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Papo de Elevador - 11 de setembro de 2019
Publicado em 11/09/2019

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

E o dono morde o cachorro...

Em várias colunas tenho me referido ao que considero “estranho caminho trilhado pelo PSB de Bagé”, mais especificamente do vereador eleito pela sigla, Luís Alberto Silva, o Chico. Mas, por que me atenho a esse fato? Porque é um daqueles casos em que o dono morde o cachorro.

Explicarei.

Trajetória socialista

O PSB participou de coligações majoritárias com o PT em Bagé em várias ocasiões, em outras lançou candidatura própria. Em 1985, o partido não estava constituído no município; em 1988 concorreu Carlos Alberto Fico a prefeito; em 1992 o partido apoiou Mainardi; em 1996 apoiou o PPS de Maria Cristina Maurente (Tininha); em 2000, Carlos Fico concorreu a prefeito e, a partir daí, apoiou o PT em 2004, 2008 e 2012, elegendo Bayard e Fico como vice de Mainardi e Dudu.

O calvário

Porém, de 2004 a 2016, o Partido Socialista Brasileiro pareceu um estranho no ninho. Esse ninho era do PT.  Ao eleger Bayard Paschoa para vice-prefeito na chapa que tinha como cabeça Luiz Fernando Mainardi o partido começou seu calvário. De repente, uma debandada, primeiro para o PPS e depois para o PCdoB. Aliás, o candidato Chico, que era do PSB, em 2012 já no Partido Comunista concorreu a vereador. Fez 916 votos. Faltou legenda. Ah, a legenda.

Comunistas e socialistas

Ou seja, o PSB teve Bayard e Fico na vice-prefeitura. O primeiro saiu e foi para o PPS e o segundo acabou no PCdoB às vésperas de uma reeleição, quando o PSB andou “namorando” com a candidatura de Adriana Lara, em 2012. No fim, antes de firmar a coligação, um recuo e a volta aos braços do PT, mas já em frangalhos, grande parte havia migrado para o PCdoB porque não queria perder o PT.

Legenda, por favor!

Em 2016, o PSB decidiu largar o PT de mão e apoiar a candidatura de Divaldo Lara para prefeito. O camarada Chico já estava de volta ao PSB, pronto para concorrer. Porém, “por favor” que seja feita uma coligação com possibilidade de alcançar a legenda, que era de 4,2 mil votos ou um pouco mais. Para a alegria de Chico, juntaram-se PSB, PV e PP. Com isso, foram eleitos: Sonia Leite, Antenor Teixera e Chico.

 Dependendo dos colegas

O quociente eleitoral para eleger um vereador em 2016 ultrapassava os quatro mil. Quociente eleitoral é a soma dos votos válidos divido pelo número de vagas. Votos válidos naquele ano: 72 686. Vagas na Câmara: 17. Chico fez 750 votos. Longe do quociente de 4,2 mil votos. Logo, não atingiu o número suficiente para estar na Câmara. Portanto, dependeu das camaradas e dos “camarados” da coligação, Sonia Leite, Luís Diego, Armando Ott, Antenor Teixeira, Antônio Carlos “Maria”, Zeca Floriano, etc. 

Pau que bate em Chico...

Trocando em miúdos, o dono começa a morder o cachorro quando o vereador eleito pelo PSB se torna oposição, contrariando a proposta, a coligação e o encaminhamento partidário. E o “pau que bate em Chico” não bate em Luís Alberto. A maioria resolve sair do PSB, enquanto o lógico é que o vereador saísse a “convite” da maioria.  Ou seja, deveria sofrer dentro da sigla a mesma oposição que faz, porém com mais coerência e ética.

Delevati sai do PSB

Observem o que diz uma das lideranças do PSB, o advogado e empresário Paulo Delevati:

“Ultimamente vinha sendo procurado por um grupo de pessoas insatisfeitas com a postura do partido, pois mesmo tendo feito parte da coligação que ganhou a última eleição, o partido através de sua representação na Câmara, após alguns meses, passou a atuar contrário à orientação partidária, com isso criando um clima de desconforto interno.”

Depois de eleito...

E continua: “Entendo que durante o tempo em que atuei mais ativamente fiz minha parte, cheguei a ser o candidato a vereador mais votado do PSB e não nos elegemos por falta de legenda. Vale destacar que dificilmente alguém se elege somente com seus votos e conosco não foi diferente. Portanto, nosso representante precisou dos votos de todos os candidatos do partido para assumir uma cadeira e esses candidatos foram ignorados.”

Sem confronto

Delevati ainda alerta: “Entendo que devemos abrir mão das vaidades pessoais e partidárias para pensar no coletivo, e isso, não só eu, mas vários, não visualizam mais no PSB e alguns poucos integrantes. Sendo assim, pela história de amizade, pelo amor à democracia, muitos amigos entenderam que o melhor caminho não era o confronto interno, mas evitar tal confronto e cada um seguir seu caminho.”

Adeus

E finaliza: “Agradeço a todos pela confiança e convivência, mas entendo que devo manter minha posição tomada logo ali atrás (e de forma unânime), que é não só de apoiar, mas principalmente de torcer pelo sucesso do atual governo municipal que ajudamos a eleger. Até porque o sucesso de qualquer governo é o sucesso da população.”

Os fins

O arco dessa história nos leva a ver mais uma vez o PSB à deriva. É claro que o intento do PT está sendo alcançado, embora em parte, porque o PSB precisará ser remontado. O que não é fácil. Partido oco se faz aos borbotões, consistente é mais difícil. Ou o interesse é só a soma do tempo na propaganda eleitoral do ano que vem?

Retrato 3x4

A verdade é que muita gente já saiu do PSB nos últimos dias. E mais ainda está por sair, segundo avisa Paulo Delevati. Ou seja, o partido que ajudou eleger o prefeito Divaldo Lara e o vereador Luís Alberto Chico tem outra fotografia e se era 10x15, agora não sei se chega a 3x4, apenas com a face do vereador.  

“Eu só peço a Deus”

Assim, parodiando a última fala do vereador na tribuna da Câmara, ao citar um poema do cantor e compositor argentino Léon Gieco, em música imortalizada na voz de Mercedes Sosa, “Solo le pido a Diós”, quero acreditar que Chico “não se encontrará um dia solitário sem ter feito o que queria”, porque o PT não mede esforços para conseguir o que o PT quer e não importa quem esteja pela frente, “é um monstro grande e pisa forte toda a pobre inocência dessa gente”.

Ainda bem que muitas vezes não consegue.


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