No Ar
Folha do Sul
Web Rádio

SOCIAL 14 DE JANEIRO
Publicado em 14/01/2020

Gilmar de Quadros

Cidade: Bagé / RS
Colunista social
Gilmar de Quadros

Foto: Divulgação/FS

Artista plástica Mozileide Neri, galeria de arte Edmundo Rodrigues (Secult) abre no turno da manhã, meses janeiro e fevereiro

ENTREVISTA

O FILÓSOFO, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco, falecido aos 84 anos, em fevereiro de 2016, talvez tenha sido quem mais escreveu sobre o belo, o ético  o estético. Nos anos 60, ele se convenceu de que chegar à verdade (e ao belo) é percorrer um longo caminho por meio de interpretações. Os conceitos estéticos de Eco tinham como ponto de partida a hermenêutica; entre seus livros mais consagrados: “O Nome da Rosa”. Mas, foi com a publicação de “Obra Aberta”,1962, que Umberto Eco “escancarou” para o mundo a admiração que tinha pela beleza das coisas. Ele escreveu que “uma obra de arte conduz à expansão de repertórios semânticos e a infinitos jogos semióticos numa espécie de espiral. É dele a obra “História do Belo na História da Arte”, 2004. Logo a seguir, ele publicou um volume inteiro sobre a “ História da Feiura”.

O QUE aproxima o conceito estético de  Umberto da obra de arte produzida pela artista plástica Mozileide Neri (até dia 31, ela expõe na galeria de arte Edmundo Rodrigues) é justamente a “simetria da semiótica” que ajuda o interlocutor a pensar não propriamente por meio de palavras (como faz Umberto Eco), mas por meio de  imagens abstratas, minúsculas, que necessitam ser observadas “bem mais de perto”. Tanto ele quanto ela sugerem uma reflexão sobre a beleza não como um dado absoluto, mas relativizado pelos valores culturais de cada indivíduo. Como escreveu Eco: “A beleza da arte é, enfim, uma obra aberta.”

SOBRE a artista plástica Mozileide Neri, nascida no agreste da Paraíba, ainda na infância migrou com a família para o Rio de Janeiro. Ela tem mestrado em literatura pela Unicamp; trabalha o tema da leitura literária, em práticas de formação de leitores, sobretudo, em espaços públicos de educação e cultura. Mozileide coordena o projeto “Rodas Literárias”, que é realizado em bibliotecas públicas no Rio e São Paulo e que, em 2019, foi selecionado pelo ProAC-SP.  Mais sobre a carreira desta artista procure no instagram @mozileide.

1)   Em sua formação acadêmica, mestre em educação, Unicamp,  você dá ênfase à leitura literária em práticas de formação de leitores, projetos que contemplam espaços públicos de educação e cultura. De que forma essas leituras aparecem em sua arte? MN. Tenho um projeto expositivo de pinturas inspiradas em textos literários, iniciativa para o incentivo à leitura e à recepção de imagens. É impossível ler a pintura sem ter curiosidade em ler o texto inspirador. Acredito na educação transformadora, o leitor sempre será um observador de arte mais atento, fruirá com mais liberdade. 

2)    O tempo todo, escuta-se alguém afirmar que a Semana de Arte Moderna “ainda não terminou”. Até um livro com temperamento de reportagem histórica, bem documentado e muito bem escrito, foi editado com o titulo:“1922: A Semana que Não Terminou”, do Marcos Augusto Gonçalves, Companhia das Letras. Você concorda com essa ideia e como isso se justifica? MN- É uma ideia possível de se entender e concordar, quando se visita exposições de artistas representados por galerias, alguns processos criativos são muito rasos ou o conceito está muito influenciado por convicções do galerista europeu/americano. Ainda acredito na autonomia do artista, há novas ideias e conceitos artísticos surgindo em espaços formais e alternativos Brasil a fora. Em dezembro, fui expor em Belém do Pará e fiquei maravilhada com a arte contemporânea que está circulando por lá.

3)    Voltando a primeira pergunta, quais repertórios dos fatos transcendentais da história da literatura brasileira mais se inserem na sua arte? MN - Eu sugiro os rotulados de "clássicos" da literatura brasileira, José de Alencar e Lima Barreto inspiram meus trabalhos de pintura sobre madeira e papel. "Não as matem" de Lima Barreto é um texto tão atual quanto o livro "Angu de sangue" do contemporâneo e genial Marcelino Freire. Há muitos repertórios na literatura brasileira de ontem e hoje, temos que ler, nos aproximar mais dos textos sejam eles brasileiros ou estrangeiros.

4)  Até os anos 50, a arte brasileira era “patrocinada” pela elite paulistana e carioca – o centro político e cultura do Brasil à época. Hoje, quem paga o mercado de arte no país? MN-  Atualmente, o Rio de Janeiro só "patrocina" as grandes exposições em espaços culturais representados por bancos. A cena cultural carioca ainda está viva, sobrevive pelos coletivos que são a alma efervescente da cidade maravilhosa. Mas São Paulo é, sem dúvida, o estado brasileiro que mais patrocina e apresenta arte no Brasil. A programação cultural do circuito Sesc São Paulo, por exemplo, é esplêndido. Acredito que Porto Alegre vem se destacando no cenário das artes, assim como outras cidades brasileiras que acreditam na cultura como conhecimento/educação/experiência e não mero entretenimento.

5)    A sua obra agrada a que público? MN - A minha arte é para todos os públicos. Insisto na aproximação da arte com o observador. Questiono por que não há obras táteis nos espaços culturais, mais braille, mais audiodescrição, menos legendas minúsculas, menos "não pode tocar". Esta coleção que mostro em Bagé - "É preciso olhar mais de perto" - na galeria de arte Edmundo Rodrigues, solicita que o observador se aproxime mais das obras para que ele possa frui-las melhor. A arte abstrata procura um observador atento e disposto a descobrir o que há além das cores.

  6)   Os museus de arte moderna ainda são o principal espaço de exposição, de legitimação e consagração dos artistas e de tendências plásticas ou para você isso mudou com as novas tecnologias? MN - Mudou! E fico feliz que tenha mudado. Trabalho com vários suportes e estou em diversos lugares, na rua, por exemplo, nossos museus urbanos do grafite dão movimento e vida a cidade. Atualmente, coletivos integram museus e espaços alternativos, apresentam uma programação de múltiplas linguagens. Estou aonde a arte me chama/convida. Minha formação acadêmica em produção cultural me impulsiona a estimular a arte em todos os lugares.

7)  E as bienais, por exemplo, como você as observa? MN -As defino como interessantes. Ainda um espaço dominado por galerias e curadores galeristas. Os salões de arte são mais abertos, aproximam e diversificam a arte.

8)    Já que você mencionou o tema, as galerias de arte e o contexto brasileiro atual. Como você os vê? MN - As galerias que apresentam a minha arte são mais populares. Estou no circuito das artes com exposições através dos editais de arte, sejam eles municipais, estaduais ou federais. Há alguns convites, mas a maioria é pela seleção em editais de arte. Acompanho a minhas exposições porque também quero estar perto do público visitante, quero conhecer e pertencer a esta cidade que visito e me visita. Em 2017, estive aí em Bagé para expor minhas pinturas sobre madeira na casa de Cultura Pedro Wayne, amei essa cidade. Tenho um carinho especial pelos gaúchos. Espero expor e conhecer outras cidades do Rio Grande do Sul. 

 


Deixe sua opinião