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O Dr. Abero
Publicado em 22/11/2019

George Teixeira Giorgis

George Teixeira Giorgis

Estamos na década de 40, chegando a 1.950, antes de irmos estudar no Colégio Rosário, na capital. As aulas no Auxiliadora eram de manhã. Pela tarde, feitas as tarefas escolares (hoje denominam “os temas”) saíamos para a Rua Bento Gonçalves e logo à Av. Marcílio Dias (morávamos na primeira). E aí vinham “as artes” e as brincadeiras, de vez em quando “uma briga”, envolta na bola de meia, na bola de borracha e, mais tarde, chutando a bola de couro (de tento). Formavam-se as esquadras, em torno dos canteiros (a gente cuidava para não pisar), às vezes jogos com camisetas do Bagé e do Guarani. Depois, rumou-se ao estudo ginasial no Auxiliadora. Ali a família de Juca Abero era imensa com quatro varões e muitas moças, estas frequentando o Espírito Santo, os rapazes no Auxiliadora. O orgulho de todos era Ricardo, o mais velho deles, homem muito alinhado, militar que mais serviu no Rio de Janeiro e que era também veterinário (ou agrônomo). Seu José Pablo Abero e dona Francisca, com todo sacrifício e muita tenacidade, educaram filhas e rapazes nos tradicionais estabelecimentos da época, o Espírito Santo (das Irmãs Franciscanas) e o Auxiliadora (da Ordem Salesiana). Lá, no magistério, o nome mais respeitado era Irmã Estefânia Volkmer. No Colégio Auxiliadora, o infatigável e popular Padre Roberto Maria Germano, que, vindo do Uruguai, ali obrou desde a fundação do educandário, nome até hoje popularíssimo nas entranhas do magistério de Bagé. Abero, a princípio, não foi muito estudioso, excessivamente “mimado”, que o era, pelos genitores e pelos irmãos. Seu destaque mental exsurgiu mais tarde, quando ele começou a emitir opiniões políticas em prol da esquerda, ingressou no Direito na Funba e lá se destacou deveras, sendo o orador escolhido pelos colegas para a primeira formatura dos seus bacharéis. Com o tempo, com o exercício pausado da advocacia, a que se devotou sempre com calma e com prudência, auxiliado por José Palmor Gonçalves, foi expandindo seu cadastro de amigos. De certo tempo em diante passou a ser entrevistado (e a dissertar) no programa do Sr. Edgard A. Muza aos sábados na pioneira Rádio Cultura. Ali deixava “deitada” sua erudição, focalizando a vida política do RGS e do país (nunca se envolvendo nos problemas locais). Então, sua facúndia, seu vocabulário farto conquistaram milhares de ouvintes, que se aproximaram da antiga ZYG-4 para escutá-lo e, às vezes, para copiar o que expressava com maestria. Formou a filha na capital, divisou-a bem casada e tinha apreço enorme pelo neto e pelo genro, sentindo-se realizado no âmbito familiar, onde sempre ganhou o alento e o apoio de Uiara, com quem formou par exemplar e frequência domingueira no restaurante do Marquinhos. Foi-se subitamente (quando estava em tratamento em PoA). E foi-se quando muito ainda tinha a ofertar, de sua intelectualidade, ao pago natal. Não me animei a ir ao seu sepultamento (de que tenho “fugido” ultimamente), mas já rezei em seu jazigo, louvando e recordando nossa velha amizade e pedindo-lhe que, de cima, proteja a infinidade de amigos que aqui deixou.

 

* Texto revisado pelo autor


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