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O Lucas Bilheteiro
Publicado em 24/09/2018

Cid M. Marinho

Cidade: Bagé / RS
Cid M. Marinho

Nascido às margens do Arroio Jaguarão, passou a sua infância em companhia da família, ajudando nas lides rurais. Com a morte do pai, Lucas resolve morar na cidade, com os demais familiares. Era um admirador do transporte aéreo. Um fã incondicional de Ícaro. Pensava em voar, pensou muito, e, por fim, resolveu por mãos à obra. Engendrou um aparelho constante de um pau de uns três metros de comprimento, e em suas pontas estendeu um pelego em cada uma delas, de modo que se assemelhasse às asas de um pássaro. De cima de um galpão, ensaiou a viagem com que tanto sonhara! Deu um salto decidido, convicto, dominador. Mas, o aparelho falhou, e o nosso herói se espatifou na relva!
Depois disso, Lucas se tornou bilheteiro profissional. E, na nova profissão, nunca imaginara que poderia passar à história de sua terra, como vendedor de bilhetes, pelo seu modo irreverente de agir, com a sua insistência e constância em forçar o freguês  a comprar os seus bilhetes. Certa feita, Lucas entrou em uma barbearia, e ofereceu uns bilhetes a um recatado cidadão, culto, enérgico, pessoa de alta projeção social. O cidadão ponderou que não desejava comprar ao que Lucas insistiu: “Compra! Me ajuda! Sou pobre, e preciso viver!” Nova negativa. Outra insistência. Tanto forçou e tanto se lamentou que o cliente se comoveu e resolveu liquidar com o assunto, dizendo: “Será a primeira, e a última vez que vou te comprar um bilhete!” Tirou da carteira o dinheiro, pagou, e se despediu do Lucas: “Até outro dia”- como para liquidar em definitivo com a arenga! De posse do dinheiro, o Lucas saiu célebre do salão, e ante a surpresa de todos, foi logo dizendo sem rodeios: “Barbudo infeliz, miserável, mesquinho, unha de fome! Te arranquei o dinheiro quase à força! Tu não presta mesmo! O bilhete que te vendi esta branco! Perdeste tudo!”
Em seguida, passou pela barbearia um outro cliente, e o Lucas “bilheteiro”, saiu em sua perseguição, dizendo em altos e brados: “Um bilhete premiado para ti comprar! Este pedaço reservei para te vender!”. E o freguês seguia o seu caminho, sob  uma saraivada de argumentos: “Compra infeliz! Compra desgraçado!” Quando  o velho Lucas vinha pela calçada, era comum os que ele perseguia atravessarem a rua para se livrarem dele. Mesmo assim, utilizando seus métodos, o Lucas era estimado e conseguia recursos para sobreviver. Lucas “bilheteiro” desapareceu! Levou um sonho e uma esperança que não conseguiu realizar jamais... Voar!
Fonte de pesquisa: “Tipos Populares de Bagé”, de João Coronel Sais. FAT/FUNBA, 1984.

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