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PAPO 27 DE NOVEMBRO
Publicado em 27/11/2019

Gladimir Aguzzi

Gladimir Aguzzi

Foto: Reprodução/FS

Bagé e o trem
A noite de 25 de novembro de 2019 provou o quanto é forte e pulsante a memória afetiva dos bageenses em relação ao trem. A passagem da Maria Fumaça Mallet 204, no projeto Natal nos Trilhos da empresa Rumo, chamou a atenção de uma multidão. O trem não pode e não quer ser esquecido em Bagé. Tivemos por um século a vida correndo em trilhos. Desde 1884.

Memórias vividas e contadas
O trem faz parte da história desta cidade. Famílias de ferroviários, clubes sociais e de futebol fundados por ferroviários, vidas construídas e estabilizadas graças ao transporte por trilhos. Tudo se pode contar a partir do trem em se tratando de Bagé, são memórias afetivas que passeiam por tantas histórias vividas e contadas. 
Foi isso que veio à tona na noite da última segunda-feira.

1884
Depois de muitas tratativas e cancelamentos, finalmente, em 1878, a francesa Compagnie Imperiale Du Chemin de Fer Du Rio Grande do Sul e a inglesa Southern Brazilian Companhy começaram a construção da estrada de ferro Bagé-Rio Grande, inaugurada em 2 de dezembro de 1884. 

Marco do progresso
Assim como na noite deste 25 de novembro, há 135 anos uma multidão se colocou às margens dos trilhos na espera angustiosa do trem. A primeira locomotiva chegou a Bagé às 17h30min, sob aplausos e vivas. Apitos, fumaças e vapores mostravam o trem de estreia. Era “o marco do progresso” se anunciando à Rainha da Fronteira sob as ordens do Imperador Dom Pedro II. 

De três dias para 12 horas
Antes do trem, ia-se a Pelotas e Rio Grande de carroça, trocando cavalos em pontos estratégicos e descendo para atravessar locais íngremes. A viagem durava três dias. De repente, ela passa a durar 12 horas no “conforto”. Para o comércio a festa foi maior, o trem era a garantia de variedade e mais produtos para oferecer aos clientes, além de baratear os preços. Com o trem Bagé começa a viver uma era de ouro, aparecendo como a terceira cidade do Estado.    

Um legado a recuperar
Embora hoje exista um terminal ferroviário para o transporte de cargas em Bagé, da Rumo Logística, a verdade é que deixamos de lado um legado afetivo. Desde 1984, quando a Estação Ferroviária se transformou no Centro Administrativo da prefeitura, jogamos no lixo uma parte de nossa história. Aliás, a melhor parte, porque com o trem ganhamos o progresso e não perdemos o afeto, a humanidade poética, que nos caracteriza.

Estação e pontes
É preciso, faça-se justiça, parabenizar quem lutou para que o prédio da estação não fosse descaracterizado e as pontes com trilhos se mantivessem preservadas. Porém, está na hora de transformar toda essa história e essa memória afetiva em um memorial do trem. São muitas as famílias de ferroviários que conservam algum objetivo, uniforme, fotografia em casa, que podem contribuir. 

Memorial do Trem
Sei que na prefeitura tem um grupo de pessoas interessadas em tornar real o memorial, utilizando como espaço a “gare da estação” e o pátio do hoje Centro Administrativo. Ainda em fase de pesquisa histórica e de busca de acessórios e equipamentos, como uma locomotiva, o grupo espera contar com o apoio de entidades culturais de Bagé. 
Tomara que a ideia seja posta em prática o quanto antes. Antes que nos afastemos ainda mais das boas lembranças.  

Linha Bagé – Rio Grande
Ao se concretizar o memorial do trem, o grande sonho passa a ser a locomotiva e um vagão com mobilidade, mesmo que muito reduzida. Também está nos planos concretizar um passeio com passageiros, de Bagé a Rio Grande, via trilhos da concessão Rumo, o que poderia ser feito uma ou duas vezes ao ano. A empresa tem um programa nesse sentido, aproveitado por algumas cidades da Região Sul. 
Não há dúvida que Bagé inteira correria para adquirir as passagens. Afinal, voltaria um velho hábito bageense, viajar de trem. 


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