PAPO DE ELEVADOR - 17 DE ABRIL
Publicado em 17/04/2020

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

Nélson Rodrigues
Esse afastamento social me põe reflexivo como um Nélson Rodrigues de araque. Aliás, Bagé tem histórias que caberiam perfeitamente no mundo subterrâneo do jornalista, cronista e dramaturgo fluminense. E não é coisa de agora, vem lá dos anos 40 ou até quem sabe dos tempos do cerco da catedral. Não falta história cabeluda por estes lados. 

Mário Lopes e o livro
Um dia, o jornalista Mário Lopes (daqui a pouco faz quatro anos que o Mário se foi) me revelou que estava escrevendo a história de vida da Cristina, da chácara da Cristina, o famoso cabaré de Bagé. O doutor Décio Lahorgue, já havia comentado algo comigo sobre essa experiência literária. 
Falei para o Mário:
- Isso pode ser a melhor coisa do mundo ou a mais chata. Não tem meio termo. 
- Por quê? -, quis saber o ilustre escrevinhador do alto de seus 90 anos.
- Se não constar nomes de pessoas de que valerá ler? Será uma chatice óbvia. Uma chatice de professor de História explicando o PT. 
Mas não constaria nomes. Não podia constar nomes. Era processo e era constrangimento na certa.

Doutor George e a narrativa
Em um determinado domingo de manhã ouvindo o doutor George Teixeira Giórgis no programa do Chicão da Rádio Clube percebi uma característica do nobre advogado ao narrar suas memórias. Aliás, memória de farmacêutico dos anos 50. O doutor George lembrava de tudo, eram detalhes de pintor renascentista. Pois, um domingo ele disse “havia um médico que morava no início da avenida Sete de Setembro, lá perto do cemitério, ele era gordo com olheiras profundas...” Pronto. É isso. É o que precisa o Mário no livro.

Características
Na segunda-feira, encontrei o Mário Lopes no café e fui direto ao ponto:
- Mário! Já sei como o teu livro da Cristina pode ser narrado. Roubei uma ideia do doutor George. Escuta só: conta, por exemplo, que um fazendeiro baixinho e narigudo, que tinha estância lá para os lados do Espantoso, um dia veio na cidade e inventou de visitar a chácara da Cristina porque se apaixonou por uma das moças e aí... Entendeu? 
O Mário perguntou se eu estava louco. 
- Mário, isso vai criar curiosidade. Não vai faltar gente indagando na esquina para tentar descobrir quem é o baixinho narigudo do Espantoso que andava na Cristina. 
- Não.
- Para cada personagem tu colocas uma coisa assim, médico gordo, farmacêutico alto com berruga, advogado magro careca, vereador de franjinha que faz beicinho. Vai dar certo, Mário.
- Não. Não e não.

Biógrafo do cotidiano
Por falar em Mário Lopes, não temos mais biógrafos do cotidiano na cidade. As histórias estão sendo deixadas para trás. As pessoas desaparecem sem que suas vidas sejam contadas. 

Políticos em preto e branco
Voltando ao Nélson Rodrigues de araque e as reflexões, como esta que me levou ao livro do Mário. Outro dia lembrei dos nossos políticos de antigamente. Na minha memória, e conheci vários deles, pareciam todos em preto e branco, como um retrato do presidente Getúlio Vargas na sala das casas. Antigamente as pessoas colocavam a foto do presidente em casa, numa moldura. Era sinal de respeito. Hoje, não colocam mais.  

Nascido para a história
Era um tempo em que o político cultuava a dignidade e o distanciamento entre o público e o privado. Podia até não ser verdade. Havia pouca informação. Mas era o que era. Tudo tomava ares de solene. Parecia que as pessoas já nasciam preparadas para figurar na história. Hoje, não. Hoje, nascemos sem romantismo. Sem glamour. Certa vez fui votar. Era 15 de novembro. E meu pai perguntou: - Tu vais votar vestido assim?
Ele colocava terno e gravata para votar. Imagina! Era um ato de respeito.


Prefeitura de antigamente
Tem uma fotografia da Prefeitura de Bagé, deve ser do início dos anos 1900. Não sei quem é o autor. Coloco aqui. Hoje, não se faz mais fotos de prédios. Estamos carentes de fotos de prédios. É como se fossem ficar aí para sempre.  Olhe bem para a foto da prefeitura. Imagine que em 1898  alguém inventou de querer um edifício assim para funcionar a administração municipal e que dois anos depois, em fevereiro de 1900, já estava pronto e inaugurado. Aí, na inauguração, uma comissão popular entrega como reconhecimento do povo de Bagé um quadro a óleo com a imagem do prefeito José Otávio Gonçalves para o prefeito José Otávio Gonçalves. E a comissão exigiu que ele colocasse o quadro no salão de honra do prédio. E ele colocou. Hoje, estão lá todos os prefeitos de Bagé. 120 anos depois. 


Deixe sua opinião