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​​​​​​​Setembro Amarelo: mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio
Publicado em 19/09/2019

Folha Saúde

Foto: Reprodução/FS

É preciso falar sobre suicídio

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização para promover a prevenção do suicídio. No Brasil, foi criado em 2015 pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), com a proposta de associar a cor ao mês que marca o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio (10 de setembro).
Para o médico psiquiatra Dr. Paulo Henrique Gabiatti Donadel, suicídio é a ação de acabar com a própria vida, de se matar, como se encontra no dicionário. Pode ser, todavia, entendido de diferentes formas e, provavelmente, a que mais nos interessa, como sociedade, é a do suicídio como um sintoma irreversível de alguma doença mental, que pode ser tratada e prevenida.
Donadel diz que o suicídio, ao longo da história, sempre foi muito mitificado pela sociedade, o que criou tabus. Isto ocorreu, provavelmente, pelo papel de prevenção da desconstrução social que a própria sociedade exerce, através de preceitos morais e religiosos. “O suicídio não é bom evolutivamente, logo, entendia-se que ele deveria ser temido e, nele, não se devia falar”, explica.
Com o passar do tempo, a evolução intelectual da humanidade permitiu ao homem que pudesse usufruir da ciência e do pensamento científico. O desenvolvimento da medicina e da psiquiatria nos fez entender as doenças mentais e, por conseguinte, entender que o suicídio não deve ser esquecido ou ofuscado, mas, sim, estudado para que possa ser prevenido. É isto que a comunidade científica deseja atualmente: informar, repassar conhecimento, para que o suicídio possa ser prevenido.
Simplificando, o suicídio não é socialmente aceito, já que vai contra o instinto de preservação da espécie de sobrevivência. Para preveni-lo, é um senso comum social tipificar o comportamento suicida como fraqueza, o que não corresponde a realidade, haja vista estar o indivíduo suicida acometido por uma doença. Não podemos julgar fracos aqueles que são doentes.  
O psiquiatra fala que, para entendermos o que faz alguém atentar contra a própria vida, é preciso partir da premissa que esta pessoa está psicótica. Ou seja, ela perdeu a capacidade de interpretar a realidade como ela realmente é. “Algumas doenças psiquiátricas podem ocasionar isso, então, devemos ficar atentos a outros sintomas que estas doenças costumam apresentar, por exemplo: alterações no modo de agir, nos cuidados com aparência e higiene, no jeito de falar, no conteúdo do pensamento, no modo de falar, no afeto, no humor, na conduta, entre outros”, enumera.
Para Donadel, a maioria das pessoas que cometem suicídio procuram ajuda médica um mês antes de cometer o ato. Isto é válido, também, para as tentativas. “Aumentar o acesso da população a profissionais adequadamente treinados para manejar crises suicidas é, sem dúvida, uma das estratégias mais promissoras na prevenção do suicídio”, enfatiza o profissional.
De acordo com o médico, uma escuta assertiva atenta e empática é a melhor forma de oferecer ajuda no momento que alguém fala sobre ideias suicidas.
“Entender que, mesmo não parecendo haver um motivo racional real para o sofrimento, ele ainda ocorre, já que é fruto de uma doença. Isto fará com que a pessoa doente sinta-se compreendida, o que aliviará a ansiedade. Pode-se, então, ofertar ajuda especializada, com muito mais chance de sucesso”, elucida.
Neste sentido, para o psiquiatra, a campanha Setembro Amarelo vem reforçar a importância de falarmos sobre o suicídio, a fim de preveni-lo. “A melhor arma contra a doença é a informação para a prevenção, já que, deste modo, o conhecimento fará com que se supere o preconceito, desmistificando todos os tabus que cercam o ato de atentar contra a própria vida”, ressalta.

Movimento pela prevenção

Nove em cada 10 mortes por suicídio podem ser evitadas. O dado, da Organização Mundial da Saúde (OMS), indica que a prevenção é fundamental para reverter essa situação, garantindo ajuda e atenção adequadas.
A primeira medida preventiva é a educação. É preciso perder o medo de se falar sobre o assunto. O caminho é quebrar tabus e compartilhar informações. Esclarecer, conscientizar, estimular o diálogo e abrir espaço para campanhas contribuem para tirar o assunto da invisibilidade e, assim, mudar essa realidade. 
Hoje, 32 brasileiros se suicidam diariamente. No mundo, ocorre uma morte a cada 40 segundos. Aproximadamente, um milhão de pessoas se mata a cada ano. Sabe-se que os números são muito maiores, pois a subnotificação é reconhecida. Além disso, os especialistas estimam que o total de tentativas supere o de suicídios em pelo menos 10 vezes.  
É fato que o suicídio é um fenômeno complexo, de múltiplas determinações, mas saber reconhecer os sinais de alerta pode ser o primeiro e mais importante passo.
O suicídio é um ato de comunicação. Quem se mata, na realidade, tenta se livrar da dor, do sofrimento, que de tão imenso, parece insuportável. 
O CVV é uma das ONGs mais antigas do país. Fundado em São Paulo em 1962, atua no apoio emocional e na prevenção do suicídio por meio do telefone 188, e também por chat, e-mail e pessoalmente. É membro fundador do Befrienders Worldwide e ativo junto ao IASP (Associação Internacional para Prevenção do Suicídio), Abeps (Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio) e outros órgãos internacionais que atuam pela causa. 
Hoje, cerca de três mil pessoas, em mais de 110 postos, prestam serviço voluntário e gratuito 24 horas por dia, nos 365 dias do ano, aos que querem e precisam conversar sobre sentimentos, dores, descobertas, dificuldades e alegrias. De forma sigilosa e sem julgamentos, o voluntário do CVV busca ouvir aquele que liga com profundo respeito, aceitação, confiança e compreensão, valorizando a vida e, consequentemente, prevenindo o suicídio
Após a implantação do telefone 188, por meio de acordo com o Ministério da Saúde que garantiu gratuidade da tarifação telefônica, foram registrados cerca de três milhões de atendimentos por ano. 
Todas as formas de acesso podem ser conferidas no site www.cvv.org.br, onde também é possível se informar sobre o Posto CVV mais próximo e como se tornar voluntário.

Saiba mais sobre o assunto

A OMS reconhece o suicídio como uma prioridade de saúde pública. O primeiro relatório sobre suicídio no mundo da OMS “Prevenção do suicídio: um imperativo global”, publicado em 2014, tem como objetivo conscientizar sobre a importância do suicídio e das tentativas de suicídio para a saúde pública e fazer da prevenção uma alta prioridade na agenda global de saúde pública. O documento também incentiva e apoia os países a desenvolverem ou reforçarem estratégias de prevenção ao suicídio em uma abordagem de saúde pública multisetorial.
O suicídio é uma das condições prioritárias do “Mental Health Gap Action Programme (mhGAP)” (programa de saúde mental da OMS), que fornece aos países orientação técnica baseada em evidências para ampliar a prestação de serviços e cuidados para transtornos mentais e de uso de substâncias. No Plano de Ação de Saúde Mental 2013-2020, os Estados-Membros da OMS se comprometeram a trabalhar o objetivo global de reduzir as taxas de suicídios dos países em 10% até 2020.  
Além disso, a taxa de mortalidade por suicídio é um indicador da meta 3.4 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: até 2030, reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis via prevenção e tratamento, além de promover saúde mental e bem-estar.

Cuidados com a saúde mental

Donadel explica que cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física. Para tal, se faz necessário atentar alguns hábitos de vida que ajudam a promover a mente sã.
- Mens sana in corpore sano, a famosa frase mente sã, num corpo são, definitivamente é real, já comprovada pela ciência. Praticar atividades físicas regularmente ajuda a diminuir ansiedade e melhorar o humor;
- Ter horários regulares para dormir, tendo um sono de qualidade;
-Se alimentar adequadamente;
-Evitar excessos e vícios, como: tabaco, álcool, drogas ilícitas;
-Evitar automedicação;
-Exercitar o cérebro com atividades como leituras, aprendendo novos conhecimentos.

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