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Coluna Social 08-08-19
Publicado em 08/08/2019

Gilmar de Quadros

Cidade: Bagé / RS
Colunista social
Gilmar de Quadros

Foto: Divulgação/FS

Vice-Presidente da República, Antonio Hamilton Martins Mourão, almoçou no 3º R C Mec, segunda-feira, aplausos!

VIAGENS DE DENTRO, de autoria  de Norma Vasconcellos, será  interpretado, direção de Camilo de Lelis, em cortejo cênico, dia 17,  às 15h, no Centro Histórico de Porto Alegre. A Jornada de Poemas – Roteiro em Fragmentos Poéticos -  é uma ação que une o Instituto Estadual de Artes Cênicas, o Theatro São Pedro, Teatro de Arena e a Casa de Cultura Mario Quintana  O ponto de partida será o Palácio Piratini (Salão Negrinho do Pastoreio), Museu Julio de Castilhos (nas sacadas do museu),  Theatro São Pedro (saguão),  Biblioteca Pública, (na porta),  Memorial do Rio Grande do Sul (saguão),  Museu de Artes do Rio Grande do Sul (escadaria interna),  Museu Hipólito da Costa (  interior),  Casa de Cultura Mario Quintana (saguão). Aplausos!

FACHADAS

UMA  certa rudeza têm essas fachadas que é preciso ser pedra empedernida para vencer o inverno, a aguda ventania, faca meridional afiada a chuva e Minuano. E no verão o crépito escaldante, vulcão, fogueira de um sol entorpecente, desmedido que banha a rua, invade frestas de portas e venezianas. E vaga pasmaceira de pachorrento meio-dia.

UMA  certa rudeza têm essas  fachadas, compacto, inerte casario feito muralha abraçada em fio de calçada, sem transições, meias-verdades de jardins dianteiros que as flores do sul se habituaram de há muito tempo a desabrochar para dentro. Lá fora o mundo. Aqui dentro a vida. Privacidade garantida. Ninguém, nunca, saberá as emoções que habitam a penumbra interna de tão altas e protegidas janelas.

NO ENTANTO, nem tudo é rudeza nessas sóbrias fachadas com suas grossas paredes. Suas trancas. Aos poucos, sutis indícios de leveza vão se revelando. Um arco vitral cromatizando dobras de platibandas envolvendo janelas; umbrais recortados emoldurando velhas, belas portas. Balaustradas suspensas ocultando a ranzinzice de velhos telhados onde não raro como duendes supra-mundo, fantasmas de pedra, a inexplicável presença de pombos, pinhas, compoteiras, ninfas, globos, naus, leões, damas antigas une a terra e o céu.  [...].

TELHADOS

NAS suas enormes ondas de barro, os telhados brincam de mar e lonjuras. Na cor da labareda folhas secas e chão de outono.  Não sei que  mistérios guardam os telhados na sua imponente  postura de guardiões, sua larga visão de rua, igreja e casario. Cabeça altiva de argila e musgo onde a despeito do tempo amam os pombos ao sol, e os gatos sob a clara lua-nova.

NA sua antiga e persistente resistência, debruçados em madeirames inabaláveis, os telhados insistem em sua muda contemplação e vigília interrompida apenas quando  a chuva chega.

MEIGOS são os telhados sob a chuva mansa, frágeis meninos apaziguados em suas lágrimas de beiral gotejando na tarde renda, saudade e alfinete.

 TRINCOS

TRINCOS são vozes da casa, seus familiares próximos anunciando partidas e chegadas.  Rondam maçanetas, abrem e fecham trancas e cadeados, ringem dobradiças, gemem chaves nas entranhas de velhas fechaduras.

OS TRINCOS ficam morando para sempre em nossa mão, em nosso ouvido. Mesmo depois de terminados os convívios efêmeros de um tempo que parecia eterno e que não era. ( À noite, às vezes  ouço claros os trincos da porta de vidros antigos do quarto de meu pai. As fechadura frouxa da porta do quintal, a corrente da janela sacudindo ao vento. Meu pai é morto. A casa, demolida. Eu é que ainda, a custo, sobrevivo.)  

JANELAS

JANELAS são navios parados. Por elas viajamos imóveis, encalhados em paisagem sempre igual, repartindo em caixilhos os pulsares da rua. Portas frustradas pela metade.

JANELAS têm sempre uma vaga aura de melancolia, quadrado facho amarelo de luz na noite fosca. Cerradas as venezianas no avesso de interiores listam de lua a casa em madrugadas de verão ou espirram sol de réstia em preguicentas penumbras de janeiro à hora do almoço.

VER o mundo sempre através de uma janela, debruçada em sacadas, o vento no cabelo ou encostada em vidraças onde escorrem os caminhos de cristal da chuva mansa. Dentro delas, o mesmo pedaço restrito de rua.

SEMPRE. Idêntico referencial, dia após dia, lenta, lenta, muito lentamente, numa estática viagem  de janelas em que a paisagem nunca muda. Nós é que murchamos. ( Continuação: porões, corredores, sala de jantar, quarto, cozinha, banheiro e varal).


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