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“O Avança e o Canja Americana”
Publicado em 10/09/2018

Cid M. Marinho

Cidade: Bagé / RS
Cid M. Marinho

O “Avança” era um indivíduo moreno, magro, com cabelos negros e corridos, tinha um andar desengonçado, rápido, como se andasse com muita pressa. Pronunciava as palavras em tom agudo e engrolado. Trabalhava em serviços gerais, ganhando o sustento necessário. Era um tipo rude, grosseiro, reagia às piadas que alguém lhe dirigisse, indo às vias de fato! Certa feita, o “Avança” resolveu fazer um teste para ingressar na Brigada. Teve sorte, foi admitido como praça! Mas, como soldado, não teve a humildade que se podia esperar. Não mais tolerava brincadeiras, nem gracinhas de ninguém! O homem da lei estava importante demais. Durou pouco, o seu entusiasmo. Deu baixa logo em seguida, e voltou à planície! Nesta época, apareceu em Bagé, um espanhol que vendia um doce maravilhoso, denominado “Canja Americana”. Nas ruas e esquinas, o vendedor com voz de tenor, timbre suave, oferecia a sua mercadoria dizendo: “Olha a canja americana de abacaxi e banana”. A gurizada, e os adultos, costumavam comprar com muita satisfação, a saborosa “canja”. Vendo o lucro do espanhol, o “Avança” que tinha anseios de progresso, resolveu propor sociedade ao “Canja”. Numa esquina, ou andando pelas rua, o espanhol anunciava em altos e bons tons: “Olha a canja americana de abacaxi e banana”. Noutro lugar, e ao mesmo instante, o “Avança, alegre, também gritava as mesmas palavras.  A “canja american” era feita em um tabuleiro de uns 40 centímetros de largura, por uns 60 de comprimento. O tabuleiro era colocado em um “carrinho de mão” de madeira, para facilitar o deslocamento do vendedor pela cidade. Os pedaços eram retirados com o emprego de um formão e de um martelo, conforme o tamanho, assim era o preço da fatia. O “Avança” consegui conquistar a confiança do espanhol. Foi aprendendo a fazer a canja. Mas, o espanhol, espertamente, na hora de colocar certos ingredientes, fechava-se numa peça para fazer o seu trabalho. O “Avança” escondido, através do buraco da fechadura, observava as manobras do espanhol. Aprendeu várias coisas, e pensou ter adquirido todos os conhecimentos. Desentendeu-se com o espanhol, e fizeram a separação da sociedade. O “Avança” passou a fabricar a sua própria canja, e foi para as ruas, oferecer o seu novo produto. Não teve a aceitação que esperava! A “canja americana” do espanhol era mais saborosa, mais atraente, enfim bem melhor! O “Canja” havia escondido uma técnica que o “Avança” jamais pensara. Desesperado, o “Avança” tentava em vão, aperfeiçoar o seu produto. Certa ocasião, depois de exaustiva pesquisa, altas horas da noite, cansado, o “Avança” sai de dentro do seu casebre, e atira-se ao chão debaixo de uma árvore, e dorme tranquilamente. Teve um sonho! Acordou-se de sobressalto, e dirigiu-se ao seu tabuleiro, onde o doce estava depositado. Que alegria imensa deve ter sentido o pobre “Avança”! A canja para ficar perfeita, deveria sofrer um último retoque, ficando uma noite exposta ao sereno! A “canja americana” teve o seu esplendor e passou. O espanhol e o “Avança” também desapareceram no turbilhão da vida!  
  Fonte de pesquisa: “Tipos Populares de Bagé”, de João Coronel Sais. FAT/FUnBa, (1984).  

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