No Ar
Folha do Sul
Web Rádio

Há muitas maneiras de censurar a imprensa
Publicado em 08/08/2019

Edgar Muza

Cidade: Bagé / RS
Radialista, comentarista de política e de notícias de geral. Liderança reconhecida nas áreas de saúde e de Carnaval.
Edgar Muza

E todas já foram tentadas. Foi, e será, o discurso da oposição contrariando decisões de governo, seus adversários partidários. Cada governo que se estabelece no Brasil, em todos os níveis, enquanto oposição foi defensor ferrenho da liberdade de imprensa. Seus discursos eram baseados no jargão “A imprensa é a base da democracia”. No governo a coisa muda. Poucos governantes aceitam críticas. Alguém pode achar que o tema de hoje é “perigoso”. Para mim, não existe tema proibido enquanto se tratar da verdade. Quem não sabe que o presidente da república tem mostrado sua contrariedade e desconforto com determinados órgãos de imprensa. Ele simplesmente concede entrevista para alguns deles. Está em seu direito. Agora, quando decreta alguma medida com sua caneta Bic, visa quase sempre tentar amenizar as críticas sobre seu governo. Não digam que o Lula não tentou regulamentar a imprensa. Tentou e não conseguiu. O Congresso não permitiu. Quem compunha a casa Legislativa hoje está no governo. É um crítico tenaz dos editoriais da imprensa livre. Que não gaste com propaganda, está dentro de seu plano de governo. Agora, verba pública não deveria servir para inviabilizar, através de pressão econômica, determinados órgãos considerados “adversários políticos”. Faz isso e não tem receio de declarar publicamente sua intenção. É o caso da Medida Provisória publicada. Leia:

 “MP acaba com a obrigatoriedade da publicação de balanços na mídia impressa”

Agora a medida que deve agradar aos empresários, pode inviabilizar muitos jornais, que têm nestas publicações obrigatórias uma de suas fontes de arrecadação. O empresário que quiser é livre para publicar nos jornais impressos. Mas quem vai querer arcar com uma despesa que não é obrigatória? Ele não só eliminou a obrigatoriedade como declarou a real intenção: “Espero que os jornais sobrevivam”. Como a publicidade dos balanços não foi extinta, a MP determina: “Investidores poderão acessar os relatórios econômicos diretamente no site da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ou no do próprio Diário Oficial da União”. Antigamente qualquer publicação em Diário Oficial tinha um custo. Se continuar o mesmo sistema, as publicações serão pagas a um órgão do governo e não à iniciativa privada. Aí entra a Lei de mercado, quem cobrar menos leva vantagem. Sua contrariedade com alguns órgãos de imprensa está estampada em sua declaração: "Eu espero que o Valor Econômico sobreviva à medida provisória de ontem. Eu quero que a imprensa venda a verdade para o povo brasileiro e não faça política partidária, como vêm fazendo alguns órgãos de imprensa". Qual seria a verdade? As denúncias contra membros do governo e do judiciário, ou a que o governo pensa ao defender os membros acusados? Para variar, o presidente da Câmara, outro que o trem não pega, critica a decisão e vai muito além do que se possa imaginar.

O congresso deve modificar a medida

Rodrigo Maia imediatamente criticou a decisão e sinalizou que a medida deve ser modificada no Congresso. Afirmou que os jornais impressos são instrumentos importantes de “divulgação de informação, da garantia da liberdade de imprensa, liberdade de expressão e da nossa democracia”. É a velha história, ainda em moda: ”Enquanto um bate outro afaga”. Enquanto o presidente quer amenizar as denúncias, fechando o cerco sobre a imprensa, Maia ganha manchetes pela defesa da democracia. Leia: “Retirar essa receita dos jornais da noite para o dia não me parece a melhor decisão. Acho que a Câmara e o Senado poderão construir um acordo onde a gente olhe para o futuro, onde o papel jornal já não seja de fato relevante. Mas no curto prazo é difícil a gente imaginar nos próximos cinco ou seis anos, que da noite para o dia, vamos inviabilizar milhares de jornais que funcionam informando a sociedade”. O mérito (se tiver) do presidente da Câmara é sua coerência. Quando Lula e sua base aventaram a regulamentação da imprensa, ele foi contrário e usou o mesmo discurso. São outros tempos? Pode até ser. Mas coerência é coerência. Amanhã, ou depois, quando ele ocupar (se ocupar!) um cargo executivo, ele pode pensar o mesmo que Lula e Bolsonaro. Isso só o tempo dirá. Concordam ou não?


Deixe sua opinião