PAPO DE ELEVADOR - 11 DE MAIO DE 2020 – GRIPE ESPANHOLA 2
Publicado em 12/05/2020

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

Anúncio publicado no jornal O Estado de S. Paulo de outubro de 1918

Luís XIV de araque

ou “fake” Lula

O presidente Bolsonaro cedeu. Perdeu a oportunidade de fazer um governo sem corrupção. Perdeu a oportunidade de trazer o Brasil de volta à consciência cívica e não deixar que esvaísse na utopia irresponsável da esquerda canalha. Meu lamento não é algo que seja precedido de um ataque cardíaco. Não. Eu nunca fui daqueles que esperava muito desse governo. Porque entendi desde o princípio quem é o homem que elegemos. Bolsonaro nunca me enganou como a Dilma me enganou. Eu pensei por longo tempo que a Dilma tivesse fundamento. Até que veio a mandioca, a tentativa de falar francês, o livro de cabeceira que nunca leu, a figura oculta por trás de uma criança, o estocar de ventos, o Bessias, enfim. Mas, Jair Bolsonaro sempre me pareceu esse “tiozão troncho”, ruim de piada e bruto. Minha esperança é que depois de 30 anos na política não se deixasse levar pela estupidez da política e nem permitisse que o cargo subisse à cabeça. Pois não é que o homem simples do interior de São Paulo inflou-se? Jurando que um presidente está acima de qualquer suspeita pisa nas instituições, confunde o lar com o palácio e tenta refazer a lei como um Luís XIV sem cultura. 

Como não consegue por em prática seu autoritarismo e não há quem cale sua boca desenfreada, resolveu escudar-se no Legislativo corrupto e abraçou-se aos políticos que o Lula tanto contemplou, a turma do Centrão. Ou seja, aqueles que estão com o poder onde o poder estiver porque o poder é que mantém os pequenos e devassos poderes Brasil adentro.

Lamentável.

De volta à história

Na coluna de sexta-feira, 8, a Gripe Espanhola comandou o Papo de Elevador. O que aconteceu no mundo, no Brasil e em Bagé na pandemia de 102 anos atrás foram os focos da coluna. Agradeço a colaboração do diretor do Arquivo Público Municipal Cláudio Leão Lemieszek. Outras fontes: Inventário Cultural de Bagé de Elizabeth Macedo de Fagundes, Personalidades de Um Século em Bagé, de Mário Nogueira Lopes, Fundação Oswaldo Cruz e o acervo do jornal O Estado de S. Paulo.  

 

A gripe brasileira

A pandemia de 1918-19 matou 184 bageenses, 35 mil brasileiros e quase 50 milhões de pessoas no mundo. Foi o navio inglês "Demerara", vindo de Lisboa, em setembro, que desembarcou doentes em Recife, Salvador e Rio de Janeiro (então capital federal), dando início ao contágio no Brasil. No mesmo mês, marinheiros que estavam em Dakar, na África, desembarcaram doentes no porto de Recife. Em pouco mais de duas semanas, surgiram casos de gripe no nordeste em São Paulo.

Sabão e Vela Coroa

1918, ano do início da gripe, foi o ano em que nasceu Nelson Mandela, ano em que a Transilvânia e o Reino da Romênia se unem e o navio brasileiro Maceió é torpedeado por um submarino alemão nas proximidades da Espanha. Em Bagé, dá para destacar como o ano em que José Gomes Filho teve a ideia de estocar 900 sacos de feijão, que vendeu em seguida com a escassez. Vendeu bem, tão bem que comprou um terreno no Passo do Príncipe e abriu duas fábricas, de sabão e de vela.

Doutor Mascarenhas

O deputado federal próximo à prefeitura nesse período de pandemia era o republicano Domingos Mascarenhas, médico, pelotense, que morava em Bagé, participava do núcleo positivista e acabou sendo eleito consecutivamente de 1903 até 1930. Mascarenhas era do mesmo partido do prefeito Tupy Silveira, o PRR, Partido Republicano Riograndense, fundado em 1882.

O decreto do prefeito

O prefeito Tupy Silveira durante a pandemia teve que baixar um decreto criando o Comissariado de Alimentos para fiscalizar os preços dos gêneros de primeira necessidade. A prefeitura distribuía alimentos aos “pobres” e abastecia os asilos da cidade. Também auxiliavam nessa tarefa entidades como a Aciba, o Clube Caixeiral, a Loja Maçônica Capitular Amizade do Oriente de Bagé e algumas famílias “ricas” que emprestavam carros, compravam remédios e doavam dinheiro.

Famílias infectadas

O Hospital da Beneficência Portuguesa, recém-inaugurado, em seguida ficou sem leitos para internações. O desespero era enorme. Tanto que o fim da Primeira Grande Guerra, que ocorreu no início de novembro de 1918, nem foi comemorado. Nesses dias havia casas com famílias inteiras infectadas. Alguns estabelecimentos comerciais não abriam porque o contágio atingiu do proprietário aos funcionários.

A pior de todas

Pedro Nava, historiador que presenciou os acontecimentos no Rio de Janeiro, escreveu que “aterrava a velocidade do contágio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas. Nenhuma de nossas calamidades chegara aos pés da moléstia reinante: o terrível não era o número de casualidades - mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemitério, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o fato de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exercer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva”.  


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