Caderno Saúde 2606 - Páginas 4 e 5 / Memória e envelhecimento
Publicado em 26/06/2020

Folha Saúde

Foto: Reprodução/FS

Cuide da sua memória

Quando falamos em memória, o primeiro pensamento que vem em mente é das experiências individuais, aquela que de alguma maneira se armazena no cérebro. Possui relação com nosso convívio social, bem como fatos e acontecimentos que tem fator importante do ponto de vista evolutivo. No processo de envelhecimento, algumas habilidades de memória se alteram naturalmente, como a memória de trabalho e a memória recente, que envolvem a retenção de novas informações, novas aprendizagens e resolução de problemas.
De acordo com a psicóloga, especialista em neuropsicologia e membro da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia (SBNp), Lenise Collares, a memória nada mais é que a capacidade que temos de reter e recuperar informações e, com isso, alterar nosso comportamento em função de experiências anteriores. 
Segundo ela, o cérebro funciona em uma totalidade e, portanto, se concebe que o armazenamento de informações depende de alterações nas conexões nervosas. Ou seja, o cérebro possui certa plasticidade que varia com a idade. À  medida que a idade avança, diminui a capacidade de ocorrerem alterações. 
Como todos os órgãos do corpo humano, o cérebro está sujeito a alterações, inclusive, pelo próprio envelhecimento. Nestas condições, há um declínio cognitivo que se manifesta de forma similar ao declínio da funcionalidade em outros sistemas corporais. 
Lenise explica que, no cérebro, devido à complexidade, as funções não diminuem de forma igualitária. Os aprendizados e as habilidades acumuladas ao longo da vida se deterioram de forma lenta e diferenciada. Em geral, a partir dos 50 anos, o declínio cognitivo já começa a se manifestar, sendo uma época importante para realização de uma avaliação cognitiva de reconhecimento e estabelecimento de uma referência para acompanhamento posterior. 
Apesar de causar transtornos, o esquecimento é normal em qualquer idade, segundo a psicóloga. No entanto, esquecimentos benignos e patológicos devem ser diferenciados por meio de uma avaliação neuropsicológica, já que existem possibilidades terapêuticas para portadores de esquecimentos benignos.
Entre as principais causas das amnésias, a profissional pontua o estresse, a depressão, até as demências mais graves como o alzheimer.  Também alteram a memória o mal de parkinson, em estágios mais avançados, a dependência crônica de álcool e outras drogas, lesões vasculares, traumatismo craniano repetido e exposição a metais pesados. 
“Com certeza, um dos maiores temores que acompanha o envelhecimento é a possibilidade de desenvolver um quadro demencial como o alzheimer e um dos seus quadros preditores é um transtorno chamado Comprometimento Cognitivo Leve (CCL). Pessoas com este quadro já apresentam um acometimento importante da memória, porém, as demais funções cognitivas e atividades da vida diária continuam funcionais”, acrescenta Lenise. 
Estudos demonstram que pessoas com CCL possuem uma maior probabilidade de desenvolver alzheimer, afirma a neuropsicóloga, que também é mestre em Saúde e Comportamento. “Esquecimentos frequentes, perda do curso do pensamento em uma conversação ou repetição de relatos são comportamentos comuns neste quadro clínico”, elucida. 
Por este motivo, Lenise reforça que é muito importante procurar ajuda profissional tão logo se perceba falhas de memória que interfiram no cotidiano, considerando a frequência e importância dos episódios. 

Como identificar e prevenir

A avaliação neuropsicológica é uma importante ferramenta de investigação diagnóstica, que pode detectar esse quadro inicial, proporcionando estratégias terapêuticas e, principalmente, o encaminhamento médico necessário. Esta avaliação é realizada por um neuropsicólogo (psicólogo com especialização em neuropsicologia) e consiste na aplicação de uma bateria de testes padronizados com o objetivo de identificar e mensurar possíveis déficits. 
Entretanto, em se falando de preservação da memória, pesquisas demonstram que manter-se ativo intelectualmente é imprescindível para o bom funcionamento.
Ela fala que estudos realizados em vários países ao redor do mundo sugerem que quanto mais cedo uma pessoa se aposenta e deixa de exercitar o cérebro com atividades estimulantes, mais rápido é o declínio da memória. 
“Uma implicação desse estudo é que a ideia do “use ou perca seu cérebro” parece realmente fazer sentido – se as pessoas querem preservar as memórias e as habilidades de raciocínio, elas terão que se manter ativas”, enfatiza a profissional.
“Enquanto aguardamos mais estudos sobre esse assunto, uma vida rica em estímulos intelectuais, como leitura e exercícios para o cérebro, combinada com um estilo de vida saudável, alimentação equilibrada, além de exercícios físicos, sono, socialização e controle do estresse, com certeza, é uma receita sem contraindicações para a saúde do cérebro”, diz Lenise.

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