PAPO DE ELEVADOR - 8 DE MAIO
Publicado em 08/05/2020

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

Presidente Rodrigues Alves morto pela gripe espanhola

O vírus que matou 
184 em Bagé

Uma mutação do vírus Influenza provocou a gripe espanhola em 1918-19. Transformou-se em pandemia porque se espalhou rápido devido à Primeira Guerra Mundial. Aproximadamente 50 milhões de pessoas morreram em todo o mundo. O efeito devastador levou a óbito 35 mil brasileiros. Desses, 184 eram bageenses. Aqui mais de cinco mil foram infectados. Em outubro de 1918, mesmo com as recomendações para evitar o pânico, a cidade estava apavorada. 

46 mil bageenses
No final da década de 10 do século passado, o Brasil tinha 29 milhões de habitantes, Bagé 46 mil e o mundo 1,8 bilhão. A maior vítima brasileira da gripe espanhola foi o presidente do Brasil reeleito Rodrigues Alves, que não chegou a tomar posse. Em Bagé, o prefeito Tupy Silveira e o diretor de saúde médico Monteiro Alves corriam para tomar as providências de contenção do contágio, que já tinha mil infectados em novembro.

O Brasil de 1919
Eram tempos da exaltação ao caipira à moda Monteiro Lobato, com a criação do Jeca Tatu; a cidade de Sobral, no Ceará, recebe cientistas do planeta para observar a eclipse do sol e por à prova as teorias de Albert Einstein sobre a curvatura da luz, o tempo e o espaço, energia e matéria e o mundo nunca mais seria o mesmo; Bastos Tigres inaugura a propaganda brasileira em versos com o Rhum Creosotado nos bondes do Rio de Janeiro, em que avisa:
“Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
No entanto, acredite
Quase morreu de bronquite.
Salvou-o o Rhum Creosotado.”

A gravidade nas ruas
Enquanto isso, a Bagé de 1918 fazia questão de negar a gravidade da doença, mas o modo avassalador como chegou não permitiu que a tranquilidade anunciada pelos jornais Correio do Sul e O Dever, ou pelo prefeito, fosse vista como real. Em outubro e novembro, primeiro com dezenas e depois com mais de mil contagiados, viam-se homens desinfectando malas na ferroviária e nos correios, na frente dos colégios e das empresas o uso de desinfectantes.  Bailes e apresentações cinematográficas e teatrais foram proibidos. 
Já não dava para evitar o pânico!

Espanhola ou Americana?
Para alguns, era o fim do mundo. Para outros, “havia gente demais”. Parecia não ser à toa que ao terminar uma guerra mundial iniciasse um surto causado por um vírus de gripe. Aliás, a gripe era espanhola porque a Espanha divulgava as notícias sobre a gripe sem medo até quando o rei contraiu o vírus. Consta que os Estados Unidos, onde começou a epidemia, esconderam a gravidade da gripe. O primeiro infectado, quando diagnosticado, estava acamado numa unidade militar do Exército no Estado do Arkansas. Em seguida, havia dezenas de infectados no quartel.

Restrição ao álcool 
e ao aperto de mão

O doutor Monteiro Alves, em sua missão de conter o contágio, clamava para que a população mantivesse a higiene pessoal, trocasse a roupa de cama com frequência; mantivesse ventilada e asseada latrinas e banheiros, banho diário, diminuição de exercícios físicos, proibição do aperto de mão e até total restrição ao álcool. 
Não sei, mas acredito que a total restrição ao álcool deva ser comportamental. Porque o cara bebe e aí perde o freio e o controle. 

Tudo era recomendação
Bagé foi dividida em 18 zonas, cada uma com um médico responsável. A prefeitura ficava aberta e sempre com um médico de plantão. Não havia receita ou tratamento. Por isso as divergências nas recomendações. Havia quem alertasse para moderar a carne e fizesse dieta à base de leite, caldo e água filtrada; também era recomendado o gargarejo com água oxigenada, usar mentol nas fossas nasais e algumas gotas de iodo.

Quinino para tratar
Receitas caseiras também não faltavam, principalmente se levarmos em consideração que falamos do início dos anos 1900. Entre essas, infusões de folha de caroba, flor de sabugueiro e limão galego. Até que algum médico inventou de dizer que bom era o quinino. Aí houve uso massivo de quinino. O sulfato de quinina é o quinino, utilizado no tratamento de malária e arritmia cardíaca. O prefeito Tupy Silveira não quis nem saber, mandou buscar na cidade de Melo, aqui no Uruguai, uma grande quantidade de quinino. Em seguida, a substância teve o preço lá em cima nas farmácias. Só para deixar claro: quinino não é à base de cloroquina. 

Até a próxima
Pretendo voltar a esse assunto na próxima edição. Porque é muito interessante. Falar de Bagé, do Brasil e do mundo de 100 anos atrás, quando uma pandemia assustava tanto, traz muita reflexão e uma viagem ao passado. 
Agradeço ao professor Cláudio Leão Lemieszek por sua pesquisa sobre a Bagé da Gripe Espanhola, também utilizei neste Papo de Elevador textos do antropólogo Darcy Ribeiro, do acervo do jornal Estado de S. Paulo e de artigos do Congresso Nacional. 


Deixe sua opinião