Caderno Saúde 0506 - ​​​​​​​Conheça a terapia EMDR
Publicado em 05/06/2020

Folha Saúde

Páginas 2 e 3

Foto: Reprodução/FS

A terapia EMDR (dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares) é uma abordagem terapêutica baseada em evidências científicas que demonstram sua eficácia na melhora de uma série de situações com base psicológica, como ansiedade, problemas sexuais, transtornos de estresse pós-traumático, dificuldades de relacionamento e melhora de performance/desempenho.
Segundo a neuropsicóloga, Rosmari Schardosim Schwanck Fara, o EMDR pode ser uma útil ferramenta para as mais variadas formas de terapia, já que o protocolo é ateórico e pode ser adaptado e somado às diferentes abordagens terapêuticas, sejam elas psicodinâmicas, individuais, familiares ou de casal.
De acordo com a profissional, é uma abordagem de psicoterapia validada empiricamente usada para tratar distúrbios de saúde mental decorrentes de trauma e outras experiências adversas de vida em crianças, adolescentes e adultos.
A psicóloga explica que se trata de uma terapia que envolve oito fases padronizadas para abordar de maneira abrangente o quadro clínico. O tratamento inclui direcionar e implementar os procedimentos padronizados de processamento de informações para tratar: as memórias de eventos perturbadores etiológicos para problemas emocionais, cognitivos e comportamentais; situações atuais que desencadeiam disfunções e a incorporação das habilidades necessárias para desafios futuros.
“A conceitualização, os procedimentos e os protocolos de caso são baseados no modelo de processamento de informações adaptativas (AIP), que postula que as memórias de eventos perturbadores podem ser fisiologicamente armazenadas de forma não processada, levando a problemas no funcionamento do dia a dia”, elucida Rosmari.

Como surgiu?

A pesquisadora Francine Shapiro (1948/2019), criadora da terapia EMDR, foi uma psicóloga estadunidense que contava que um dia, em 1987, estava caminhando em um parque, pensando em algumas coisas que a perturbavam. Assim como em muitas outras descobertas científicas feitas por acaso, ela notou que, ao fazer movimentos com os olhos, a angústia diminuía.
Intrigada, começou a pesquisar e fazer experimentos sobre o tema, descobrindo que os movimentos oculares isolados não causavam ganhos terapêuticos completos. Dessa forma, a psicóloga inseriu outros elementos na abordagem de terapia, incluindo elementos cognitivos, como a investigação das crenças ligadas às memórias que temos sobre certos acontecimentos de nossas vidas.
Shapiro empreendeu os primeiros experimentos para verificar a eficácia da nova forma de terapia. Ela observou, logo de início, que sujeitos sofrendo de memórias traumáticas, submetidos à terapia com movimentos oculares, apresentavam resultados melhores que aqueles que apenas faziam visualizações e descrição de imagens traumáticas. Isso era apenas o início dos diversos estudos comprovando a eficácia e viabilidade dessa terapia.

Características

Essa forma de terapia tem algumas características que, inicialmente, podem parecer estranhas: em algum momento do tratamento, o/a paciente acompanha com os olhos, indo de um lado para o outro, os movimentos que o/a terapeuta faz no ar com os dedos em direções opostas.
Ao mesmo tempo, a pessoa focará em uma memória traumática predeterminada, além de observar as sensações corporais ligadas ao registro negativo.
Essa estimulação bilateral permite reprocessar memórias traumáticas passadas e ter uma nova forma de viver/experimentar o mundo no presente e no futuro com significativa diminuição de sofrimento e melhora na qualidade de vida.
A utilização da estimulação bilateral favorece a pessoa permanecer focada no momento presente, enquanto revisita memórias traumáticas que podem ser muito dolorosas. Ao mesmo tempo, de acordo com hipóteses neurobiológicas, estimula os dois hemisférios cerebrais, permitindo a devida reintegração e comunicação de redes de memórias entre ambos os hemisférios.
É importante ressaltar que a terapia EMDR não se restringe à estimulação bilateral, sendo um método completo, no sentido mais amplo da palavra, com começo, meio e fim, respeitando as características de cada pessoa e levando em conta a história de vida, singularidades e recursos psicológicos, familiares e sociais disponíveis.

Como funciona?

Pode acontecer de a pessoa acreditar que o evento passado (ou registro na memória) é, hoje, irrelevante, logo, não lhe causaria maiores transtornos. No entanto, quando se toca no tema em terapia, pode se descobrir que a memória ligada a certos eventos está carregada emocionalmente e ainda tem efeito no momento presente por não ter sido devidamente processada quando aconteceu. Não é incomum que, durante o reprocessamento, memórias esquecidas, porém, com reflexos negativos no presente, venham à tona, podendo ser trabalhadas.
Dessa forma, uma importante tarefa da terapia EMDR é encontrar as conexões entre os sofrimentos atuais e as memórias não devidamente processadas e, após, reprocessá-las. Tendo a memória causadora das dificuldades sido processada, os sofrimentos levados para a terapia podem ser eliminados ou significativamente diminuídos.

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