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O prof. Morvan
Publicado em 08/08/2019

George Teixeira Giorgis

George Teixeira Giorgis

À medida em que os anos vão tomando conta da gente, nosso sentimentalismo cresce e os períodos emocionais apossam-se de nós com intensidade mais forte. Face a tanto tenho deixado de comparecer a velórios. E tenho preferido abraçar os que ficaram na missa do sétimo ou trigésimo dia.

Morvan já estava praticamente esquecido por seus conterrâneos, desde que, aposentado pela doença, deixou de figurar “na crista da onda”. Homem, como não poderia deixar de ser, era um misto de virtudes e falhas, aquelas em volume notavelmente superior a estas. Dificilmente, quando “no poder”, algo indeferia nos tempos áureos da Funba/Urcamp. Foi o seu reconstrutor e uma de suas lideranças mais salientes. Lá ingressou como professor de Direito Internacional Público. E não tardou para que Tarcísio e Carlos Rodolfo o elevassem a patamares mais elevados. Dificilmente pronunciava “não”. Quem lhe pedia uma bolsa de estudos ele o deferia nem que fosse pela metade. Quem lhe solicitava uma cadeira para lecionar, ou um emprego subalterno, raramente era desacolhido.

Na Reitoria foi o magno transformador da Funba em Urcamp. Era deveras um sonhador. Contrariando prognósticos dos pessimistas foi estendendo os limites e as fronteiras da instituição, levando cursos daqui para ali, erguendo prédios, adquirindo outros, efetuando reformas a fim de que a Funba fosse sendo, pouco a pouco, substituída pela Urcamp, hoje um cometimento de prestígio nacional. Graças a ele, ao seu perdão de dívidas, aos parcelamentos que encampava, quantos em Bagé e na região possuem o diploma universitário?

Os bageenses, às vezes com facilidade, olvidam os seus benfeitores. Em Morvan, a queda na visão, a perda de um filho moço, o falecimento de Diana (a companheira de todas as horas) foram-lhe dizimando a força e o entusiasmo, ao lado de constantes hospitalizações. Mas aqueles a quem encontrava e conhecia pela voz, amigos de constância, causavam-lhe bem ao espírito. E, amparado pela bengala e pelo acompanhante, logo lhes dedicava a fulgor de seu espírito e “as benesses” de sua cultura.

Há muito não o via. E, às vezes, telefonava-lhe para saber da sua saúde. Morvan resistiu, no que pôde, às hospitalizações reiteradas, para, afinal, recentemente deixar o nosso mundo, tomando o rumo desconhecido e infinito da eternidade.

Os que apreciam a história de Bagé e os que sabem valorizar os que nos serviram não haverão de esquecê-lo, em especial os que foram diplomados pela Urcamp (e que não teriam meios de formar-se em Pelotas ou Porto Alegre) e que hodiernamente estão a exercitar sua profissão nos setores mais diferentes da coletividade, enaltecendo-a sobremodo.

O tempo, esse colosso que a tudo consome, passará. Mas a obra educacional construída por Morvan Meirelles Ferrugem é perene. E quem passar pela Urcamp, ou nela ingressar, estará ali sendo perseguido por sua lembrança, e por sua recordação e por seu espírito altruísta.

*Texto revisado pelo autor


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