PAPO DE ELEVADOR - 15 DE MAIO
Publicado em 15/05/2020

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

Prefeitura. Prédio inaugurado em 1900

ERA DE OURO DE BAGÉ 1

O passado

Tem dias que não sinto vontade de escrever sobre o mundo atual, coronavírus, política, crise econômica ou crise de valores. O que quero é contar a história. Pesquisar fatos inusitados do passado, acontecimentos que moldaram a vida de todos nós. Precisamos saber sobre nossas origens, de onde viemos e como chegamos. Talvez isso explique a inquietação, o não querer falar do presente e essa insistência por voltar ao passado.

Depois da revolução

Depois da Revolução Federalista de 1893, que durou até 1895, uma Bagé dividida teria de conviver. De um lado aqueles que apoiavam a recém-fundada República; de outro, os seguidores de Gaspar Silveira Martins, que fez parte da Monarquia de Dom Pedro II. O prefeito de Bagé, intendente na época, era o coronel Antônio Xavier Azambuja. A ele coube apaziguar os nervos à flor da pele. E consegue. O caminho é bem trilhado.

Há 120 anos, a cidade se tornaria “Rainha da Fronteira” pela beleza e prosperidade.

Retomada do desenvolvimento

A evolução do município iniciara em 1884, com a inauguração da rede ferroviária. A revolução de 93, com tantas mortes e terror, atrasou essa trajetória de desenvolvimento. Bagé precisava voltar a crescer. Era preciso retomar o entusiasmo da população e incentivar os empreendedores. Assim, em 1897, a instalação da Charqueada de Santa Thereza com 200 trabalhadores empregados trouxe alento ao povo e muita esperança.

Surge um líder

O ano de 1897 também era de eleições para prefeito, vice-prefeito e vereadores, que no período eram conselheiros municipais. E ali surgiria uma liderança para confirmar a união do povo, da sociedade civil organizada, empresários e das autoridades em torno do desenvolvimento da cidade: José Otávio Gonçalves. A ele coube governar um município conturbado pelos resquícios da guerra, sem infraestrutura, com uma forte base monárquica e as contas públicas em penúria.

 

Primeiro mandato

José Otávio foi um prefeito idealizador e realizador; conhecia Bagé e as necessidades estruturais. Eleito três vezes, em 1897, 1901 e 1909, suas administrações foram tão eficazes que até os adversários reconheceram. A luz elétrica, o início do calçamento na avenida Sete de Setembro, o prédio da prefeitura, a praça Silveira Martins e o contrato para a instalação do telefone fazem parte das idealizações do primeiro mandato.

Quatro charqueadas

Após Santa Thereza, no século XIX, em 1902 são inauguradas as charqueadas de São Domingos e São Martim. Em 1904, Emílio Guilain e José Francisco de Freitas começam as atividades na Charqueada Santo Antônio, à margem direita do Rio Negro.

No ano de 1903 é inaugurada a Tablada, um centro de vendas de gado para charqueadas.

O desenvolvimento se materializava.

Educação em alta

- Em março de 1903 é inaugurado o Colégio Distrital, na praça da Matriz Carlos Telles, mantida pelo Estado. O prédio e as instalações são do município. No mesmo ano é criado o Colégio Elementar, escola pública.

Em 1904 chegam os Salesianos e fundam o Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. No ano seguinte é a vez das irmãs franciscanas dar início às atividades do Colégio Espírito Santo. 

Arte e cultura

O fim do século XIX e início do século XX representa a era de ouro de Bagé. As obras de desenvolvimento em todas as áreas aconteciam de uma maneira que entusiasmava a todos. O cinema é apresentado à cidade em 1898. Domingo, 9 de janeiro, Theatro 28 de Setembro lotado para a apresentação da Companhia de Variedades do Teatro Lucinda, do Rio de Janeiro, quando na segunda parte do programa a mostra de seis quadros do “Cinematógrafo Lumiére”. O cinema dava seus primeiros passos em Bagé.

O Dever, jornal que permanece em atividade até 1936, surge em 1901. Três anos depois é criado o Conservatório de Música, em duas salas na prefeitura, sob a direção do professor Henrique Calderón de La Barca. O conservatório deu origem ao Instituto Municipal de Belas Artes, Imba.

Água e esgoto

O estudo para o abastecimento de água começa em março de 1902 a pedido do prefeito José Otávio. Esse estudo resulta na hidráulica municipal, que é inaugurada em seu terceiro mandato, quando estava abalado pelo câncer. O ato de inauguração ocorreu em março de 1913. Ele morreria um mês depois.

O visionário e eficiente prefeito inicia, também no início do século XX, os primeiros serviços de esgoto da cidade, com a remoção de materiais fecais e resíduos líquidos.

Ponte, coreto e CTG

As pontes no entorno da parte urbana de Bagé são obras de José Otávio. Ponte na Salgado Filho, entre as ruas Fabrício Pillar e Antenor Gonçalves Pereira, ponte da Emílio Guillain e ponte na Félix da Cunha. Assim como o coreto municipal, entre em comodato para exploração comercial, e o primeiro CTG, então Centro Gaúcho, que era para rememorar as datas e glórias do passado.

José Otávio

Ainda há muito o que dizer sobre o trabalho de um homem que conduzia Bagé em seu melhor momento na história. Mas, talvez, as palavras do presidente do Rio Grande do Sul, Júlio de Castilhos, defina quem foi esse prefeito:

- Com uma dúzia de José Otávio não precisaria mais nada.

 


Deixe sua opinião