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SOCIAL 10 DE MARÇO
Publicado em 10/03/2020

Gilmar de Quadros

Cidade: Bagé / RS
Colunista social
Gilmar de Quadros

Foto: Divulgação/FS

Retrato de Céres Franco, por volta de 1965, Alexandre Baratta

VOCÊS, queridos leitores, que me acompanham, há 40 anos, nos jornais de Bagé, sabem que “escrevo como gostaria que alguém escrevesse para eu ler”. Então, vou lhes contar esta passagem interessante. Semana passada, o fotógrafo Gilberto Perin inaugurou exposição na galeria de arte Edmundo Rodrigues, então ficou sabendo desta homenagem à Céres Farinha Franco: “Dia Internacional da Mulher”, que o projeto “Falando em Arte” vai promover neste sábado, dia 14, no auditório Luiz Coronel, da Biblioteca Otávio Santos. Na verdade, a ideia disso tudo foi da Heloísa Beckman, diretora da Casa de Cultura Pedro Wayne, que convidou Clarissa Farinha Candiota para vir de Porto Alegre falar sobre a trajetória de vida de Céres.

 

MAS, o que Gilberto Perin tem a ver com isso? Explico, ele me disse ter um amigo em Paris que conhece bem de perto a versão “francesa”da  bageense Céres Franco, e que se eu quisesse o amigo dele me contaria alguns capítulos. Claro, quis. Então, leiam...   

CÉRES FRANCO, mulher comprometida e visionária. Eclética, não convencional, limpeza de terras. Esta é a proprietária e colecionadora da galeria, que fez campanha pela sua vida por uma descompartimentalização de categorias artísticas e uma internacionalização do olhar.

Foi necessária uma independência de espírito sagrada e uma convicção que beira a insolência para limpar um território artístico no qual tão poucos se interessavam. Criação à margem - onde artes populares, rudes e ingênuas se encontram - e acima de tudo para colocá-la em pé de igualdade com uma expressão mais oficial e reconhecida do setor. “Ardente defensora de uma arte sem fronteiras, Céres Franco reuniu sucessivamente a vanguarda brasileira e a nova figuração francesa, os holandeses do movimento Cobra e pintores autodidatas dos confins do Brasil, Marrocos ou Tunísia, artistas marginais ou "singulares" e grandes figuras do mundo da arte", resume Raphaël Koenig, no primeiro livro dedicado à crítica e curadora de arte Céres Franco.

 

REPENSANDO a modernidade. Se a aproximação entre gêneros parece adquirida hoje, graças às propostas de Harald Szeemann - que confrontou os desenhos delirantes de Adolf Wölfli com as esculturas de Richard Serra na exposição “Documenta”, 1972 - e desde a mítica exposição de “Mágicos da Terra”, de Jean-Hubert Martin, em 1989, até a nova montagem do MoMA em Nova Iorque - que repensa a modernidade libertando-se dos "ismos" da história da arte - deve-se lembrar que nos anos 1960-1970, foi uma verdadeira ruptura. Pioneirismo, Céres Franco também estava abrindo caminho para o papel de curadoria independente. Em 1962, ela impôs um formato oval aos artistas, daí o título de um enforcamento na rua de Seine, "O olho de um touro" - que se tornaria o nome de sua galeria 10 anos depois -, então em 1963, com "Formas e Magia", instala esculturas de Germaine Richier, Henri Laurens, Étienne Martin, Picasso, Arp ou Max Ernst, na pista de boliche no Bois de Boulogne. Impulsionada pelo desejo de tornar a arte acessível ao maior número de pessoas possível, ela vai ainda mais longe com o projeto “Formas e Magia II”, que aconteceu no aeroporto de Orly, em 1964. “Viemos em família para ver aviões decolando do ‘cais’ de concreto bruto, que ficou famoso pelo cineasta Chris Marker (La Jetée, 1962), comenta Raphaël Koenig. Catedral de uma globalização então em pleno andamento, é, de fato, o aeroporto de Orly, e não a Notre-Dame de Paris, que foi o monumento francês mais visitado do ano de 1963, com mais de três milhões de visitantes. E para continuar: "Utilizando as companhias aéreas que serviam ao aeroporto de Orly, que se encarregariam do transporte de esculturas às vezes monumentais de todo o mundo: Alemanha, Brasil, Chile, Egito, Marrocos ou Japão, este evento reviveu o espírito das grandes exposições universais do século XIX e poderia eventualmente ser alargado a outros lugares com as realizações da escultura moderna, de país para país, a partir do aeroporto.” 

OS VISIONÁRIOS internacionais. O projeto, apesar de bem organizado, não teve êxito. Se foi muito apreciado no Brasil, onde era conhecida por seus artigos publicados nos principais jornais e pela exibição comprometida "Opinião-65", no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Enquanto isso, ela foi muito criticada na França, porque ela veio do nada, estava sem unhas e uma mulher divorciada com sotaque. Ela sofreu comentários misóginos e sexistas ao longo de sua vida. Céres Franco nasceu em 1926 em Bagé, uma pequena cidade no sul do Brasil, em uma família de proprietários de terras, conservadores, que defendiam seus privilégios, valores contra os quais ela lutava, era muito jovem. Ela escapa simbolicamente contemplando reproduções das obras de Van Gogh, antes de deixar a casa da família em Nova Iorque, onde frequentou os cursos de história da arte de Meyer Schapiro, na Columbia University  e na New  School. Céres descobre os expressionistas alemães lá, à frente dos quais Kirchner, Nolde e Schmidt-Rottluff: um choque estético fundamental que guiará suas escolhas futuras e o tecido de sua coleção em torno de uma arte sem concessões, refletindo os tormentos da alma e expressando pura emoção. Quando ela chegou a Paris, em 1951, também foi alimentada pelas reflexões de seu compatriota Oswald de  Andrade, publicado em seu Manifesto Antropófago, em 1928. Ele lançou os fundamentos da modernidade brasileira em um contexto anticolonial, pedindo a ingestão de inovações estéticas ocidentais para se apropriar delas e combiná-las com influências brasileiras. "Eu tinha orgulho de trabalhar em Paris, onde não havia preconceito contra artistas estrangeiros", lembra. Em sua galeria de rua Quincampoix, de 1972 a 1994, exibiu Jacques Grinberg e Chaïbia, Corneille, Stani Nitkowski, Michel Macréau, Marcel Puget ou até Yvon Taillandier, que “não hesita em compará-la a Denise René, Iris Clert, Colette Allendy ou Ileana Sonnabend”, destaca Raphaël Koenig. Posteriormente, ela consolidou sua coleção entre Paris, Lagrasse e Ibiza - seus três locais de vida -, para instalá-la, em 2015, na antiga cooperativa de vinhos de Montolieu, em Aude, ajudada por sua filha Dominique Polad-Hardouin. Uma nova aventura que deveria ter visto a luz do dia três anos antes em Carcassonne, antes de ser desacelerada pela recusa do novo prefeito e depois reorientada para esse município. A doação da coleção de  1,7, as peças e o edifício foram validados oficialmente e suas propriedades transferidas para a cidade em janeiro. Mas ainda não acabou: aos 93  anos, em seu apartamento parisiense, a senhora mora cercada por artistas que ela ama: Chaïbia, Macréau e Corneille, mas também Jean Rustin, Jaber, Andrew Gilbert, Zamora, Joseph Kurhajec, Meret Oppenheim, Jean-Louis Bilweis para citar apenas alguns. Ela sempre cede aos seus favoritos, recentemente, por obras de Bernard Le  Nen, no Salon des Réalités Nouvelles. O artista Jean-Marie Martin também lhe legou uma instalação, The Quest for the Holy Graal, que em breve deverá ser implantado em uma igreja românica em Pezens, a poucos quilômetros de distância. Ainda há uma enorme quantidade de trabalho a ser feito para aumentar os fundos da cooperativa do museu Montolieu. Jean-Hubert Martin foi um grande aliado de Céres quando projetou a exposição “A Internacional dos Visionários”, apresentada em 2017: uma maneira de estender uma história que remonta aos “Mágicos da Terra”, enquanto Céres Franco havia lhe fornecido uma documentação valiosa sobre artistas então desconhecidos dos museus. "É a originalidade que a fortalece", ele escreveu sobre isso no prefácio do livro. É única porque mostra tendências artísticas no território nacional que estão muito mal representadas em outros lugares. [...] A evolução do paladar e a história da arte vão para o ecletismo e o reconhecimento de outras culturas e movimentos até então marginalizados. “Vamos apostar como Céres Franco ganhará seu reconhecimento por ter sido premonitória". Aplausos!


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