PAPO DE ELEVADOR - 30 DE JUNHO
Publicado em 30/06/2020

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: ALEX SILVA AGÊNCIA ESTADO REPRODUÇÃO

A escritora

Homenagem a grande mulher
Imagine uma jovem mulher de 19 anos, em 1943, saindo de Bagé para morar e trabalhar em Porto Alegre, sozinha? 
Foi o que fez Edy Maria Dutra da Costa Lima ou, simplesmente, Edy Lima, a homenageada especial na Semana de Aniversário de Bagé, de 10 a 17 de julho. 
Edy se tornou escritora, jornalista, dramaturga, editora de livros e produtora de discos.

Edy, a predestinada
Edy Lima mora em São Paulo. Está com 96 anos de idade. Lúcida. Magnífica. Atenta aos acontecimentos do mundo. "Tinha um espírito muito independente e meu pai não me segurava", contou em 2009 para o jornal O Estado de São Paulo. Era adolescente quando enviou à Revista do Globo, em Porto Alegre, um conto que escreveu. O conto foi publicado e Edy aproveitou para pedir emprego. 

A atriz 
Antes de completar 10 anos de idade, Edy fazia teatro com uma boneca que dizia ser sua atriz e representava sempre o mesmo papel na mesma peça: o roubo de uma melancia numa feira. 
Aos 14 anos tentou produzir um espetáculo com tema grego, mas não conseguiu concluir porque “o palco ficaria cheio de deuses”. Então, em seguida que chegou à capital gaúcha entrou para o Teatro dos Estudantes, onde atuou em “Os três loucos do mundo” e “A mulher sem pecado”, de Nélson Rodrigues. E terminou aí sua carreira de atriz. 

 

Liberdade e Mário Quintana
“Em Porto Alegre passei a viver às minhas custas. Sempre achei importante a mulher ganhar o seu dinheiro, pois quem não se sustenta não tem sua liberdade." Com o emprego na revista, começou a atuar como jornalista e a viver em um pensionato. Não demorou para entrar no efervescente grupo literário gaúcho, basicamente formado por homens, entre os quais Mário Quintana, que se tornou um grande amigo e, segundo poemas que escreveu para Edy, um apaixonado. 

A foto de Monteiro Lobato
Ainda criança, Edy quis conhecer o rosto de seu escritor predileto: Monteiro Lobato. E escreveu-lhe pedindo uma foto, o que era uma raridade na época. O escritor enviou a foto, enchendo Edy de alegria. O segundo contato foi quando estava na Revista do Globo, enviou-lhe um conto de sua autoria e revelou sua grande vontade de ir para São Paulo. O autor de Reinações de Narizinho não só respondeu à carta como ainda indicou um pensionato para que ela pudesse ficar em São Paulo. 

A carta e São Paulo
Vejam o que escreveu Monteiro Lobato para Edy Lima: “Muito boa a sua literatura inicial, reveladora de excelentes dotes que poderão ir longe se devidamente cultivados (...) Mandei ver as pensões de freiras e fui informado que a melhor é a de Santa Mônica (...) Faça-se humildezinha, porque essas tais damas católicas são umas pestes (...) Depois de assegurados o teto e a comida, venha – e aqui cuidaremos do resto. Esse resto depende de impressão de sua pessoa sobre os prováveis ou possíveis patrões, e de conversas, porque é conversando que as criaturas se entendem.”

Mulher 
A bageense Edy Lima chegou em São Paulo com 20 anos de idade. Num mundo de homens, conseguiu se impor pelo talento, a coragem e a audácia. Trabalhou no Jornal de São Paulo e nos Diários Associados, de Assis Chateabriand, onde permaneceu por duas décadas como editora de um caderno feminino. “Em vez de editar tolices procurava publicar disfarçadamente temas que pudessem abrir a cabeça das mulheres”, revelou o Estado de S. Paulo na edição de 8 de março de 2009. 

A feminista
Edy Lima escreveu quase 50 livros, a maioria infantojuvenil. A Vaca Voadora, o mais famoso deles, com 33 edições, fez tanto sucesso que se tornou uma série. Em suas histórias os homens são coadjuvantes e reconhecem o poder das mulheres. Aliás, essa sua característica literária virou tese de doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, escrita pela professora de Literatura Rosa Riche. “Dificilmente na obra de Edy aparecem mulheres casadoiras...”

Como salvar meu casamento
Além de livros e peças de teatro, como A Farsa da Esposa Perfeita, dirigida por Augusto Boal no Teatro de Arena, Edy escreveu novelas. Como Salvar Meu Casamento, a última novela da TV Tupi é de Edy Lima. E não se engane com o título, avisavam alguns críticos na época de ir ao ar, em 1979. O sucesso foi tão grande que chegou a 200 capítulos. Nicette Bruno fez Dorinha, a protagonista. 

Pai e mãe, inspiração
Muito temos ainda para contar dessa ilustre bageense que teve no pai seu primeiro ouvinte e na mãe a inspiração para escrever, ambos, como conta, muito carinhosos. “Meu pai assistia todas as peças de teatro que iam a Bagé e minha mãe era ‘doida’ por cinema e livros, lia muito”, contou Edy, para o Grupo Editorial Global em entrevista que está no YouTube. 

Edy Lima para todos
Em 2017, no Festival Internacional de Cinema da Fronteira, a prefeitura já havia homenageado Edy Lima. Agora, no aniversário da cidade, a diretora da Casa de Cultura, Heloísa Beckman, expôs essa necessidade de aproximar a grande escritora dos bageenses. A secretária de Cultura Anacarla Oliveira e o prefeito Divaldo Lara abraçaram a ideia para que possamos todos levar esse exemplo de vida para mais e mais pessoas, principalmente nas escolas.    
Outras vezes vamos neste espaço contar mais de Edy. 


Deixe sua opinião