dada a informação correta. Tudo bem, a mídia que não preza pelo código de ética que possui faz dessas, não deveria, mas faz.
Preocupação aumenta quando todos se sentem capazes de noticiar as coisas, em acidentes pessoas fazem transmissão ao vivo, pois é mais fácil fazer isso que prestar socorro. Às vezes, as pessoas são julgadas assim como o rapaz que mencionei e têm a vida exposta nas redes sociais; têm imagens compartilhadas em grupos de mensagens. E a comprovação?  Não há, na maioria das vezes. Muitas vez, não há nem a retratação, o que é pior.  A legislação ainda deixa a desejar nesse sentido, fora os tipos e normas muito específicas, a livre manifestação é, de fato, livre, o que é ótimo. Liberdade, democracia sempre! Ocorre que é necessário a parcimônia no que se comenta, há consequências do que as manchetes noticiam, assim como do que falamos na esquina e do que transmitimos nas redes. Falta, além de legislação, bom senso, principalmente alteridade e empatia. Não podemos expor o outro, expor fato sem comprovação somente por likes.
O controle social, no caso do público, é um dos mecanismos mais eficaz. Precisamos dele, precisamos ser ele e fazer com que seja sempre validado como forma de demonstrar o que a sociedade pensa e almeja. Contudo, precisamos de mais informação, de todos os lados, mas precisamos mesmo é de filtro e digestão, para que depois, sim, consigamos expor o que pensamos sobre. A informação que esclarece também aliena, cuidado!




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